Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 118 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Anatomia Fisiológica dos Rins

Na doença renal crônica ou na insuficiência renal aguda, essas funções de

manutenção da homeostasia são interrompidas e rapidamente ocorrem

anormalidades graves dos volumes e da composição do líquido corporal.

Com a insuficiência renal total, potássio, ácidos, líquidos e outras

substâncias se acumulam no corpo, causando a morte em poucos dias, a não

ser que intervenções clínicas, como a hemodiálise, sejam iniciadas para

restaurar, ao menos parcialmente, o equilíbrio corporal de líquidos e

eletrólitos.

 

ANATOMIA FISIOLÓGICA DOS RINS

 

ORGANIZAÇÃO GERAL DOS RINS E DO TRATO

URINÁRIO

 

Os dois rins se situam na parede posterior do abdome, fora da cavidade

peritoneal (Figura 26-2). Cada rim de ser humano adulto pesa cerca de 150

gramas e tem o tamanho aproximado de uma mão fechada. O lado medial

de cada rim apresenta região indentada chamada hilo. Pelo hilo passam a

artéria e veia renais, vasos linfáticos, suprimento nervoso e o ureter, que

carreia urina do rim para a bexiga. Na bexiga, a urina é armazenada e

periodicamente eliminada do corpo. O rim é revestido por cápsula fibrosa

resistente, que protege as estruturas internas, que são mais delicadas.

Se o rim for cortado de cima para baixo, as duas principais regiões que

podem ser visualizadas são as regiões do córtex externo e da medula

interna. A medula é dividida em 8 a 10 massas de tecidos em forma de cone

chamados pirâmides renais. A base de cada pirâmide se origina no limite

entre as regiões cortical e medular e termina na papila, que se projeta para o

espaço da pelve renal, uma estrutura em formato de funil que continua com

a extremidade superior do ureter. A borda externa da pelve é dividida em

estruturas de fundo-cego chamadas cálices maiores que se dividem em cálices menores, que coletam urina dos túbulos de cada papila. As paredes

dos cálices, da pelve e do ureter contêm elementos contráteis que propelem

a urina em direção à bexiga, onde a urina é armazenada até que seja

eliminada pela micção, discutida adiante neste Capítulo.

 

Figura 26-2. Organização geral dos rins e do sistema urinário.

 

SUPRIMENTO SANGUÍNEO RENAL

 

O fluxo sanguíneo para os dois rins corresponde normalmente a 22% do

débito cardíaco ou 1.100 mL/min. A artéria renal entra no rim pelo hilo e,

então, se divide progressivamente para formar artérias interlobares,

artérias arqueadas, artérias interlobulares (também chamadas artérias

radiais) e arteríolas aferentes, que terminam nos capilares glomerulares,

onde grandes quantidades de líquido e de solutos (exceto as proteínas

plasmáticas) são filtradas para iniciar a formação da urina (Figura 26-3). As

extremidades distais dos capilares, de cada glomérulo, coalescem para formar a arteríola eferente, que forma segunda rede de capilares, os

capilares peritubulares, que circundam os túbulos renais.

A circulação renal é única, visto ter dois leitos capilares, o glomerular e o

peritubular, organizados em série e separados pelas arteríolas eferentes.

Essas arteríolas auxiliam na regulação da pressão hidrostática nas duas

redes de capilares. A alta pressão hidrostática nos capilares glomerulares

(cerca de 60 mmHg) resulta na filtração rápida de líquidos e de eletrólitos,

enquanto pressão hidrostática mais baixa, nos capilares peritubulares (cerca

de 13 mmHg), permite sua rápida reabsorção. Por meio de modificações da

resistência das arteríolas aferente e eferente, os rins podem regular a

pressão hidrostática nos capilares glomerulares e peritubulares, alterando,

assim, a intensidade da filtração glomerular, da reabsorção tubular ou de

ambas, em resposta às demandas homeostáticas do corpo.

Os capilares peritubulares se esvaziam nos vasos do sistema venoso que

cursam paralelos aos vasos arteriolares. Os vasos sanguíneos do sistema

venoso progressivamente formam a veia interlobular, veia arqueada, veia

interlobar e veia renal, que deixam o rim pelo hilo, paralelo à artéria renal e

ao ureter.

 

O NÉFRON É A UNIDADE FUNCIONAL DO RIM

 

Cada rim humano contém cerca de 800.000 a 1 milhão de néfrons, cada um

dos quais é capaz de formar urina. O rim não pode regenerar novos néfrons.

Portanto, com a lesão renal, doença ou envelhecimento, o número de

néfrons reduz-se gradualmente. Após os 40 anos de idade, o número de

néfrons funcionais geralmente diminui por cerca de 10% a cada 10 anos;

dessa forma, com 80 anos, muitas pessoas têm 40% a menos de néfrons

funcionais em comparação à idade de 40 anos. Essa perda não põe risco à

vida, porque alterações adaptativas nos néfrons remanescentes os permitem excretar a quantidade apropriada de água, eletrólitos e produtos residuais,

como discutido no Capítulo 32.

Cada néfron contém (1) grupo de capilares glomerulares chamado

glomérulo, pelo qual grandes quantidades de líquido são filtradas do

sangue; e (2) longo túbulo, no qual o líquido filtrado é convertido em urina,

no trajeto para a pelve renal (Figura 26-3).

O glomérulo contém rede de capilares glomerulares que se unificam e se

anastomosam e que, comparados a outros capilares, têm pressão

hidrostática alta (cerca de 60 mmHg). Os capilares glomerulares são

recobertos por células epiteliais, e todo o glomérulo é envolvido pela

cápsula de Bowman.

O líquido filtrado dos capilares glomerulares flui para o interior da cápsula

de Bowman e daí para o interior do túbulo proximal que se situa na zona

cortical renal (Figura 26-4). A partir do túbulo proximal, o líquido flui para

o interior da alça de Henle, que mergulha no interior da medula renal. Cada

alça consiste em ramos descendente e ascendente. As paredes do ramo

descendente e da parte inferior do ramo ascendente são muito delgadas e,

portanto, são denominadas segmento delgado da alça de Henle. Após a

porção ascendente da alça ter retornado parcialmente de volta ao córtex, as

paredes ficam mais espessas e são denominadas segmento espesso do ramo

ascendente.

No final do ramo ascendente espesso existe um pequeno segmento que

tem em sua parede placa de células epiteliais especializadas, conhecidas

como mácula densa. Como discutiremos adiante, a mácula densa tem um

papel importante no controle da função do néfron. Depois da mácula densa,

o líquido entra no túbulo distal que, como o túbulo proximal, se situa no

córtex renal. O túbulo distal é seguido pelo túbulo conector e o túbulo

coletor cortical, que levam ao ducto coletor cortical. As partes iniciais de 8

a 10 ductos coletores corticais se unem para formar o único ducto coletor maior que se dirige para a medula e forma o ducto coletor medular. Os

ductos coletores se unem para formar ductos progressivamente maiores que

se esvaziam na pelve renal, pelas extremidades das papilas renais. Em cada

rim, existem cerca de 250 grandes ductos coletores, cada um dos quais

coleta urina de aproximadamente 4.000 néfrons.

Figura 26-3. Corte de um rim humano mostrando os vasos principais que suprem com fluxo sanguíneo o rim e esquema da microcirculação de cada néfron.

Figura 26-4. Segmentos tubulares básicos do néfron. Os comprimentos relativos dos diferentes segmentos tubulares não estão representados em escala.

 

 

Diferenças Regionais na Estrutura do Néfron: Néfrons Corticais

e Justamedulares. Embora cada néfron tenha todos os componentes

descritos anteriormente, existem algumas diferenças, dependendo de quão

profundos os néfrons se situam no interior do parênquima renal. Os néfrons

que têm os glomérulos localizados na zona cortical externa são chamados

néfrons corticais; eles têm alças de Henle curtas, que penetram apenas em

pequena extensão no interior da medula (Figura 26-5).

Cerca de 20% a 30% dos néfrons têm glomérulos mais profundos no

córtex renal, perto da medula, e são chamados néfrons justamedulares.

Esses néfrons têm longas alças de Henle que mergulham profundamente no

interior da medula, em direção às papilas renais.

As estruturas vasculares que suprem os néfrons justamedulares também

diferem das que suprem os néfrons corticais. Para os néfrons corticais, todo

o sistema tubular é envolvido por extensa malha de capilares peritubulares.

Para os néfrons justamedulares, longas arteríolas eferentes se estendem dos

glomérulos para a região externa da medula e, então, se dividem em

capilares peritubulares especializados, denominados vasa recta que se

estendem para o interior da medula, acompanhando, paralelamente, as alças

de Henle. Assim como a alça de Henle, os vasa recta retornam para a zona

cortical e se esvaziam nas veias corticais. Essa rede especializada de

capilares na medula tem papel importante na formação de urina

concentrada, como discutido no Capítulo 29.