Tratado de Fisiologia Médica
Instabilidade e Estabilidade de Circuitos Neuronais
Figura 47-17. Sinal eferente rítmico, gerado no centro respiratório pela somação de impulsos nervosos, mostrando que o aumento progressivo da estimulação do corpo carotídeo aumenta tanto a intensidade quanto a frequência do sinal do nervo frênico para o diafragma, elevando, assim, a respiração.
INSTABILIDADE E ESTABILIDADE DE CIRCUITOS
NEURONAIS
Quase todas as regiões do encéfalo se conectam, direta ou indiretamente,
com todas as outras regiões, o que cria um problema sério. Se a primeira
região excita a segunda, a segunda excita a terceira, a terceira excita a
quarta, e assim por diante, até que, por fim, o sinal excita novamente a
primeira região, fica claro que o sinal excitatório que chegue em qualquer
região do encéfalo desencadearia ciclo contínuo de reexcitação de todas as
regiões. Se esse ciclo ocorresse, o sistema nervoso seria inundado por
massa de sinais reverberantes sem controle — sinais que não transmitiriam
informação alguma, porém, ainda assim, consumiriam os circuitos
encefálicos de modo que nenhum dos sinais contendo informação poderia
ser transmitido. Efeito como esse ocorre em amplas áreas encefálicas
durante as convulsões epilépticas. Como o sistema nervoso central impede
que esse efeito ocorra todo o tempo? A resposta está principalmente em
dois mecanismos básicos que funcionam em todo o sistema nervoso central:
(1) circuitos inibitórios; e (2) fadiga das sinapses.
CIRCUITOS INIBITÓRIOS COMO UM MECANISMO PARA
A ESTABILIZAÇÃO DA FUNÇÃO DO SISTEMA NERVOSO
Dois tipos de circuitos inibitórios em áreas encefálicas extensas ajudam a
evitar a disseminação excessiva de sinais: (1) circuitos inibitórios de
feedback que retornam das terminações das vias de volta para os neurônios
excitatórios iniciais das mesmas vias (esses circuitos ocorrem em
praticamente todas as vias sensoriais e inibem tanto os neurônios aferentes quanto os interneurônios da via sensorial, quando as terminações sensoriais
são excessivamente excitadas); e (2) alguns grupamentos neuronais que
exercem controle inibitório difuso sobre amplas áreas do encéfalo (p. ex.,
muitos dos núcleos da base exercem influências inibitórias sobre os
sistemas de controle dos músculos).
FADIGA SINÁPTICA COMO MEIO DE ESTABILIZAR O
SISTEMA NERVOSO
A fadiga sináptica significa simplesmente que a transmissão sináptica fica
progressivamente mais fraca quanto mais prolongado e mais intenso for o
período de excitação. A Figura 47-18 mostra três registros sucessivos do
reflexo flexor causados por infligir dor no coxim plantar da pata de um
animal. Observe, em cada registro, que a força de contração “diminui”
progressivamente — ou seja, a maior parte desse efeito é causada pela
fadiga das sinapses no circuito do reflexo flexor. Além disso, quanto mais
curto o intervalo entre reflexos flexores sucessivos, menor a amplitude da
resposta reflexa subsequente.
Figura 47-18. Reflexos flexores sucessivos, mostrando a fadiga da condução na via envolvida neste reflexo.
Ajuste Automático a Curto Prazo da Sensibilidade da Via pelo
Mecanismo de Fadiga. Vamos agora aplicar esse fenômeno da fadiga a
outras vias do sistema nervoso central. As que são normalmente muito
utilizadas ficam fatigadas, assim ocorre a redução da sua sensibilidade. Ao
contrário, as que são subutilizadas ficam descansadas, e suas sensibilidades
aumentam. Dessa forma, a fadiga e a recuperação da fadiga constituem
meio importante a curto prazo de moderar as sensibilidades de diferentes
circuitos do sistema nervoso. Essas funções ajudam a manter os circuitos
operando em faixa de sensibilidade que permite funcionalidade efetiva.
Alterações a Longo Prazo na Sensibilidade Sináptica Causadas
por Regulação Automática Negativa ou Positiva dos Receptores
Sinápticos. As sensibilidades das sinapses, a longo prazo, podem ser
muito alteradas pelo aumento do número das proteínas receptoras nos sítios
sinápticos, quando houver hipoatividade, e pela redução do número de
receptores, quando houver hiperatividade. O mecanismo envolvido é o
seguinte: as proteínas receptoras estão sendo constantemente formadas pelo
sistema que compreende o complexo de Golgi e o retículo endoplasmático e
estão sendo constantemente inseridas na membrana sináptica do neurônio
receptor. Entretanto, quando as sinapses são superutilizadas, de modo que
excesso de substância transmissora se combine com as proteínas receptoras,
muitos desses receptores são inativados e removidos da membrana
sináptica.
É de fato muito oportuno que a regulação positiva e a regulação negativa
dos receptores, bem como outros mecanismos de controle da sensibilidade
sináptica, ajustem continuamente a sensibilidade de cada circuito para o
nível quase preciso, que é necessário para a função adequada. Pense, por
um momento, como seria complicado se as sensibilidades de apenas alguns desses circuitos fossem anormalmente elevadas; poder-se-ia então esperar a
ocorrência quase contínua de câimbras musculares, convulsões, distúrbios
psicóticos, alucinações, tensão mental ou outros distúrbios nervosos.
Porém, felizmente, os controles automáticos normalmente reajustam as
sensibilidades dos circuitos para faixas controláveis de reatividade sempre
que os circuitos estejam muito ativos ou muito deprimidos.
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