Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 295 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Secreção Gástrica

Figura 65-3. Regulação nervosa parassimpática da secreção salivar.

 

Secreção Esofágica

As secreções esofágicas são totalmente mucosas e fornecem principalmente a

lubrificação para a deglutição. O corpo principal do esôfago é revestido com

muitas glândulas mucosas simples. Na terminação gástrica e em pequena

extensão, na porção inicial do esôfago, existem também muitas glândulas

mucosas compostas. O muco produzido pelas glândulas compostas no esôfago

superior evita a escoriação mucosa causada pela nova entrada de alimento,

enquanto as glândulas compostas, localizadas próximas à junção esofagogástrica,

protegem a parede esofágica da digestão por sucos gástricos ácidos que, com

frequência, refluem do estômago para o esôfago inferior. A despeito dessa

proteção, ainda assim pode-se, às vezes, desenvolver úlcera péptica na

terminação gástrica do esôfago.

 

SECREÇÃO GÁSTRICA

CARACTERÍSTICAS DAS SECREÇÕES GÁSTRICAS

Além de células secretoras de muco que revestem toda a superfície do

estômago, a mucosa gástrica tem dois tipos importantes de glândulas

tubulares: glândulas oxínticas (também denominadas glândulas gástricas) e

glândulas pilóricas. As glândulas oxínticas (formadoras de ácido) secretam

ácido clorídrico, pepsinogênio, fator intrínseco e muco. As glândulas

pilóricas secretam sobretudo muco para proteger a mucosa pilórica do ácido

gástrico. Também secretam o hormônio gastrina.

As glândulas oxínticas ficam localizadas nas superfícies internas do corpo

e do fundo do estômago, constituindo 80% do estômago proximal. As

glândulas pilóricas ficam localizadas na porção antral do estômago, que

corresponde aos 20% distais do estômago.

 

Secreções das Glândulas Oxínticas (Gástricas)

Glândula oxíntica típica é mostrada na Figura 65-4 e é composta por três

tipos de células: (1) células mucosas do cólon, que secretam basicamente

muco; (2) células pépticas (ou principais), que secretam grandes

quantidades de pepsinogênio; e (3) células parietais (ou oxínticas), que

secretam ácido clorídrico e o fator intrínseco. A secreção de ácido

clorídrico, pelas células parietais, envolve mecanismos especiais, descritos

a seguir.

Figura 65-4. Glândula oxíntica do corpo do estômago.

 

Mecanismo Básico da Secreção de Ácido Clorídrico. Quando

estimuladas, as células parietais secretam solução ácida contendo cerca de

160 mmol/L de ácido clorídrico por litro que é, quase exatamente, isotônica

aos líquidos corporais. O pH dessa solução é da ordem de 0,8,

extremamente ácido. Nesse pH, a concentração de íons hidrogênio é cerca

de 3 milhões de vezes maior do que a do sangue arterial. Para atingir

tamanha concentração de íons hidrogê nio, são necessárias mais de 1.500

calorias de energia por litro de suco gástrico. Ao mesmo tempo que esses

íons de hidrogênio são secretados, os íons bicarbonato se difundem para o

sangue, para que o sangue venoso gástrico tenha um pH mais alto do que o

sangue arterial, quando o estômago está secretando ácido.

A Figura 65-5 mostra esquematicamente a estrutura funcio nal de célula

parietal (também denominada célula oxíntica), demonstrando que há

grandes canalículos intracelulares ramificados. O ácido clorídrico é formado nas projeções em forma de vilos nesses canalículos e é, então,

conduzido por esses canalículos até a extremidade secretora da célula.

A principal força motriz para a secreção de ácido clorídrico pelas células

parietais é a + + bomba de hidrogênio-potássio ( H-K-adenosina trifosfatase

[ATPase]). O mecanismo químico para a formação de ácido clorídrico é

mostrado na Figura 65-6 e consiste nos seguintes passos:

1. A água, dentro das células parietais, dissocia-se em H+ e hidróxido

(OH− + + ) no citoplasma celular por processo ativo, catalisado pela H-K-

ATPase. Os íons potássio, transportados para a célula pela bomba de

Na + +-K-ATPase, na porção basolateral da membrana, tendem a vazar

para o lúmen, mas são reciclados de volta para a célula pela H+ + -K-

ATPase. A Na + + +-K-ATPase basolateral produz baixa do Na intracelular,

o que contribui para a reabsorção de Na+ do lúmen dos canalículos.

Assim, a maior parte do K+ + e do Na nos canalículos é reabsorvida para

o citoplasma celular, e os íons hidrogênio tomam seus lugares nos

canalículos.

2. O bombeamento de H+ + + para fora da célula pela H-K-ATPase permite

que − − OH se acumule e forme bicarbonato (HCO), a partir do CO , 3 2

formado tanto durante o metabolismo na célula quanto o que entra na

célula, vindo do sangue. Essa reação é catalisada pela anidrase

carbônica − . O HCO é, então, transportado através da membrana 3

basolateral para o líquido extracelular, em troca de íons cloreto que

entram na célula e são secretados por canais de cloreto para os

canalículos, resultando em solução concentrada de ácido hidroclorídrico

nos canalículos. O ácido hidroclorídrico é secretado para fora pela

extremidade aberta do canalículo no lúmen da glândula.

3. A água passa para os canalículos por osmose devido aos íons extras

secretados nos canalículos. Assim, a secreção final do canalículo contém

água, ácido clorídrico em concentração de aproximadamente 150 a 160

mEq/L, cloreto de potássio na concentração de 15 mEq/L e pequena

quantidade de cloreto de sódio.

Para produzir a concentração de íons hidrogênio tão alta quanto a

encontrada no suco gástrico, é necessário o mínimo vazamento de volta

para a mucosa do ácido secretado. A maior parte da capacidade do

estômago de prevenir o vazamento do ácido de volta pode ser atribuída à

barreira gástrica, devido à formação de muco alcalino e junções estreitas

entre as células epiteliais, como descrito adiante. Se essa barreira for

danificada por substâncias tóxicas, como ocorre com o uso excessivo de

aspirina ou álcool, o ácido secretado vaza para a mucosa de acordo com seu

gradiente químico, lesando a mucosa gástrica.

 

Figura 65-5. Anatomia esquemática dos canalículos na célula parietal (oxíntica).

Figura 65-6. Mecanismo postulado para a secreção de ácido clorídrico. (Os pontos marcados com “ATP” indicam bombas ativas, e as linhas tracejadas representam osmose e difusão livre.)

 

 

Fatores Básicos que Estimulam a Secreção Gástrica São

Acetilcolina, Gastrina e Histamina. A acetilcolina, liberada pela

estimulação parassimpática, excita a secreção de pepsinogênio pelas células

pépticas, de ácido clorídrico pelas células parietais e de muco pelas células

da mucosa. Em comparação, a gastrina e a histamina estimulam fortemente

a secreção de ácido pelas células parietais, mas têm pouco efeito sobre as

outras células.

 

Secreção e Ativação de Pepsinogênio. Vários tipos ligeiramente

diferentes de pepsinogênio são secretados pelas células mucosas e pépticas das glândulas gástricas. Contudo, todas as diferentes formas de

pepsinogênios realizam as mesmas funções básicas.

Quando secretado, o pepsinogênio não tem atividade digestiva. Entretanto,

assim que entra em contato com o ácido clorídrico, o pepsinogênio é

clivado para formar pepsina ativa. Nesse processo, a molécula de

pepsinogênio, com peso molecular de aproximadamente 42.500, é clivada

para formar a molécula de pepsina com peso molecular em torno de 35.000.

A pepsina atua como enzima proteolítica, ativa em meio muito ácido (pH

ideal entre 1,8 e 3,5), mas, no pH acima de 5, não tem quase nenhuma

propriedade proteolítica e é completamente inativada em pouco tempo. O

ácido clorídrico é tão necessário quanto a pepsina para a digestão das

proteínas no estômago, como discutido no Capítulo 66.

 

Secreção do Fator Intrínseco pelas Células Parietais. A

substância fator intrínseco, que é essencial para absorção de vitamina B12

no íleo, é secretada pelas células parietais, juntamente com a secreção de

ácido clorídrico. Quando as células parietais produtoras de ácido no

estômago são destruídas, ocorre frequentemente nas pessoas a gastrite

crônica, desenvolvendo não só acloridria (ausência de secreção de ácido

gástrico), mas muitas vezes também anemia perniciosa, porque a maturação

das hemácias não acontece na ausência de estimulação da medula óssea

pela vitamina B . O fenômeno é discutido em detalhes no Capítulo 33. 12

 

GLÂNDULAS PILÓRICAS — SECREÇÃO DE MUCO E

GASTRINA

 

As glândulas pilóricas são estruturalmente semelhantes às glândulas

oxínticas, mas contêm poucas células pépticas e quase nenhuma célula

parietal. Em vez disso, contêm essencialmente células mucosas idênticas às

células mucosas do colo das glândulas oxínticas. Essas células secretam pequena quantidade de pepsinogênio, como discutido antes, e quantidade

particularmente grande de muco que auxilia na lubrificação e na proteção

da parede gástrica da digestão pelas enzimas gástricas. As glândulas

pilóricas também liberam o hormônio gastrina, que tem papel crucial no

controle da secreção gástrica, como discutiremos adiante.

 

CÉLULAS MUCOSAS DA SUPERFÍCIE

 

Toda a superfície da mucosa gástrica, entre as glândulas, apresenta camada

contínua de tipo especial de células mucosas, denominadas simplesmente

“células mucosas superficiais”. Elas secretam grande quantidade de muco

muito viscoso que recobre a mucosa gástrica com camada gelatinosa de

muco, muitas vezes, com mais de 1 milímetro de espessura,

proporcionando, assim, uma barreira de proteção para a parede gástrica,

bem como contribuindo para a lubrificação do transporte de alimento.

Outra característica desse muco é sua alcalinidade. Dessa forma, a parede

gástrica subjacente normal não é exposta à secreção proteolítica muito

ácida do estômago. O menor contato com alimentos ou qualquer irritação

da mucosa estimula diretamente as células mucosas superficiais a secretar

quantidades adicionais desse muco espesso, alcalino e viscoso.

 

ESTIMULAÇÃO DA SECREÇÃO DE ÁCIDO PELO

ESTÔMAGO

 

As Células Parietais das Glândulas Oxínticas São as Únicas

Células Que Secretam Ácido Clorídrico. Como observado antes

neste Capítulo, a acidez do líquido secretado por essas células parietais das

glândulas oxínticas pode ser bem elevada, com pH tão baixo quanto 0,8.

Entretanto, a secreção desse ácido é controlada por sinais endócrinos e

nervosos. Além disso, as células parietais são controladas por outro tipo de célula, denominada células semelhantes às enterocromafins (células ECL),

cuja função primária é a de secretar histamina.

As células ECL se localizam na submucosa, muito próximas das glândulas

oxínticas e, assim, liberam histamina no espaço adjacente às células

parietais das glândulas. A intensidade da secreção de ácido clorídrico pelas

células parietais está diretamente relacionada à quantidade de histamina

secretada pelas células ECL. Por sua vez, as células ECL são estimuladas a

secretar histamina pelo hormônio gastrina, formado na porção antral da

mucosa gástrica, em resposta às proteínas nos alimentos que estão sendo

digeridos. As células ECL podem ser estimuladas também por hormônios

secretados pelo sistema nervoso entérico da parede gástrica. Vamos discutir

primeiro o mecanismo de controle pela gastrina das células ECL e seu

controle subsequente da secreção de ácido clorídrico pelas células parietais.

 

Estimulação da Secreção de Ácido pela Gastrina. A gastrina é o

hormônio secretado pelas células da gastrina, também chamadas células G.

Essas células ficam localizadas nas glândulas pilóricas no estômago distal.

A gastrina é o peptídeo secretado em duas formas: a forma grande,

denominada G-34, que contém 34 aminoácidos, e a forma menor, G-17, que

contém 17 aminoácidos. Muito embora ambas sejam importantes, a menor é

a mais abundante.

Quando a carne ou outros alimentos proteicos atingem a região antral do

estômago, algumas das proteínas desses alimentos têm efeito estimulador

das células da gastrina, nas glândulas pilóricas, causando a liberação de

gastrina no sangue para ser transportada para as células ECL do estômago.

A mistura vigorosa dos sucos gástricos transporta a gastrina rapidamente

para as células ECL no corpo do estômago, causando a liberação de

histamina que age diretamente nas glândulas oxínticas profundas. A ação

da histamina é rápida, estimulando a secreção de ácido clorídrico gástrico. REGULAÇÃO DA SECREÇÃO DE PEPSINOGÊNIO

A estimulação da secreção de pepsinogênio pelas células pépticas nas

glândulas oxínticas é bem menos complexa do que a regulação da secreção

de ácido, ocorrendo em resposta a dois principais tipos de sinais: (1)

acetilcolina liberada pelo plexo mioentérico; e (2) ácido no estômago. É

provável que o ácido não estimule as células pépticas diretamente, mas sim

que provoque outros reflexos nervosos entéricos que amplificam os sinais

nervosos para as células pépticas. Portanto, a secreção de pepsinogênio, o

precursor da enzima pepsina que hidrolisa proteínas, é fortemente

influenciada pela quantidade de ácido no estômago. Em pessoas que

perderam a capacidade de produzir quantidades normais de ácido, a

secreção de pepsinogênio também é menor, muito embora as células

pépticas possam parecer normais.

 

Fases da Secreção Gástrica

Diz-se que a secreção gástrica se dá em três “fases” (como mostradas na

Figura 65-7): a fase cefálica, a fase gástrica e a fase intestinal.

Fase Cefálica. A fase cefálica de secreção gástrica ocorre, até mesmo, antes

de o alimento entrar no estômago, enquanto está sendo ingerido. Resulta da visão, do odor, da lembrança ou do sabor do alimento e, quanto maior o apetite,

mais intensa é a estimulação. Sinais neurogênicos que causam a fase cefálica se

originam no córtex cerebral e nos centros do apetite na amígdala e no hipotálamo. São transmitidos pelos núcleos motores dorsais dos vagos e pelos nervos vago

até o estômago. Essa fase da secreção normalmente contribui com cerca de 30%

da secreção gástrica, associada à ingestão da refeição.

Figura 65-7. Fases da secreção gástrica e sua regulação.

 

Fase Gástrica. O alimento que entra no estômago excita (1) os reflexos longos

vasovagais do estômago para o cérebro e de volta ao estômago; (2) os reflexos

entéricos locais; e (3) o mecanismo da gastrina; todos levando à secreção de suco

gástrico durante várias horas, enquanto o alimento permanece no estômago. A

fase gástrica da secreção contribui com cerca de 60% da secreção gástrica total

associada à ingestão da refeição e, portanto, é responsável pela maior parte da

secreção gástrica diária, de cerca de 1.500 mililitros.

Fase Intestinal. A presença de alimento na porção superior do intestino

delgado, em especial no duodeno, continuará a causar secreção gástrica de

pequena quantidade de suco gástrico, provavelmente devido às pequenas

quantidades de gastrina liberadas pela mucosa duodenal. Essa secreção

representa cerca de 10% da resposta de ácido à refeição.

Inibição da Secreção Gástrica por Outros Fatores Intestinais

Embora o quimo no intestino estimule ligeiramente a secreção gástrica, no início

da fase intestinal da secreção gástrica, ele paradoxalmente inibe a secreção

gástrica em outros momentos. Essa inibição resulta de pelo menos duas influências.

1. A presença de alimento no intestino delgado inicia o reflexo enterogástrico

reverso, transmitido pelo sistema nervoso mioentérico e pelos nervos

extrínsecos vagos e simpáticos, inibindo a secreção gástrica. Esse reflexo pode ser iniciado (a) pela distensão da parede do intestino delgado; (b) pela presença

de ácido no intestino superior; (c) pela presença de produtos da hidrólise de

proteínas; ou (d) pela irritação da mucosa. É, em parte, o mecanismo complexo,

discutido no Capítulo 64, de retardo do esvaziamento do estômago quando os intestinos já estão cheios.

2. A presença de ácidos, gorduras, produtos da degradação das proteínas,

líquidos hiperosmóticos ou hiposmóticos ou qualquer fator irritante no intestino

delgado superior causa a liberação dos vários hormônios intestinais. Um desses

hormônios é a secretina, especialmente importante para o controle da secreção

pancreática. Entretanto, a secretina inibe a secreção gástrica. Três outros hormônios — o peptídeo insulinotrópico dependente de glicose (peptídeo

inibidor gástrico), o polipeptídeo intestinal vasoativo e a somatostatina —

também têm efeitos leves a moderados na inibição da secreção gástrica.

O propósito dos fatores intestinais que inibem a secreção gástrica é,

provavelmente, retardar a passagem do quimo do estômago quando o intestino

delgado já estiver cheio ou hiper ativo. De fato, os reflexos inibidores enterogástricos, aliados aos hormônios inibidores, em geral, reduzem também a motilidade gástrica, ao mesmo tempo em que diminuem a secreção gástrica,

como discutido no Capítulo 64.

Secreção Gástrica durante o Período Interdigestivo. O estômago secreta

poucos mililitros de suco gástrico por hora, durante o “período interdigestivo”,

quando pouca ou nenhuma digestão está ocorrendo no tubo digestivo. A secreção que ocorre é, em geral, quase total do tipo não oxíntico, composta basicamente

por muco, pouca pepsina e quase nenhum ácido.

Os estímulos emocionais podem aumentar a secreção gástrica interdigestiva

(que é um suco muito péptico e ácido) para 50 mililitros ou mais por hora da

mesma maneira que a fase cefálica da secreção gástrica excita a secreção no início da refeição. Esse aumento de secreção, em resposta a estímulos emocionais, parece contribuir para o desenvolvimento de úlceras pépticas, como

discutido no Capítulo 67.

Composição Química da Gastrina e de Outros Hormônios Gastrointestinais