Tratado de Fisiologia Médica
Estrutura Química Básica dos Triglicerídeos (Gordura Neutra)
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
triglicerídeos, são usados para formar as membranas de todas as células do
organismo e para realizar outras funções celulares.
ESTRUTURA QUÍMICA BÁSICA DOS TRIGLICERÍDEOS
(GORDURA NEUTRA)
Como a maior parte deste Capítulo é voltada para a utilização dos
triglicerídeos como fonte de energia, devemos compreender a seguinte
estrutura química típica da molécula de um triglicerídeo.
Observe que as três moléculas de cadeia longa dos ácidos graxos estão
ligadas a uma molécula de glicerol. Os três ácidos graxos, mais comumente
encontrados nos triglicerídeos do corpo humano são (1) ácido esteárico
(mostrado na tristearina exemplificada anteriormente), que apresenta cadeia
com 18 carbonos e é completamente saturada com átomos de hidrogênio;
(2) ácido oleico, que também apresenta cadeia com 18 carbonos, mas
mostra uma dupla ligação no meio da cadeia; e (3) ácido palmítico, que tem
cadeia com 16 carbonos e é completamente saturada.
TRANSPORTE DE LIPÍDIOS NOS LÍQUIDOS CORPORAIS TRANSPORTE DE TRIGLICERÍDEOS E OUTROS
LIPÍDIOS A PARTIR DO TRATO GASTROINTESTINAL
PELA LINFA — OS QUILOMÍCRONS
Como explicado no Capítulo 66, quase todas as gorduras na dieta, com a
principal exceção de poucos ácidos graxos de cadeia curta, são absorvidas a
partir do intestino para a linfa intestinal. Durante a digestão, a maior parte
dos triglicerídeos se divide em monoglicerídeos e ácidos graxos. Então, na
passagem através das células epiteliais intestinais, os monoglicerídeos e os
ácidos graxos são ressintetizados em novas moléculas de triglicerídeos que
chegam à linfa como minúsculas gotículas dispersas, chamadas
quilomícrons (Figura 69-1), cujo diâmetro fica entre 0,08 e 0,6 micrômetro.
Pequena quantidade de apoproteína B é adsorvida às superfícies externas
dos quilomícrons. Isso deixa o restante das moléculas de proteína
projetando-se na solução hídrica adjacente, o que aumenta,
consequentemente, a estabilidade da suspensão dos quilomícrons no líquido
linfático e impede sua aderência às paredes dos vasos linfáticos.
A maioria do colesterol e dos fosfolipídios, absorvidos do trato
gastrointestinal, penetra nos quilomícrons. Assim, apesar dos quilomícrons
serem compostos principalmente por trigli cerídeos, eles contêm cerca de
9% de fosfolipídios, 3% de colesterol e 1% de apoproteína B. Os
quilomícrons são então transportados para o ducto torácico e, em seguida,
para o sangue venoso circulante na junção das veias subclávia e jugular.
Figura 69-1. Resumo das principais vias para o metabolismo de quilomícrons sintetizados no intestino e lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL) sintetizadas no fígado. AGL, ácidos graxos livres; Apo B, apolipoproteína B; Apo E, apolipoproteína E; IDL, lipoproteína de densidade intermediária; LDL, lipoproteína de baixa densidade; LPL, lípase lipoproteica.
REMOÇÃO DOS QUILOMÍCRONS DO SANGUE
Cerca de 1 hora após a refeição rica em gorduras, a concentração de
quilomícrons plasmática pode aumentar por 1% a 2% do plasma total e,
devido ao grande tamanho dos quilomícrons, o plasma assume aspecto
turvo, às vezes, amarelado. No entanto, os quilomícrons têm meia-vida de
apenas 1 hora ou menos, de modo que, depois de poucas horas, o plasma
volte a ficar claro. As gorduras são removidas dos quilomícrons, em sua
maior parte, do seguinte modo.
Os Triglicerídeos dos Quilomícrons São Hidrolizados pela
Lipase Lipoproteica e a Gordura É Armazenada no Tecido Adiposo. Grande parte dos quilomícrons é removida da circulação
sanguínea, à medida que passa pelos capilares de vários tecidos,
especialmente do tecido adiposo, do músculo esquelético e do coração.
Esses tecidos sintetizam a enzima lipase lipoproteica, que é transportada
para a superfície das células endoteliais capilares, onde hidrolisa os
triglicerídeos dos quilomícrons à medida que entram em contato com a
parede endotelial, liberando assim ácidos graxos e glicerol (Figura 69-1).
Os ácidos graxos liberados dos quilomícrons, sendo altamente miscíveis
nas membranas das células, difundem-se para o tecido adiposo e para as
células musculares. Uma vez dentro dessas células, esses ácidos graxos
podem ser usados como combustível ou novamente sintetizados em
triglicerídeos, com novo glicerol sendo suprido pelos processos metabólicos
das células de armazenamento, como discutido adiante neste Capítulo. A
lipase também causa hidrólise dos fosfolipídios; isso também libera ácidos
graxos para serem armazenados do mesmo modo nas células.
Após os triglicerídeos serem removidos dos quilomícrons, os
remanescentes dos quilomícrons enriquecidos com coleste rol são
rapidamente depurados do plasma. Os remanescentes de quilomícrons se
ligam a receptores nas células endoteliais dos sinusoides do fígado. A
apolipoproteína-E na superfície dos remanescentes de quilomícrons e
secretadas pelas células do fígado também desempenham papel importan te
na iniciação da depuração dessas lipoproteínas plasmáticas.
Os “Ácidos Graxos Livres” São Transportados no Sangue Combinados à
Albumina
Quando a gordura armazenada no tecido adiposo precisa ser usada em outras
regiões do corpo para fornecer energia, ela deve em primeiro lugar ser
transportada do tecido adiposo para o outro tecido. Seu transporte ocorre, principalmente, na forma de ácidos graxos livres. Esse transporte é conseguido
pela hidrólise dos triglicerídeos de volta à forma de ácidos graxos e glicerol.
Pelo menos duas classes de estímulos desempenham papel importante na
promoção dessa hidrólise. Primeira, quando a quantidade de glicose disponível
para a célula adiposa é inadequada, um dos produtos do metabolismo da glicose,
o a-glicerofosfato, também só está disponível em quantidades insuficientes. Como
essa substância é necessária para manter a porção glicerol dos triglicerídeos, o
resultado é a hidrólise dos triglicerídeos. Segunda, a lipase celular hormônio-
sensível pode ser ativada por diversos hormônios das glândulas endócrinas e isso
também promove hidrólise rápida dos triglicerídeos. Isto será discutido adiante,
neste Capítulo.
Ao sair dos adipócitos, os ácidos graxos passam por forte ionização no plasma,
e a porção iônica se combina imediatamente com as moléculas de albumina das
proteínas plasmáticas. Os ácidos graxos ligados desse modo são chamados
ácidos graxos livres ou ácidos graxos não esterificados, para distingui-los dos
outros ácidos graxos no plasma que existem sob a forma de (1) ésteres de
glicerol; (2) colesterol; ou (3) outras substâncias.
A concentração de ácidos graxos livres no plasma sob condições de repouso é
cerca de 15 mg/dL, totalizando apenas 0,45 grama de ácidos graxos em todo o
sistema circulatório. É curioso que mesmo essa pequena quantidade corresponda
a quase todo o transporte de ácidos graxos de uma região do corpo para outra
pelos seguintes motivos:
1. Apesar da quantidade mínima de ácidos graxos livres no sangue, a intensidade
de sua “renovação” é extremamente rápida: metade dos ácidos graxos plasmáticos é substituí da por novo ácido graxo a cada 2 a 3 minutos.
Podemos calcular que nessa intensidade quase toda a necessidade normal de
energia do corpo pode ser fornecida pela oxidação dos ácidos graxos livres transportados, sem usar nenhum carboidrato ou proteína como fonte de energia.
2. Condições que aumentam a utilização de gordura para a energia celular
também aumentam a concentração de ácidos graxos livres no sangue; de fato, a concentração às vezes se eleva por cinco a oito vezes. Aumento desse porte ocorre principalmente nos casos de inanição e no diabetes melito; em ambas as condições, a pessoa obtém pouca ou quase nenhuma energia metabólica dos
carboidratos.
Sob condições normais, apenas cerca de três moléculas de ácido graxo se
associam a cada molécula de albumina, mas até 30 moléculas de ácido graxo
podem se acoplar com uma só molécula de albumina, quando a necessidade de
transporte de ácidos graxos é extrema. Isso mostra a variabilidade do transporte
de lipídios sob diferentes condições fisiológicas.
Lipoproteínas — Sua Função Especial no Transporte do Colesterol e dos
Fosfolipídios
No estado pós-absortivo, depois que todos os quilomícrons tiverem sido
removidos do sangue, mais de 95% de todos os lipídios no plasma estarão sob a
forma de lipoproteínas. São partículas pequenas — muito menores do que os quilomícrons, mas qualitativamente similares na sua composição — contendo triglicerídeos, colesterol, fosfolipídios e proteínas. A concentração total das
lipoproteínas no plasma, em média de 700 mg por 100 mL de plasma — ou seja,
700 mg/dL —, pode se subdividir nos seguintes componentes lipoproteicos individuais:
mg/dL de plasma
Colesterol 180
Fosfolipídios 160
Triglicerídeos 160
Proteína 200
Tipos de Lipoproteínas. Além dos quilomícrons, que são lipoproteínas muito
grandes, existem quatro tipos importantes de lipoproteínas classificados segundo
suas densidades, medidas pela ultracentrifugação: (1) as lipoproteínas de muito
baixa densidade (VLDLs), contendo altas concentrações de triglicerídeos e concentrações moderadas de colesterol e de fosfolipídios; (2) as lipoproteínas de densidade intermediária (IDLs), que são VLDL das quais uma parte de
triglicerídeos foi removida, ficaram aumentadas quanto às concentrações de colesterol e de fosfolipídios; (3) as lipoproteínas de baixa densidade (LDLs),
derivadas das IDL, com a remoção de quase todos os triglicerídeos, deixando concentração especialmente elevada de colesterol e aumento moderado de
fosfolipídios; e (4) as lipoproteínas de alta densidade (HDLs), contendo
concentração elevada de proteínas (cerca de 50%), mas concentrações muito
menores de colesterol e fosfolipídios.
Formação e Função das Lipoproteínas. Quase todas as lipoproteínas são
formadas no fígado, que é também onde ocorre a síntese da maior parte do colesterol plasmático dos fosfolipídios e dos triglicerídeos. Além disso, pequenas
quantidades de HDLs são sintetizadas no epitélio intestinal, durante a absorção
dos ácidos graxos no intestino.
A função primária das lipoproteínas é a de transportar seus componentes
lipídicos no sangue. As VDLs transportam os triglicerídeos sintetizados no fígado, em sua maior parte para o tecido adiposo, enquanto as outras lipoproteínas são
especialmente importantes nos diferentes estágios de transporte dos fosfolipídios
e colesterol do fígado para os tecidos periféricos ou da periferia de volta para o
fígado. Adiante, neste Capítulo, discutiremos com mais detalhes os problemas
especiais do transporte do colesterol em relação à doença aterosclerose,
associada ao desenvolvimento de lesões gordurosas no interior das paredes
arteriais.
Depósitos de Gordura
Tecido Adiposo
Grandes quantidades de gordura são armazenadas nos dois principais tecidos
do corpo, o tecido adiposo e o fígado. O tecido adiposo costuma ser chamado
depósito de gordura ou, simplesmente, gordura tecidual.
Uma função crucial do tecido adiposo consiste em armazenar os triglicerídeos
até que sejam necessários para o suprimento de energia em outras partes do
corpo. Funções adicionais são a de proporcionar o isolamento térmico ao
organismo, como discutido no Capítulo 74, e a secreção de hormônios, como a
leptina e a adiponectina, que afetam múltiplas funções do organismo, entre elas o
apetite e o gasto de energia, como abordado no Capítulo 72.
As Células do Tecido Adiposo (Adipócitos) Armazenam Triglicerídeos. Os
adipócitos do tecido adiposo são fibroblastos modificados que armazenam
triglicerídeos, quase puros, em quantidades de até 80% a 95% de todo o volume
das células. Os triglicerídeos nos adipócitos se encontram, em geral, sob a forma
líquida. Quando os tecidos são expostos ao frio, por período prolongado, as
cadeias de ácidos graxos dos triglicerídeos celulares, em período de semanas,
ficam menores ou mais insaturadas, de modo a reduzir seu ponto de fusão,
permitindo, então, que a gordura permaneça no estado líquido. Essa característica
é particularmente importante, porque só a gordura líquida pode ser hidrolisada e
transportada para fora dos adipócitos.
As células adiposas podem sintetizar quantidades muito pequenas de ácidos
graxos e triglicerídeos, a partir dos carboidratos; essa função suplementa a
síntese de gordura no fígado, como será discutido adiante neste Capítulo.
As Lipases Teciduais Permitem a Troca de Gordura Entre o Tecido Adiposo
e o Sangue. Como discutido antes, grande quantidade de lipases está presente
no tecido adiposo. Algumas dessas enzimas catalisam a deposição de
triglicerídeos, dos quilomícrons e das lipoproteínas. Outras, quando ativadas por
hormônios, causam a clivagem dos triglicerídeos, liberando ácidos graxos livres.
Devido à rápida troca de ácidos graxos, os triglicerídeos nas células adiposas são
renovados uma vez a cada 2 ou 3 semanas, o que significa que a gordura hoje armazenada nos tecidos não é a mesma que foi armazenada no mês passado,
enfatizando, dessa forma, o estado dinâmico do armazenamento das gorduras.
Lipídios Hepáticos
As principais funções do fígado no metabolismo dos lipídios são (1) degradar os
ácidos graxos em pequenos compostos que podem ser usados como fonte de energia; (2) sintetizar triglicerídeos, principalmente a partir de carboidratos, mas
em menor extensão, também de proteínas; e (3) sintetizar outros lipídios a partir
dos ácidos graxos, em especial colesterol e fosfolipídios.
Grande quantidade de triglicerídeos aparece no fígado (1) durante os estágios
iniciais da inanição; (2) no diabetes melito; e (3) em qualquer outra condição em que as gorduras, em vez dos carboidratos, estão sendo utilizadas como fonte de
energia. Nessas condições, grande quantidade de triglicerídeos é mobilizada do
tecido adiposo, transportada como ácidos graxos livres no sangue e redepositadas como triglicerídeos no fígado, onde começam os estágios iniciais de grande parte da degradação das gorduras. Assim, sob condições fisiológicas normais, a
quantidade total de triglicerídeos no fígado é determinada, em grande parte, pela intensidade global com que os lipídios estão sendo usados para o fornecimento de
energia.
O fígado também pode armazenar grande quantidade de lipídios quando existe
lipodistrofia, condição caracterizada por atrofia ou deficiência genética dos adipócitos.
As células hepáticas, além de conterem triglicerídeos, contêm também grande
quantidade de fosfolipídios e colesterol, que estão sendo continuamente
sintetizados pelo fígado. De igual modo, as células hepáticas são muito mais capazes do que qualquer outro tecido de dessaturar os ácidos graxos, de modo
que os triglicerídeos hepáticos são normalmente muito mais insaturados do que os do tecido adiposo. Essa capacidade do fígado de realizar a dessaturação dos
ácidos graxos é funcionalmente importante para todos os tecidos do organismo,
porque muitos elementos estruturais de todas as células contêm quantidades razoáveis de gorduras insaturadas, e sua principal fonte é o fígado. Essa dessaturação é realizada por meio de uma desidrogenase nas células hepáticas.
Uso de Triglicerídeos como Fonte de Energia: Formação do Trifosfato de
Adenosina
A ingestão de gordura varia de modo considerável entre pessoas de diferentes
culturas, tendo média tão baixa como 10% a 15% da ingestão calórica, em
algumas populações asiáticas, a valores tão altos como 35% a 50% das calorias
em muitas populações ocidentais. Para muitas pessoas, o uso de gordura para
energia é, no entanto, tão importante quanto é o uso de carboidratos. Além disso,
muitos dos carboidratos ingeridos em cada refeição são convertidos em
triglicerídeos e depois armazenados; posteriormente são usados sob a forma de
ácidos graxos, liberados pelos triglicerídeos como energia.
Hidrólise dos Triglicerídeos em Ácidos Graxos e Glicerol. A primeira etapa
na utilização de triglicerídeos como fonte de energia é a sua hidrólise em ácidos
graxos e glicerol. Então, tanto os ácidos graxos como o glicerol são transportados
no sangue para os tecidos ativos, onde vão ser oxidados para liberar energia.
Quase todas as células — com algumas exceções, tais como o tecido cerebral e
as hemácias — podem usar ácidos graxos como fonte de energia.
O glicerol, quando penetra no tecido ativo, é imediatamente modificado pelas
enzimas intracelulares em glicerol-3-fosfato que entra na via glicolítica para a
metabolização da glicose e então é utilizado como fonte de energia. Antes que os
ácidos graxos possam ser empregados como energia, eles devem ser ainda mais
processados nas mitocôndrias.
Entrada dos Ácidos Graxos nas Mitocôndrias. A degradação e a oxidação
dos ácidos graxos só ocorrem nas mitocôndrias. Logo, a primeira etapa para a
utilização dos ácidos graxos é seu transporte para as mitocôndrias, um processo
mediado por transportador que usa a carnitina como substância carreadora. Uma
vez na mitocôndria, os ácidos graxos se separam da carnitina e são degradados e
oxidados.
Degradação dos Ácidos Graxos a Acetilcoenzima A pela Betaoxidação. A
molécula dos ácidos graxos é degradada nas mitocôndrias por meio da liberação
progressiva de dois segmen tos de carbono, sob a forma de acetilcoenzima A
(acetil-CoA). Esse processo, mostrado na Figura 69-2, é chamado processo de
betaoxidação para a degradação dos ácidos graxos.
Para compreender as etapas essenciais do processo de betaoxidação, observe
que na equação 1 da Figura 69-2 a primeira etapa é a combinação da molécula
de ácido graxo com a coenzima A (CoA) para formar o acil-CoA graxo. Nas
equações 2, 3 e 4, o carbono beta (o segundo carbono à direita) do acil-CoA graxo
se liga a uma molécula de oxigênio — ou seja, o carbono beta se torna oxidado.
Então, na equação 5, os dois carbonos do lado direito da molécula se separam
para liberar a acetil-CoA no líquido celular. Ao mesmo tempo, outra molécula de
CoA se liga à extremidade da porção restante da molécula de ácido graxo,
formando, assim, nova molécula de acil-CoA graxo; desta vez, no entanto, a
molécula apresenta menos dois átomos de carbono, devido à perda da primeira acetil-CoA de sua extremidade terminal.
A seguir, essa molécula mais curta de acil-CoA graxo entra na equação 2 e
passa pelas equações 3, 4 e 5 para liberar ainda outra molécula de acetil-CoA, diminuindo assim a molécula de ácido graxo original por menos dois carbonos. Além das moléculas liberadas de acetil-CoA, quatro átomos de carbono são liberados da molécula de ácido graxo, ao mesmo tempo, inteiramente distintos da
acetil-CoA.
Figura 69-2. Betaoxidação dos ácidos graxos para produzir acetilcoenzima A.
Oxidação da Acetil-CoA. As moléculas de acetil-CoA, formadas pela
betaoxidação de ácidos graxos nas mitocôndrias penetram imediatamente no ciclo
do ácido cítrico ( Capítulo 68), associando-se, em primeiro lugar, ao ácido oxaloacético para formar ácido cítrico, que é então degradado em dióxido de
carbono e átomos de hidrogênio. O hidrogênio é, subsequentemente, oxidado pelo sistema quimiosmótico oxidativo das mitocôndrias, o que também foi explicado
no Capítulo 68. A reação resultante no ciclo do ácido cítrico para cada molécula de acetil-CoA é a seguinte:
Dessa maneira, depois da degradação inicial dos ácidos graxos em acetil-CoA,
sua quebra final é exatamente a mesma que a da acetil-CoA formada a partir do ácido pirúvico, durante o metabolismo da glicose. Os átomos de hidrogênio excedentes são também oxidados pelo mesmo sistema quimiosmótico oxidativo
das mitocôndrias, utilizado na oxidação de carboidratos, liberando grande
quantidade de trifosfato de adenosina (ATP).
Grande Quantidade de ATP É Formada pela Oxidação dos Ácidos Graxos.
Na Figura 69-2, observe que os quatro átomos de hidrogênio, clivados cada vez
que uma molécula de acetil-CoA é formada de cadeia de ácido graxo, são
liberados sob a forma de flavina adenina dinucleotídeo (FADH ) reduzido, 2
nicotinamida adenina dinucleotídeo (NADH) reduzido e H+. Logo, para cada
molécula de ácido graxo esteárico metabolizada para formar nove moléculas de
acetil-CoA, 32 átomos adicionais de hidrogênio são removidos. Além disso, para
cada uma das nove moléculas de acetil-CoA que são, subsequentemente,
degradadas pelo ciclo do ácido cítrico, mais oito átomos de hidrogênio são
removidos, formando outros 72 hidrogênios. Isto perfaz o total de 104 átomos de
hidrogênio, eventualmente liberados pela degradação de cada molécula de ácido
esteárico. Deste grupo, 34 são removidos pela degradação de ácidos graxos pelas
flavoproteínas e 70 são removidos pela nicotinamida adenina dinucleotídio (NAD+)
sob a forma de NADH e H+.
Esses dois grupos de átomos de hidrogênio são oxidados nas mitocôndrias,
como discutido no Capítulo 68, mas eles entram no sistema oxidativo em pontos
diferentes. Assim, uma molécula de ATP é sintetizada para cada um dos 34
hidrogênios das flavoproteínas, e 1,5 molécula de ATP é sintetizada para cada um
dos 70 NADH e hidrogênios H+. Isto significa 34 mais 105, ou um total de 139
moléculas de ATP formadas pela oxidação do hidrogênio, derivado de cada
molécula de ácido esteárico. Outras nove moléculas de ATP são formadas no ciclo
do ácido cítrico propriamente dito (em separado do ATP liberado pela oxidação do
hidrogênio), uma para cada uma das nove moléculas de acetil-CoA
metabolizadas. Assim, um total de 148 moléculas de ATP são formadas durante a
oxidação completa da molécula de ácido esteárico. No entanto, duas ligações de
alta energia são consumidas na combinação inicial de CoA com a molécula de
ácido esteárico, correspondendo a ganho final de 146 moléculas de ATP.
Formação de Ácido Acetoacético no Fígado e Seu Transporte no Sangue
Grande parte da degradação inicial dos ácidos graxos ocorre no fígado, em
especial quando grande quantidade de lipídios está sendo usada como fonte de
energia. No entanto, o fígado utiliza apenas pequena proporção de ácidos graxos
para seu próprio processo metabólico intrínseco. Em vez disso, quando as cadeias
de ácido graxo tiverem se dividido em acetil-CoA, duas moléculas de acetil-CoA se
condensam para formar uma molécula de ácido acetoacético que é então
transportada no sangue para as outras células por todo o corpo, onde são usadas
como fonte de energia. Ocorrem os processos químicos seguintes:
Parte do ácido acetoacético também é convertida em ácido b-hidroxibutírico, e
quantidades mínimas são transformadas em acetona, segundo as seguintes
reações:
O ácido acetoacético, o ácido b-hidroxibutírico e a acetona se difundem
livremente através das membranas das células hepáticas e são transportados pelo
sangue para os tecidos periféricos. Aí, de novo, eles se difundem para as células, onde ocorrem reações reversas e formam-se moléculas de acetil-CoA. Essas moléculas, por sua vez, entram no ciclo do ácido cítrico e são oxidadas como fonte
de energia, como já explicado.
Normalmente, o ácido acetoacético e o ácido b-hidroxibutírico que entram na
corrente sanguínea são transportados tão rapidamente para os tecidos que sua
concentração conjunta no plasma raramente ultrapassa 3 mg/dL. Mesmo assim, apesar dessa pequena concentração sérica, grandes quantidades são de fato transportadas, do mesmo modo como acontece com o transporte de ácidos graxos livres. O transporte rápido de ambas essas substâncias resulta de sua alta
solubilidade nas membranas das células-alvo, que permite sua difusão quase
instantânea para as células.
Cetose durante a Inanição, no Diabetes e em Outras Doenças. As
concentrações de ácido acetoacético, ácido b-hidroxibutírico e acetona ocasionalmente aumentam para níveis muito superiores ao normal, no sangue e
nos líquidos intersticiais; essa condição é chamada cetose, porque o ácido
acetoacético é cetoácido. Os três compostos são chamados corpos cetônicos. A
cetose ocorre especialmente em consequên cia da inanição, em pessoas com
diabetes melito, e às vezes quando a dieta da pessoa é formada quase
inteiramente por gorduras. Em todos esses estados, os carboidratos não são
essencialmente metabolizados — na inanição e na dieta com elevado teor de
gorduras, porque os carboidratos não estão disponíveis, assim como no diabetes,
por não existir insulina disponível para promover o transporte da glicose para as‐
células.
Quando os carboidratos não são utilizados como energia, quase toda a energia
do corpo deve derivar do metabolismo das gorduras. Veremos adiante, neste
Capítulo, que a indisponibilidade dos carboidratos automaticamente aumenta a
intensidade da retirada dos ácidos graxos dos tecidos adiposos. Além disso,
diversos fatores hormonais — tais como o aumento da secreção dos
glicocorticoides pelo córtex adrenal, aumento da secreção do glucagon pelo
pâncreas e diminuição da secreção da insulina pelo pâncreas — aumentam ainda
mais a remoção dos ácidos graxos dos tecidos adiposos. Como consequência,
grande quantidade de ácidos graxos fica disponível (1) para as células dos tecidos
periféricos, para seu emprego como fonte de energia; e (2) para as células
hepáticas, onde grande parte dos ácidos graxos é transformada em corpos
cetônicos.
Os corpos cetônicos saem do fígado de modo a serem levados até as células.
Por diversas razões, as células são limitadas na quantidade de corpos cetônicos
que podem oxidar. A limitação mais importante é que um dos produtos do
metabolismo dos carboidratos é o oxaloacetato necessário para a ligação com a
acetil-CoA, antes que possa ser processado no ciclo do ácido cítrico. Logo, a
deficiência de oxaloacetato derivado dos carboidratos limita a entrada da acetil-
CoA no ciclo do ácido cítrico e, quando existe expansão simultânea de grande
quantidade de ácido acetoacético e de outros corpos cetônicos do fígado, as
concentrações séricas de ácido acetoacético e de ácido b-hidroxibutírico, às
vezes, sobem até 20 vezes de seu valor normal, levando, assim, à acidose
extrema, como explicado no Capítulo 31.
A acetona que se forma durante a cetose é substância volátil, parte da qual é
eliminada em pequenas quantidades no ar expi ra do pelos pulmões, dando lugar a
um hálito cetônico que é frequentemente usado como critério para o diagnóstico
da cetose.
Adaptação a uma Dieta Rica em Gorduras. Se a pessoa muda lentamente de
dieta de carboidratos para dieta quase só de gorduras, seu organismo se adapta
para utilizar mais ácido acetoacético do que o normal e, nessa circunstância em
geral, não ocorre cetose. Por exemplo, a população Inuit (esquimós), que vive por
vezes, principalmente, com dieta formada de modo quase exclusivo por gorduras, não desenvolve cetose. Sem dúvida, diversos fatores (nenhum deles ainda
completamente esclarecido) podem aumentar o metabolismo do ácido acetoacético pelas células. Depois de poucas semanas, até mesmo as células cerebrais, que normalmente obtêm toda sua energia da glicose, podem derivar de
50% até 75% de sua energia das gorduras.
Síntese de Triglicerídeos a partir dos Carboidratos
Sempre que a quantidade de carboidratos ingerida é maior do que a que pode
ser usada de imediato como fonte de energia ou do que pode ser armazenada sob forma de glicogênio, o excesso é rapidamente transformado em triglicerídeos e
armazenado, desse modo, no tecido adiposo.
Nos seres humanos, a maior parte da síntese de triglicerídeos ocorre no fígado,
mas quantidades diminutas também são sintetizadas pelo próprio tecido adiposo.
Os triglicerídeos, formados no fígado, são transportados em sua maior parte pelos VLDLs para o tecido adiposo, onde são armazenados.
Conversão da Acetil-CoA em Ácidos Graxos. A primeira etapa na síntese dos
triglicerídeos é a conversão dos carboidratos em acetil-CoA. Como explicado
no Capítulo 68, essa conversão ocorre durante a degradação normal da glicose
pelo sistema glicolítico. Como os ácidos graxos são, na verdade, grandes polímeros do ácido acético, é fácil compreender como a acetil-CoA pode ser
convertida em ácidos graxos. No entanto, a síntese dos ácidos graxos a partir da acetil-CoA, não é produzida simplesmente com a reversão da degradação oxidativa descrita antes. Em vez disso, ela ocorre por meio do processo em duas
etapas, mostrado na Figura 69-3, usando a malonil-CoA e a nicotinamida adenina
dinucleotídeo fosfato (NADPH) reduzida, como intermediários principais no processo de polimerização.
Figura 69-3. Síntese de ácidos graxos.
Combinação de Ácidos Graxos com a-Glicerofosfato para Formar
Triglicerídeos
Depois de sintetizadas, as cadeias de ácidos graxos cresceram para conter de
14 a 18 átomos de carbono; elas se ligam ao glicerol para formar triglicerídeos. As
enzimas que provocam essa conversão são muito específicas para os ácidos
graxos com comprimentos de cadeia de 14 carbonos ou mais, fator que controla a
qualidade física dos triglicerídeos armazenados no organismo.
Como vemos na Figura 69-4, a porção glicerol dos triglicerídeos é dada pelo a-
glicerofosfato, que é outro produto derivado do esquema glicolítico da degradação
de glicose. Esse mecanismo foi discutido no Capítulo 68.
Figura 69-4. Esquema global da síntese de triglicerídeos a partir da glicose.
Eficiência da Conversão de Carboidrato em Gordura. Durante a síntese dos
triglicerídeos, apenas cerca de 15% da energia original encontrada na glicose se
perdem sob a forma de calor; os 85% restantes são transferidos para os triglicerídeos armazenados.
Importância da Síntese e Armazenamento das Gorduras. A síntese da
gordura de carboidratos é especialmente importante por dois motivos: 1. A capacidade das diferentes células do corpo para armazenar os carboidratos,
sob a forma de glicogênio é, em geral, pequena; no máximo algumas poucas
centenas de gramas de glicogênio podem ser armazenadas no fígado, músculos esqueléticos e em todos os outros tecidos do corpo reunidos. Ao contrário, é
possível armazenar diversos quilos de gordura no tecido adiposo. Portanto, a
síntese de gorduras fornece meio pelo qual o excesso de energia ingerida, sob a forma de carboidratos (e proteínas), pode ser armazenado para utilização posterior. De fato, a pessoa média tem quase 150 vezes mais energia
armazenada sob a forma de gorduras do que sob a forma de carboidratos.
2. Cada grama de gordura contém quase duas vezes e meia mais calorias de
energia do que cada grama de glicogênio. Consequentemente, para um dado ganho de peso, a pessoa é capaz de armazenar diversas vezes esse valor de
energia sob a forma de gordura, do que sob a forma de carboidratos, o que é
extremamente importante quando o animal precisa de grande mobilidade para sobreviver.
Impossibilidade de Sintetizar Gorduras a partir de Carboidratos na
Ausência da Insulina. Quando a insulina não está disponível em quantidade necessária, como ocorre nas pessoas com casos graves de diabetes melito, as
gorduras são pouco sintetizadas ou até mesmo não o são, pelos seguintes
motivos: em primeiro lugar, quando a insulina não está disponível, a glicose não entra nos adipócitos, nem nas células hepáticas de modo satisfatório, assim apenas a pequena quantidade de acetil-CoA e NADPH necessárias para a síntese de gordura podem derivar da glicose. Em segundo lugar, a ausência de glicose
nas células adiposas reduz muito a disponibilidade de a-glicerofosfato, o que
também dificulta a formação de triglicerídeos pelos tecidos.
Síntese de Triglicerídeos a partir de Proteínas
Diversos aminoácidos podem ser convertidos em acetil-CoA, como será
discutido no Capítulo 70. A acetil-CoA pode então ser sintetizada a triglicerídeos.
Logo, quando as pessoas ingerem mais proteínas em suas dietas do que seus
tecidos são capazes de utilizar, grande parte do excesso é armazenada como gordura.
Regulação da Liberação de Energia dos Triglicerídeos
Preferência de Carboidratos sobre as Gorduras como Fonte de Energia na
Presença de Excesso de Carboidratos. Quando quantidades excessivas de
carboidratos estão disponíveis no corpo, os carboidratos são usados de
preferência aos triglicerídeos como fonte de energia. Existem diversas razões para
esse efeito “poupador de gordura” dos carboidratos. Em primeiro lugar: as
gorduras nas células adiposas estão presentes sob duas formas: triglicerídeos
armazenados e pequenas quantidades de ácidos graxos livres. Eles se encontram
em equilíbrio permanente. Quando quantidades excessivas de a-glicerofosfato
estão presentes (o que ocorre quando carboidratos em excesso estão
disponíveis), a sobra do a-glicerofosfato se liga aos ácidos graxos livres sob a
forma de triglicerídeos armazenados. Como resultado, o equilíbrio entre ácidos
graxos livres e triglicerídeos é desviado no sentido dos triglicerídeos
armazenados; portanto, só quantidades mínimas de ácidos graxos ficam
disponíveis para uso como fonte de energia. Como o a-glicerofosfato é produto
importante do metabolismo da glicose, a disponibilidade de grande quantidade de
glicose inibe, automaticamente, o uso de ácidos graxos como fonte de energia.
Em segundo lugar, quando carboidratos estão disponíveis em excesso, os
ácidos graxos são sintetizados mais rapidamente do que são degradados. Esse
efeito é causado, em parte, pela grande quantidade de acetil-CoA formada a partir
dos carboidratos e pela baixa concentração de ácidos graxos livres no tecido
adiposo, criando assim, condições adequadas para a conversão de acetil-CoA em
ácidos graxos.
Efeito ainda mais importante que promove a conversão de carboidratos em
gorduras, é o seguinte: a primeira etapa, que é a etapa limitante na síntese dos
ácidos graxos, é a carboxilação da acetil-CoA para formar a malonil-CoA. A
intensidade dessa reação é controlada primariamente pela enzima acetil-CoA
carboxilase, cuja atividade é acelerada em presença de intermediários do ciclo do
ácido cítrico. Quando uma quantidade excessiva de carboidrato está sendo usada,
esses intermediários aumentam, levando, automaticamente, ao aumento da
síntese de ácidos graxos.
Assim, o excesso de carboidratos na dieta não somente age como poupador de
gordura, mas também aumenta as reservas de gorduras. De fato, todo o excesso
de carboidratos não utilizados como energia ou armazenados sob a forma de
pequenos depósitos de glicogênio do corpo é convertido em gordura para
armazenamento.
Aceleração da Utilização de Gorduras como Fonte de Energia na Ausência
de Carboidratos. Todos os efeitos poupadores de gordura dos carboidratos se
perdem e são, na verdade, revertidos na ausência de carboidratos. O equilíbrio se desloca para a direção oposta e a gordura é mobilizada nos adipócitos e usada
como fonte de energia, no lugar dos carboidratos.
Também importantes são as diversas alterações hormonais que ocorrem para
promover a rápida mobilização dos ácidos graxos do tecido adiposo. Entre as mais importantes dessas alterações hormonais, encontra-se acentuada redução da secreção pancreática de insulina, devido à ausência de carboidratos. Isso não
somente reduz a utilização da glicose pelos tecidos, mas também diminui o
armazenamento das gorduras, o que desvia ainda mais o equilíbrio em favor do metabolismo das gorduras, em vez dos carboidratos.
Regulação Hormonal da Utilização das Gorduras. Pelo menos sete dos
hormônios secretados pelas glândulas endócrinas apresentam efeitos significativos sobre a utilização das gorduras. Alguns efeitos hormonais
importantes no metabolismo das gorduras — além da ausência de insulina,
discutida no parágrafo anterior — são observados aqui.
Provavelmente, o aumento mais dramático que ocorre na utilização da gordura é
observado durante exercícios pesados. Esse aumento resulta quase inteiramente da liberação de epinefrina e norepinefrina pela medula adrenal, durante os
exercícios como resultado de estímulos simpáticos. Esses dois hormônios ativam
diretamente a lipase triglicerídeo sensível a hormônio, presente em abundância nas células adiposas, e essa ativação provoca rápida ruptura dos triglicerídeos e mobilização dos ácidos graxos. Às vezes, a concentração de ácidos graxos livres
no sangue de pessoa que está realizando exercícios físicos aumenta por oito vezes o normal, e o uso desses ácidos graxos pelos músculos como fonte de
energia é aumentado proporcionalmente. Outros tipos de estresse que ativam o sistema nervoso simpático também podem aumentar a mobilização de ácidos
graxos e sua utilização de modo semelhante.
O estresse também faz com que grande quantidade de corticotropina seja
liberada pela hipófise anterior e isso faz com que o córtex adrenal secrete
quantidades adicionais de glicocorticoides. Tanto a corticotropina como os
glicocorticoides ativam a mesma lipase triglicerídeo sensível a hormônio, assim como esta é ativada pela epinefrina e norepinefrina ou por lipase similar. Quando a
corticotropina e os glicocorticoides são secretados em quantidade excessiva por
longos perío dos de tempo, como ocorre na condição endócrina chamada síndrome de Cushing, as gorduras são frequentemente mobilizadas em tal extensão que ocorre cetose. A corticotropina e os glicocorticoides são então ditos como tendo efeito cetogênico. O hormônio do crescimento apresenta efeito similar,
apesar de mais fraco do que a corticotropina e os glicocorticoides na ativação da
lipase sensível ao hormônio. Consequen temente, o hormônio do crescimento
também pode apresentar leve efeito cetogênico.
O hormônio tireoidiano causa rápida mobilização das gorduras, o que se acredita
resultar indiretamente do aumento global do metabolismo energético em todas as
células do corpo, sob a influência desse hormônio. A redução resultante na acetil-
CoA e noutros intermediários, tanto do metabolismo das gorduras como dos
carboidratos nas células, é estímulo para a mobilização das gorduras.
Os efeitos dos diferentes hormônios sobre o metabolismo serão discutidos,
posteriormente, nos Capítulos voltados para cada hormônio.
Obesidade: Deposição Excessiva de Gordura
A obesidade é analisada no Capítulo 72, com relação ao balanço dietético, mas
brevemente é causada pela ingestão de maior quantidade de alimento do que é
possível utilizar como fonte de energia. O excesso de alimento, seja formado por
gorduras, carboidratos ou por proteínas, é então armazenado quase inteiramente
como gordura no tecido adiposo, a fim de ser usado depois para energia.
Foram identificadas várias cepas de ratos em que ocorre obesidade hereditária.
Pelo menos em uma delas, a obesidade é causada por mobilização ineficaz de
gorduras do tecido adiposo pela lipase tecidual, enquanto a síntese e o
armazenamento de gorduras continuam normalmente. Esse processo de mão
única causa aumento progressivo das reservas de gordura, resultando em
obesidade grave. Múltiplos fatores genéticos que influenciam os centros de
alimentação no encéfalo ou nas vias que controlam o gasto de energia ou
modificam o armazenamento energético, podem provocar também obesidade
hereditária nos seres humanos. Entretanto, as causas monogênicas (de um só
gene) de obesidade humana são raras, como analisado no Capítulo 72.
Fosfolipídios e Colesterol
Fosfolipídios
Os principais tipos de fosfolipídios no corpo são as lecitinas, cefalinas e
esfingomielina; suas fórmulas químicas típicas são mostradas na Figura 69-5. Os
fosfolipídios sempre contêm uma ou mais moléculas de ácidos graxos e radical de
ácido fosfórico e, em geral, contêm uma base nitrogenada. Apesar de as
estruturas químicas dos fosfolipídios serem relativamente variáveis, suas
propriedades físicas são similares, porque todos são lipossolúveis, transportados
por lipoproteínas, e empregados em todo o corpo para diversas finalidades
estruturais, tais como nas membranas celulares e intracelulares.
Figura 69-5. Fosfolipídios típicos.
Formação de Fosfolipídios. Os fosfolipídios são sintetizados essencialmente
em todas as células do organismo, apesar de algumas células apresentarem capacidade especial de formá-los em grande quantidade. Provavelmente, 90%
são formados nas células hepáticas: quantidades substanciais também são
formadas pelas células epiteliais intestinais, durante a absorção intestinal dos
lipídios.
A intensidade de formação de fosfolipídios é governada, até certo ponto, pelos
fatores usuais que controlam o metabolismo global de lipídios, porque, quando os
triglicerídeos são depositados no fígado, a formação de fosfolipídios aumenta.
Também, algumas substâncias químicas específicas são necessárias para a
formação de alguns fosfolipídios. Por exemplo, a colina, obtida da dieta e
sintetizada no corpo, é necessária para a formação de lecitina, porque a colina é a
base nitrogenada da molécula de lecitina. O inositol também é necessário para a
formação de algumas cefalinas.
Usos Específicos dos Fosfolipídios. Os fosfolipídios apresentam várias
funções, entre elas incluem-se as seguintes:
1. Os fosfolipídios são componentes importantes das lipoproteínas no sangue e