Tratado de Fisiologia Médica
Condições que Causam Grandes Aumentos do Volume de Líquido Extracelular, mas com Volume Sanguíneo Normal
modo, em pacientes com grandes varizes nas pernas que, em raras
circunstâncias, podem conter 1 litro a mais de sangue, o volume sanguíneo
simplesmente aumenta para ocupar a capacidade vascular adicional. Nesses
casos, ocorre retenção de sal e de água pelos rins, até que todo o leito
vascular esteja ocupado em grau suficiente para elevar a pressão sanguínea
ao nível necessário ao equilíbrio do débito renal de líquido com sua
ingestão diária.
CONDIÇÕES QUE CAUSAM GRANDES AUMENTOS DO
VOLUME DE LÍQUIDO EXTRACELULAR, MAS COM
VOLUME SANGUÍNEO NORMAL
Em diversas condições, o volume do líquido extracelular fica
acentuadamente elevado, enquanto o volume sanguíneo permanece normal
ou até mesmo pouco reduzido. Essas condições, usualmente, são
desencadeadas pelo extravasamento de líquido e de proteína para o
interstício, o que tende a diminuir o volume sanguíneo. A resposta renal a
essas condições é semelhante à resposta observada após ocorrência de
hemorragia, ou seja, os rins conservam o sal e a água, na tentativa de
restabelecer a normalidade do volume sanguíneo. Grande parte do líquido
extra, no entanto, extravasa para o interstício, provocando edema ainda
maior.
SÍNDROME NEFRÓTICA — PERDA DAS PROTEÍNAS
PLASMÁTICAS NA URINA E RETENÇÃO DE SÓDIO
PELOS RINS
Os mecanismos gerais que promovem a formação de edema extracelular
são revistos no Capítulo 25. Uma das causas clínicas mais comuns do
edema é a chamada síndrome nefrótica. Nessa síndrome, os capilares glomerulares extravasam grande quantidade de proteína para o filtrado e
para a urina, em decorrência da maior permeabilidade do capilar
glomerular. Diariamente, pode haver perda de 30 a 50 gramas de proteína
plasmática, resultando em redução da concentração proteica do plasma para
até menos de um terço da normal. Como consequência da baixa da
concentração plasmática de proteína, os níveis da pressão coloidosmótica
do plasma diminuem. Essa ação faz com que os capilares existentes em
todo o corpo filtrem quantidade enorme de líquido para os diversos tecidos,
o que por sua vez gera edema e reduz o volume plasmático.
A retenção renal de sódio, na síndrome nefrótica, decorre de múltiplos
mecanismos ativados pelo extravasamento de proteína e de líquido do
plasma para o líquido intersticial, incluindo a estimulação dos diversos
sistemas de retenção de sódio, como o sistema renina-angiotensina-
aldosterona e, possivelmente, o sistema nervoso simpático. Os rins
continuam a conservar sódio e água até que o volume plasmático seja
restaurado quase ao normal. Entretanto, devido à grande intensidade da
retenção de sódio e água, a concentração das proteínas plasmáticas fica
ainda mais diluída, provocando mais extravasamento de líquido para os
tecidos corporais. O resultado final é a retenção maciça de líquidos pelos
rins, até a ocorrência de imenso edema extracelular, a menos que seja
instituído tratamento para repor as proteínas plasmáticas.
CIRROSE HEPÁTICA — SÍNTESE DIMINUÍDA DE
PROTEÍNAS PLASMÁTICAS PELO FÍGADO E
RETENÇÃO DE SÓDIO PELOS RINS
Na cirrose hepática, ocorre uma sequência de eventos semelhante à da
síndrome nefrótica, exceto que nela a redução da concentração das
proteínas plasmáticas provém da destruição das células hepáticas, o que
diminui a capacidade do fígado de sintetizar quantidade suficiente dessas proteí nas. A cirrose está, também, associada ao alto teor de tecido fibroso
na estrutura hepática, o que dificulta, de forma significativa, o fluxo de
sangue porta pelo fígado. Essa impedância, por sua vez, aumenta a pressão
capilar por todo o leito vascular porta, o que também contribui para o
extravasamento de líquido e de proteína para a cavidade peritoneal,
condição conhecida como ascite.
Uma vez que ocorra perda de líquido e de proteína da circulação, as
respostas renais são semelhantes às observadas em outras condições
associadas à redução do volume plasmático. Ou seja, os rins continuam a
conservar o sal e a água até que o volume plasmático e a pressão arterial
sejam restabelecidos ao normal. Em alguns casos, o volume plasmático
pode, na verdade, aumentar acima do normal, em decorrência da capacidade
vascular ampliada na cirrose; as pressões elevadas na circulação porta são
capazes de promover grande distensão venosa e, consequentemente,
aumentar a capacidade vascular.
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CAPÍTULO 31
Regulação Ácido-Base
A regulação do equilíbrio do íon hidrogênio (H +) é, de certa forma,
semelhante à regulação de outros íons no corpo. Por exemplo, para haver
homeostasia, é preciso que exista o equilíbrio entre a ingestão ou a
produção de H + + e a remoção efetiva do H do corpo. E, assim como é
verdadeiro para outros íons, os rins têm papel importante na regulação da
remoção de H + do corpo. Entretanto, o controle preciso da concentração de
H + no líquido extracelular envolve muito mais do que a simples eliminação
de H+ pelos rins. Múltiplos mecanismos de tamponamento ácido-base
envolvendo o sangue, as células e os pulmões, são também essenciais para
manter as concentrações normais de H+, tanto no líquido extracelular
quanto no intracelular.
Neste Capítulo, são considerados os diversos mecanismos que contribuem
para a regulação da concentração de H+, com ênfase especial no controle da
secreção renal de H+ e na reabsorção, produção e excreção renais de íons bicar bonato (HCO −), um dos componentes-chave dos sistemas de controle 3