Tratado de Fisiologia Médica
Dinâmica Capilar Pulmonar
pressão do átrio esquerdo ocasionam elevações igualmente grandes na
pressão arterial pulmonar, resultando em aumento concomitante da carga
sobre o lado direito do coração. Qualquer elevação da pressão atrial
esquerda acima de 7 ou 8 mmHg aumenta a pressão capilar na mesma
proporção. Quando a pressão atrial esquerda aumenta acima de 30 mmHg,
acarretando elevações similares na pressão capilar, existe grande
probabilidade de se desenvolver edema pulmonar, como discutiremos
adiante, neste Capítulo.
DINÂMICA CAPILAR PULMONAR
A troca de gases entre o ar alveolar e o sangue no capilar pulmonar será
discutida no próximo Capítulo. No entanto, é importante observarmos,
neste Capítulo, que as paredes alveolares são revestidas com tantos
capilares que, na maioria dos locais, os capilares quase se tocam lado a
lado. Portanto, frequentemente é dito que o sangue capilar flui nas paredes
alveolares como uma “lâmina de fluxo”, em vez de fluir por capilares
individuais.
Pressão Capilar Pulmonar. Nunca foram feitas medidas diretas da
pressão capilar pulmonar. Entretanto, a medida “isogravimétrica” da
pressão capilar pulmonar, utilizando a técnica descrita no Capítulo 16,
gerou valor de 7 mmHg. Essa medida, provavelmente, é quase correta, pois
a pressão média do átrio esquerdo é de cerca de 2 mmHg, e a pressão
arterial pulmonar média é de somente 15 mmHg, de modo que a pressão
capilar pulmonar média deve se situar em algum ponto entre esses dois
valores.
Tempo de Permanência do Sangue nos Capilares Pulmonares.
A partir do estudo histológico da área transversa total de todos os capilares pulmonares, pode-se calcular que, quando o débito cardíaco é normal, o
sangue passa pelos capilares pulmonares em aproximadamente 0,8 segundo.
Quando o débito cardíaco aumenta, esse tempo pode diminuir para 0,3
segundo. A diminuição deveria ser muito maior, mas, como capilares
adicionais normalmente colapsados se abrem, eles acomodam o fluxo do
sangue. Assim, em somente fração de segundo, o sangue que passa pelos
capilares alveolares é oxigenado, perdendo seu excesso de dióxido de
carbono.
TROCA DE líquidos NOS CAPILARES PULMONARES E
DINÂMICA DOS líquidos NO INTERSTÍCIO PULMONAR
A dinâmica da troca de líquidos, através das membranas dos capilares
pulmonares, é qualitativamente a mesma encontrada nos tecidos periféricos.
Entretanto, quantitativamente, existem importantes diferenças:
1. A pressão do capilar pulmonar é baixa, de aproximadamente 7 mmHg,
em comparação à pressão capilar funcional consideravelmente mais
elevada nos tecidos periféricos, de cerca de 17 mmHg.
2. A pressão do líquido intersticial no pulmão é pouco mais negativa do
que a encontrada no tecido subcutâneo periférico. (Essa pressão foi
medida de duas formas: pela inserção de micropipeta no interstício
pulmonar, gerando valor aproximado de −5 mmHg, e pela medida da
pressão de absorção de líquido oriundo do alvéolo, que gerou valor de
−8 mmHg.)
3. A pressão coloidosmótica do líquido intersticial pulmonar é em torno
de 14 mmHg, em comparação a menos da metade desse valor nos
tecidos peri féricos.
4. As paredes alveolares são relativamente finas, e o epitélio alveolar que
recobre as superfícies alveolares é tão frágil que elas podem romper-se
por qualquer pressão positiva superior à pressão do ar alveolar nos
espaços intersticiais (> 0 mmHg), o que permite o acúmulo de líquido
oriundo do espaço intersticial nos alvéolos.
Inter-relações entre a Pressão do Líquido Intersticial e Outras
Pressões no Pulmão. A Figura 39-6 mostra um capilar pulmonar,
alvéolo pulmonar e capilar linfático, drenando o espaço intersticial entre o
capilar sanguíneo e o alvéolo. Observe o equilíbrio das forças na membrana
capilar:
Figura 39-6. Forças hidrostática e osmótica no capilar (à esquerda) e na membrana alveolar (à direita) dos pulmões. Também é mostrada a extremidade de vaso linfático (centro), que bombeia o líquido oriundo dos espaços intersticiais pulmonares.
mmHg
Forças que tendem a causar influxo de líquido oriundo dos capilares e na direção do
interstício pulmonar:
Pressão capilar 7
Pressão coloidosmótica do líquido intersticial 14
Pressão negativa do líquido intersticial 8
TOTAL DA FORÇA PARA FORA 29
Forças que tendem a causar a absorção de líquido pelos capilares:
Pressão coloidosmótica do plasma 28
TOTAL DA FORÇA PARA DENTRO 28
Assim, as forças normais, direcionadas para fora, são ligeiramente maiores
do que as forças direcionadas para dentro, gerando pressão de filtração
média na membrana do capilar pulmonar, que pode ser calculada da
seguinte maneira:
mmHg
Total da força direcionada para fora +29
Total da força direcionada para dentro −28
PRESSÃO DE FILTRAÇÃO MÉDIA +1
Essa pressão de filtração causa leve fluxo contínuo de líquido dos
capilares pulmonares para os espaços intersticiais, e, exceto por pequena
quantidade que se evapora nos alvéolos, esse líquido é bombeado de volta
para a circulação pelo sistema linfático pulmonar.
Pressão Intersticial Pulmonar Negativa e o Mecanismo para a
Manutenção dos Alvéolos “Secos”. O que impede os alvéolos de se
encherem com líquido, nas condições normais? Deve ser lembrado que os
capilares pulmonares e o sistema linfático pulmonar normalmente mantêm
ligeira pressão negativa nos espaços intersticiais, ficando claro que sempre
que quantidade extra de líquido aparecer nos alvéolos ela será
simplesmente, sugada por processo mecânico para o interstício pulmonar
pelas pequenas aberturas entre as células epiteliais alveolares. A seguir, o excesso de líquido é removido pelos linfáticos pulmonares. Assim, sob
condições normais os alvéolos se mantêm “secos”, exceto por pequena
quantidade de líquido que vaza do epitélio para as superfícies de
revestimento dos alvéolos para mantê-los úmidos.
Edema Pulmonar
O edema pulmonar ocorre da mesma forma que os edemas de outros locais do
organismo. Qualquer fator que aumente a filtração de líquidos para fora dos
capilares pulmonares ou que impeça o funcionamento dos linfáticos pulmonares,
provocando o aumento da pressão do líquido intersticial pulmonar, que passe da
faixa negativa para a positiva, causará o rápido enchimento dos espaços
intersticiais pulmonares e dos alvéolos, com grande quantidade de líquido livre.
As causas mais comuns de edema pulmonar são as seguintes:
1. Insuficiência cardíaca esquerda ou doença da válvula mitral, com grandes
elevações da pressão venosa pulmonar e alagamento dos espaços intersticiais
e dos alvéolos.
2. Lesão das membranas dos capilares pulmonares, ocasionadas por infecções,
como a pneumonia, ou pela inalação de substâncias tóxicas, como o cloro
gasoso ou o gás dióxido de enxofre. Cada um desses mecanismos causa
rápido vazamento tanto de proteínas plasmáticas quanto de líquido dos capilares para os espaços intersticiais dos pulmões e para os alvéolos.
“Fator de Segurança do Edema Pulmonar”. Experiências em animais
demonstraram que a pressão capilar pulmonar normalmente deve se elevar até
valor pelo menos igual à pressão coloidosmótica do plasma nos capilares, antes
de haver edema pulmonar significativo. Por exemplo, a Figura 39-7 demonstra
como os diferentes níveis de elevação da pressão atrial esquerda aumentam o
índice de formação de edema pulmonar em cães. Lembre-se de que cada vez que
a pressão do átrio esquerdo aumenta a valores muito altos, a pressão capilar
pulmonar se eleva em nível entre 1 e 2 mmHg mais alto do que a pressão do átrio
esquerdo. Nesses experimentos, no momento em que a pressão do átrio
esquerdo atingiu 23 mmHg (fazendo com que a pressão capilar pulmonar subisse
para 25 mmHg), líquido começou a se acumular nos pulmões. Esse acúmulo de
líquido aumentou ainda mais rapidamente com a elevação adicional da pressão
capilar. A pressão coloidosmótica do plasma durante esses experimentos, foi igual
a esse nível crítico de pressão de 25 mmHg. Portanto, no ser humano, cuja
pressão coloidosmótica do plasma normal é de 28 mmHg, pode-se prever que a
pressão capilar pulmonar deverá se elevar do nível normal de 7 mmHg para mais de 28 mmHg para causar edema pulmonar, o que gera um fator de segurança
agudo contra o edema pulmonar de 21 mmHg.
Figura 39-7. Velocidade da perda de líquido para os tecidos pulmonares quando a pressão atrial esquerda (e a pressão capilar pulmonar) está elevada. (De Guyton AC, Lindsey AW: Effect of elevated left atrial pressure and decreased plasma protein concentration on the development of pulmonary edema. Circ Res 7:649, 1959.)
Fator de Segurança em Condições Crônicas. Quando a pressão capilar
pulmonar permanece cronicamente elevada (por, pelo menos, 2 semanas), os pulmões ficam ainda mais resistentes contra o edema pulmonar, porque os vasos
linfáticos se expandem bastante, aumentando sua capacidade de carrear o líquido
para fora dos espaços intersticiais, capacidade que pode aumentar por até 10
vezes. Portanto, em pacientes com estenose mitral crônica, pressões capilares pulmonares entre 40 e 45 mmHg foram encontradas sem o desenvolvimento de
edema pulmonar letal.
Rapidez da Morte em Pessoas com Edema Pulmonar Agudo. Quando a
pressão capilar pulmonar se eleva, mesmo que levemente, acima do nível do fator