Tratado de Fisiologia Médica
Anormalidades Clínicas da Regulação do Volume de Líquidos: Hipo e Hipernatremia
Muitos tipos de soluções são administrados por via intravenosa para
proporcionar nutrição a pessoas que não podem ingerir quantidades
adequadas de nutrientes. As soluções de glicose são muito utilizadas, e as
soluções de aminoácidos e de gordura homogeneizada são utilizadas em
menor escala. Quando essas soluções são administradas, suas concentrações
de substâncias osmoticamente ativas são, em geral, ajustadas
aproximadamente à isotonicidade, ou são infundidas de forma lenta para
que não perturbem consideravelmente o equilíbrio osmótico dos líquidos
corporais. Depois que a glicose ou outros nutrientes são metabolizados,
excesso de água ainda permanece, em particular, se for ingerido líquido
adicional. Nas condições normais, os rins excretam isso na forma de urina
muito diluída. O resultado final, portanto, é a adição de apenas nutrientes ao
corpo.
Frequentemente, para tratar a desidratação é utilizada uma solução de
glicose a 5%, que é quase isosmótica. Como a solução é isosmótica, pode
ser infundida por via intravenosa sem provocar inchamento das hemácias,
como ocorreria com uma infusão de água pura. Uma vez que a glicose em
solução é rapidamente transportada para as células e metabolizada, a
infusão de uma solução de glicose a 5% reduz a osmolaridade do líquido
extracelular e, em consequência, ajuda a corrigir o aumento na
osmolaridade do líquido extracelular associada à desidratação.
ANORMALIDADES CLÍNICAS DA REGULAÇÃO DO
VOLUME DE LÍQUIDOS: HIPO E HIPERNATREMIA
Uma medida disponível ao médico para avaliação do status dos líquidos do
paciente é a concentração de sódio no plasma. A osmolaridade do plasma
não é medida rotineiramente, mas, em razão do sódio e de seus ânions
associados (principalmente o cloreto) contabilizarem mais de 90% do soluto
do líquido extracelular, a concentração de sódio no plasma é indicador razoável da osmolaridade do plasma sob várias condições. Quando a
concentração de sódio no plasma é reduzida por mais do que alguns
miliequivalentes abaixo do normal (cerca de 142 mEq/L), o indivíduo tem
hiponatremia. Quando a concentração de sódio no plasma está alta, acima
do normal, o indivíduo tem hipernatremia.
Causas de Hiponatremia: Excesso de Água ou Perda de
Sódio
A redução da concentração plasmática de sódio pode resultar da perda de
cloreto de sódio do líquido extracelular ou de adição excessiva de água ao
líquido extracelular (Tabela 25-4). A perda primária de cloreto de sódio
geralmente resulta em hiponatremia–desidratação e é associada à redução
do volume do líquido extracelular. As condições que podem causar
hiponatremia, pela perda do cloreto de sódio, incluem a diarreia e o vômito.
O uso excessivo de diuréticos que inibem a reabsorção de sódio nos túbulos
renais e certos tipos de doenças renais, em que ocorre excreção excessiva de
sódio, pode causar graus moderados de hiponatremia. Por fim, a doença de
Addison, que causa a diminuição da secreção de aldosterona e, assim,
diminui a reabsorção tubular renal de sódio, pode ocasionar grau moderado
de hiponatremia.
A hiponatremia também pode ser associada à retenção excessiva de água,
que dilui o sódio do líquido extracelular, condição referida como
hiponatremia–hiperidratação. Por exemplo, a secreção excessiva de
hormônio antidiurético, que faz com que os túbulos renais reabsorvam mais
água, pode levar a hiponatremia e hiperidratação.
Tabela 25-4 Anormalidades na Regulação do Volume dos Líquidos Corporais: Hipo e
Hipernatremia
Anormalidade Causa Concentração Volume de Volume de
Plasmática de Líquido Líquido Na + Extracelular intracelular
Desidratação- Insuficiência
hiponatremia adrenal; uso
abusivo de
diuréticos
Hiperidratação- Excesso de ADH
hiponatremia (SIADH); tumor
broncogênico
Desidratação- Diabetes insípido;
hipernatremia sudorese
excessiva
Hiperidratação- Síndrome de
hipernatremia Cushing;
aldosteronismo
primário
ADH, hormônio antidiurético; SIADH, síndrome da secreção inapropriada de ADH.
Consequências da Hiponatremia: Inchaço Celular
Variações rápidas no volume celular, como resultado de hiponatremia,
podem apresentar efeitos intensos nos tecidos e na função dos órgãos,
especialmente no cérebro. A redução rápida no sódio plasmático, por
exemplo, pode causar edema das células cerebrais e sintomas neurológicos
que incluem dor de cabeça, náusea, letargia e desorientação. Se a
concentração plasmática de sódio cair rapidamente para abaixo de 115 a
120 mmol/L, o inchaço celular pode acarretar convulsões, coma, dano
cerebral permanente e morte. Devido à rigidez do crânio, o cérebro não
pode aumentar seu volume por mais de 10% sem que seja forçado o
pescoço (herniação), que pode levar a lesão cerebral permanente e morte.
Quando a hiponatremia se desenvolve lentamente por diversos dias, o
cérebro e outros tecidos respondem transportando sódio, cloreto, potássio e
solutos orgânicos, tais como glutamato, das células para o compartimento extracelular. Essa resposta atenua o fluxo osmótico de água para a célula e o
inchaço dos tecidos (Fig. 25-7).
O transporte de solutos pelas células, durante o desenvol vimento lento de
hiponatremia, no entanto, pode fazer com que o cérebro fique mais
vulnerável se a hiponatremia for corrigida muito rapidamente. Quando
soluções hipertônicas são adicionadas muito rapidamente para corrigir a
hiponatremia, essa intervenção pode ultrapassar a capacidade do cérebro de
recuperar a perda de solutos das células e pode provocar lesão osmótica dos
neurônios, associada à dismienilização, perda da bainha de mielina dos
nervos. Essa dismienilização dos neurônios, mediada por osmose, pode ser
evitada pela limitação da correção da hiponatremia crônica, para menos de
10 a 12 mmol/L em 24 horas e para menos de 18 mmol/L em 48 horas. Essa
lenta correção permite ao cérebro a recuperação dos osmoles perdidos, que
ocorreu como resultado da adaptação à hiponatremia crônica.
Hiponatremia é a causa mais comum de distúrbios eletrolíticos
encontrados na prática clínica e pode acontecer acima de 15% a 25% dos
pacientes hospitalizados.
Figura 25-7. Regulação do volume da célula cerebral durante hiponatremia. Durante
hiponatremia, causada pela perda de Na + ou excesso de H O, ocorre difusão de H O para 2 2 as células (1) e inchaço do tecido cerebral (indicado pelas linhas tracejadas). Esse processo estimula o transporte de Na+ + , K e solutos orgânicos para fora da célula (2), que, então, ocasiona difusão de água para fora das células (3). Com hiponatremia crônica, o inchaço cerebral é atenuado pelo transporte de solutos das células.
Causas de Hipernatremia: Perda de Água ou Excesso de
Sódio
O aumento da concentração de sódio no plasma, que causa também
elevação da osmolaridade, pode ser devido tanto à perda de água do líquido
extracelular, concentrando íons sódio, ou a excesso de sódio no líquido
extracelular. A perda primária de água do líquido extracelular resulta em
hipernatremia e desidratação. Essa condição pode decorrer de deficiência
da secreção do hormônio antidiurético que é necessário para que os rins
conservem a água no corpo. Como resultado dos baixos níveis de hormônio
antidiurético, os rins excretam grandes quantidades de urina diluída
(distúrbio conhecido como diabetes insípido “central”), ocasionando
desidratação e aumento da concentração do cloreto de sódio no líquido
extracelular. Em certos tipos de doenças renais, os rins não respondem ao
hormônio antidiurético, acarretando também o tipo de diabetes insípido
nefrogênico. A causa mais comum da hipernatremia, associada à redução do
volume do líquido extracelular, é a simples desidratação gerada pelo menor
ganho que a perda de água pelo corpo, o que pode ocorrer com o suor
durante exercícios pesados e prolongados.
A hipernatremia pode também ocorrer como resultado da adição excessiva
de cloreto de sódio ao líquido extracelular. Isso geralmente resulta em
hipernatremia-hiperidratação, porque o excesso de cloreto de sódio
extracelular costuma estar associado a, no mínimo, algum grau de retenção
de água pelos rins. Por exemplo, a secreção excessiva de aldosterona, que
retém sódio, pode causar discreto grau de hipernatremia e hiperidratação. A
razão, pela qual a hipernatremia não é tão grave, é que a retenção de sódio
causada pelo aumento da secreção de aldosterona estimula também a
secreção de hormônio antidiurético e faz com que os rins reabsorvam
grandes quantidades de água.