Tratado de Fisiologia Médica
Dinâmica Circulatória Anormal nos Defeitos Cardíacos Congênitos
causar insuficiência ventricular esquerda aguda, seguida de edema
pulmonar agudo. Além disso, nos pacientes com doença mitral, o exercício
pode provocar acúmulo acentuado de sangue nos pulmões, que pode levar à
formação de edema pulmonar grave ou até mesmo letal dentro de 10
minutos.
Mesmo em alguns casos leves a moderados de valvulopatia, a reserva
cardíaca do paciente diminui em proporção à gravidade da disfunção
valvular. Isto é, o débito cardíaco não se eleva como deveria durante o
exercício. Como resultado, os músculos do corpo se fatigam rapidamente
devido ao pouco aumento do fluxo sanguíneo muscular.
DINÂMICA CIRCULATÓRIA ANORMAL NOS DEFEITOS
CARDÍACOS CONGÊNITOS
Ocasionalmente, o coração ou seus vasos sanguíneos associados são
malformados durante a vida fetal; o defeito é referido como anomalia
congênita. Existem três tipos principais de anomalias congênitas do coração
e de seus vasos associados: (1) estenose do canal do fluxo sanguíneo em
algum ponto no coração ou em grande vaso estreitamente associado; (2)
anomalia que permite que o sangue reflua do lado esquerdo do coração ou
da aorta para o lado direito do coração ou para a artéria pulmonar,
reduzindo desse modo o fluxo pela circulação sistêmica, referida como
derivação (shunt) esquerda-direita; e (3) anomalia que permite ao sangue
fluir diretamente do lado direito para o lado esquerdo do coração,
reduzindo, assim, o fluxo pelos pulmões — referida como derivação
(shunt) direita-esquerda.
Os efeitos das diferentes lesões estenóticas são facilmente compreendidos.
Por exemplo, a estenose congênita da valva aórtica resulta nos mesmos
efeitos dinâmicos que a estenose da valva aórtica causada por outras lesões valvulares, ou seja, hipertrofia cardíaca, isquemia do miocárdio, redução do
débito cardíaco e uma tendência para desenvolver edema pulmonar grave.
Outro tipo de estenose congênita é a coarctação da aorta, que ocorre
muitas vezes próxima ao nível do diafragma. Essa estenose faz com que a
pressão arterial, na parte superior do corpo (acima do nível da coarctação),
seja muito maior que a pressão na parte inferior do corpo, devido à grande
resistência ao fluxo sanguíneo pela coarctação na parte inferior do corpo;
parte do sangue deve fluir em torno da coarctação por pequenas artérias
colaterais, como discutido no Capítulo 19.
O Canal Arterial Aberto é uma Derivação Esquerda-
Direita
Ao longo da vida fetal, os pulmões ficam colapsados, e a compressão
elástica dos pulmões, que mantém os alvéolos colapsados, conserva a maior
parte dos vasos sanguíneos pulmonares também colapsados. Assim, a
resistência ao fluxo sanguíneo pelos pulmões é tão grande que a pressão
arterial pulmonar é alta no feto. Além disso, devido à baixa resistência do
fluxo sanguíneo da aorta pelos grandes vasos placentários, a pressão na
aorta do feto é menor que a normal — na prática, menor que na artéria
pulmonar. Esse fenômeno faz com que quase todo o sangue arterial
pulmonar flua por uma artéria especial presente no feto que conecta a
artéria pulmonar à aorta (Fig. 23-4), denominada canal arterial, criando,
assim, uma via que não passa pelos pulmões. Esse mecanismo permite a
recirculação imediata do sangue pelas artérias sistêmicas do feto, sem que o
sangue passe pelos pulmões. Essa falta de fluxo sanguíneo pelos pulmões
não é prejudicial ao feto, pois o sangue é oxigenado na placenta.
Figura 23-4. Persistência do canal arterial, mostrando, pela intensidade da cor azul, que o sangue venoso escuro se altera no sangue oxigenado em diferentes pontos na circulação. O diagrama da direita mostra o fluxo retrógrado de sangue da aorta para a artéria pulmonar, e, depois, pelos pulmões, na segunda vez.
Fechamento do Canal Arterial após o Nascimento. Imediatamente
após o nascimento, o lactente começa a respirar, os pulmões inflam; não
apenas os alvéolos se enchem com ar, mas também a resistência ao fluxo
sanguíneo pela árvore vascular pulmonar diminui de modo muito
acentuado, permitindo que a pressão arterial pulmonar se eleve devido à
interrupção repentina do fluxo sanguíneo da aorta pela placenta. Dessa
forma, a pressão na artéria pulmonar cai, enquanto aumenta na aorta. Como resultado, o fluxo sanguíneo pelo canal arterial cessa de forma abrupta ao
nascimento e, de fato, o sangue começa a refluir pelo canal arterial da aorta
para a artéria pulmonar. Esse novo estado de refluxo do sangue faz com que
o canal arterial seja ocluí do em poucas horas a poucos dias na maioria dos
lactentes, de modo que o fluxo sanguíneo pelo canal arterial não persiste.
Acredita-se que o canal se feche, porque a concentração de oxigênio do
sangue aórtico, que passa a fluir por ele, seja cerca de duas vezes maior que
a do sangue que flui da artéria pulmonar para o canal arterial durante a vida
fetal. Presumivelmente, o oxigênio provoca a contração do músculo na
parede do canal arterial. Esse fenômeno é analisado também no Capítulo
84.
Infelizmente, em cerca de um em cada 5.500 neonatos, o canal arterial não
se fecha, causando a condição referida como persistência do canal arterial,
mostrada na Figura 23-4.
Dinâmica da Circulação com Persistência da Abertura
do Canal Arterial
Durante os primeiros meses da vida do lactente, um canal arterial aberto
muitas vezes não produz nenhuma anormali dade funcional grave.
Entretanto, enquanto a criança cresce, há aumento progressivo do
diferencial entre a alta pressão na aorta e a menor pressão na artéria
pulmonar, com elevação correspondente do refluxo de sangue da aorta para
a artéria pulmonar. Além disso, a pressão sanguínea aórtica alta faz com
que, em geral, o diâmetro do canal parcialmente aberto aumente com o
tempo, tornando a condição cada vez pior.
Recirculação pelos Pulmões. Na criança de mais idade, com
persistência do canal arterial, metade a dois terços do sangue aórtico
refluem por esse canal para a artéria pulmonar, a seguir pelos pulmões e, por fim, voltando ao ventrículo esquerdo e aorta, passando pelos pulmões e
pelo lado esquerdo do coração duas ou mais vezes a cada passada pela
circulação sistêmica. As pessoas com essa condição clínica não apresentam
cianose, a não ser na fase mais avançada da vida, quando ocorre
insuficiência cardíaca ou congestão pulmonar. De fato, no início da vida, o
sangue arterial é muitas vezes mais bem oxigenado que o normal, devido ao
número adicional de passagens pelos pulmões.
Reservas Cardíaca e Respiratória Diminuídas. Os principais efeitos
da persistência do canal arterial sobre o paciente são as diminuições das
reservas cardíaca e respiratória. O ventrículo esquerdo está bombeando
aproximadamente duas ou mais vezes o débito cardíaco normal, e o
máximo que ele pode bombear após hipertrofia cardíaca é cerca de quatro a
sete vezes o normal. Por conseguinte, durante o exercício, o fluxo
sanguíneo efetivo pelo restante do corpo nunca pode aumentar até os níveis
necessários pela atividade vigorosa. Mesmo com o exercício
moderadamente vigoroso, é provável que o indivíduo se sinta fraco,
podendo até mesmo desmaiar por causa da insuficiência cardíaca
momentânea.
As altas pressões nos vasos pulmonares, causadas pelo excesso de fluxo
pelos pulmões, podem também levar à congestão pulmonar e ao edema
pulmonar. Como resultado da carga excessiva sobre o coração e, de modo
especial, devido à congestão pulmonar tornar-se progressivamente mais
grave com a idade, a maioria dos pacientes com persistência do canal
arterial não corrigida morre de cardiopatia entre os 20 e 40 anos de idade.
Bulhas Cardíacas: Sopro de Maquinário
No recém-nascido com persistência do canal arterial, ocasionalmente
nenhum som cardíaco anormal é ouvido devido à quantidade do fluxo reverso de sangue pelo canal arterial poder ser insuficiente para causar
sopro cardíaco. Porém, enquanto a criança cresce, alcançando a idade de 1 a
3 anos, um sopro sibilante e áspero começa a ser ouvido na área da artéria
pulmonar do tórax, como mostrado no registro F da Figura 23-3. Esse som é
muito mais intenso durante a sístole, quando a pressão aórtica é alta, e
muito menos intenso durante a diástole, quando a pressão aórtica cai para
níveis baixos, de modo que o sopro aumenta e diminui a cada batimento do
coração, criando o denominado sopro de maquinário.
Tratamento Cirúrgico
O tratamento cirúrgico da persistência do canal arterial é simples; é preciso
somente ligar o canal persistente ou dividi-lo e, a seguir, fechar as duas
extremidades. Na prática, essa foi uma das primeiras cirurgias cardíacas
realizadas com sucesso.
A Tetralogia de Fallot é uma Derivação Direita-Esquerda
A tetralogia de Fallot é mostrada na Figura 23-5; ela consiste na causa mais
comum de “bebês azuis”. A maior parte do sangue não passa pelos
pulmões, de modo que o sangue aórtico é, em sua maior parte, sangue
venoso não oxigenado. Nessa condição, quatro anormalidades do coração
ocorrem simultaneamente:
1. A aorta origina-se do ventrículo direito, em vez do esquerdo, ou se
sobrepõe a orifício no septo, como mostrado na Figura 23-5, recebendo
sangue de ambos os ventrículos.
2. Como a artéria pulmonar é estenosada, passam quantidades de sangue
muito inferiores às normais do ventrículo direito para os pulmões; em
vez disso, a maior parte do sangue passa diretamente para a aorta,
desviando-se, assim, dos pulmões.
3. O sangue do ventrículo esquerdo flui pelo orifício do septo ventricular
para o ventrículo direito, e, a seguir, para a aorta ou então diretamente
para a aorta sobreposta a esse orifício.
4. Como o lado direito do coração deve bombear grandes quantidades de
sangue contra a alta pressão na aorta, sua musculatura é muito
desenvolvida, causando aumento no ventrículo direito.
Figura 23-5. Tetralogia de Fallot mostrando, pela intensidade da cor azul, que a maior parte do sangue venoso escuro é desviada do ventrículo esquerdo para a aorta, sem passar pelos pulmões.
Dinâmica Circulatória Anormal. É prontamente aparente que a
principal dificuldade fisiológica ocasionada pela tetralogia de Fallot é a derivação do sangue que passa pelos pulmões sem ser oxigenado. Até 75%
do sangue venoso, que retorna ao coração, passam diretamente do
ventrículo direito para a aorta sem ser oxigenado.
O diagnóstico da tetralogia de Fallot é baseado geralmente (1) no fato de
que a pele do lactente está cianótica (azul); (2) na medida da alta pressão
sistólica no ventrículo direito, registrada por meio de cateter; (3) em
alterações características do perfil radiológico do coração, mostrando
aumento do ventrículo direito; e (4) em angiogramas (radiografias)
mostrando fluxo sanguíneo anormal através do orifício do septo
interventricular e na aorta sobreposta a ele, porém com fluxo bem menor
pela artéria pulmonar estenosada.
Tratamento Cirúrgico. A tetralogia de Fallot pode usualmente ser
tratada, com sucesso, pela cirurgia. A cirurgia comum é abrir a estenose
pulmonar, fechar o defeito do septo e reconstruir a via de fluxo na aorta.
Quando a cirurgia é bem-sucedida, a expectativa de vida média eleva de
apenas 3 a 4 anos para 50 anos ou mais.
Causas das Anomalias Congênitas
As doenças cardíacas congênitas não são incomuns, ocorrendo em cerca de
8 a cada 1.000 nascidos vivos. Uma das causas mais comuns de defeitos
cardíacos congênitos é a infecção viral na mãe, durante o primeiro trimestre
de gravidez, quando o coração fetal está sendo formado. Os defeitos são
particularmente propensos a se desenvolver quando a mãe expectante
contrai rubéola.
Alguns defeitos congênitos do coração são hereditários, pois o mesmo
defeito é observado em gêmeos idênticos, como também em gerações
sucessivas. Os filhos de pacientes, tratados cirurgicamente para cardiopatias
congênitas, têm cerca de 10 vezes mais probabilidade de apresentar cardiopatia congênita que outras crianças. Os defeitos congênitos do