Tratado de Fisiologia Médica
A Combinação de Excesso de H+ com Tampões Fosfato e Amônia no Túbulo Gera “Novo” Hco3 –
Figura 31-6. + Secreção ativa primária de H através da membrana luminal (apical) das células epiteliais intercaladas tipo A dos túbulos distais e coletores finais. As células tipo A contêm hidrogênio-adenosina trifosfatase (ATPase) e hidrogênio-potássio-ATPase na membrana luminal e secretam íons hidrogênio enquanto reabsorvem íons bicarbonato e
potássio em caso de acidose. Observe que um HCO − + é absorvido para cada H 3
secretado, e um íon cloreto é passivamente secretado com o H+.
A COMBINAÇÃO DE EXCESSO DE H+ COM TAMPÕES
FOSFATO E AMÔNIA NO TÚBULO GERA “NOVO” HCO3−
Quando a quantidade de H+ secretado para o líquido tubular é maior que a
quantidade de HCO − + filtrado, apenas pequena parte do H em excesso 3
pode ser excretada sob a forma iônica (H+) na urina. Isso é devido ao pH
mínimo da urina que é de cerca de 4,5, correspondendo à concentração de
H + −4,5 de 10 mEq/L, ou 0,03 mEq/L. Assim, para cada litro de urina
formada, um máximo de apenas 0,03 mEq de H+ pode ser excretado. Para excretar 80 mEq de ácido não volátil, formado pelo metabolismo todos os
dias, cerca de 2.667 litros de urina teriam de ser excretados se todo o H+
permanecesse livre na solução.
A excreção de grandes quantidades de H+ (às vezes, de até 500 mEq/dia)
na urina é feita, basicamente, combinando-se o H+ com tampões no líquido
tubular. Os tampões mais importantes são o tampão fosfato e o tampão
amônia. Existem outros sistemas tampões fracos, como o do urato e o do
citrato, mas são menos importantes.
Quando o H+ − é titulado no líquido tubular com HCO, isso resulta na 3
reabsorção de um HCO − + para cada H secretado, como discutido 3
anteriormente. Entretanto, quando ocorre excesso de H+ no líquido tubular,
ele se combina com outros tampões que não o HCO −, resultando na 3
geração de novo HCO − que também pode entrar no sangue. Assim, quando 3
ocorre excesso de H + no líquido extracelular, os rins não só reabsorvem
todo o HCO − − filtrado, como também geram HCO, ajudando assim a 3 3
repor o HCO − perdido do líquido extracelular na acidose. Nas próximas 3
duas seções, discutiremos os mecanismos pelos quais os tampões fosfato e
amônia contribuem para a geração de novo HCO −. 3
O SISTEMA TAMPÃO FOSFATO TRANSPORTA O
EXCESSO DE H+ PARA A URINA E GERA NOVO HCO3−
O sistema tampão fosfato é composto por HPO = − e H PO. Ambos são 4 2 4
concentrados no líquido tubular, porque a água é normalmente reabsorvida
em maior grau que o fosfato pelos túbulos renais. Portanto, embora o
fosfato não seja tampão de líquido extracelular importante, é muito mais
eficiente como tampão no líquido tubular.
Outro fator que faz do fosfato tampão tubular importante é o fato de o pK
desse sistema ser de cerca de 6,8. Sob condições normais, a urina é ligeiramente ácida, e o pH da urina fica próximo ao pK do sistema tampão
fosfato. Portanto, nos túbulos, o sistema tampão fosfato normalmente
funciona na sua faixa de pH mais efetiva.
A + Figura 31-7 mostra a sequência de eventos pelos quais o H é excretado
em combinação com o tampão fosfato e o mecanismo pelo qual o novo
HCO − + é acrescentado ao sangue. O processo de secreção de H nos túbulos 3
é o mesmo descrito antes. Enquanto houver excesso de HCO − no líquido 3
tubular, grande parte do H+ − secretado combina-se com HCO. Entretanto, 3
quando todo o HCO − tiver sido reabsorvido e não estiver mais disponível 3
para combinar-se com H+ + , qualquer excesso de H pode se combinar com
HPO = + ou outros tampões tubulares. Depois que o H se combina com 4
HPO = − para formar H PO, pode ser excretado como um sal de sódio 4 2 4
(NaH + PO ), carreando H em excesso. 2 4
Existe diferença importante entre essa sequência de excreção de H+ e a
discutida antes. Neste caso, o HCO − que é gerado na célula tubular e entra 3
no sangue peritubular representa ganho efetivo de HCO − pelo sangue, em 3
vez de simplesmente ser reposição do HCO − filtrado. Portanto, sempre que 3
um H+ secretado no lúmen tubular se combinar com tampão que não o
HCO − − , o efeito líquido é a adição de novo HCO ao sangue. Esse 3 3
processo demonstra um dos mecanismos pelos quais os rins são capazes de
recompor as reservas de HCO − do líquido extracelular. 3
Sob condições normais, grande parte do fosfato filtrado é reabsorvida e
apenas cerca de 30 a 40 mEq/dia ficam disponíveis para tamponar H+.
Portanto, grande parte do tamponamento do H + em excesso no líquido
tubular durante a acidose se dá por meio do sistema tampão amônia.
Figura 31-7. + Tamponamento dos H secretados pelo fosfato (NaHPO ) filtrado. Observe 4
que novo íon bicarbonato vai para o sangue para cada NaHPO + que reage com um H 4
secretado.
EXCREÇÃO DO EXCESSO DE H+ E GERAÇÃO DE NOVO
HCO3− PELO SISTEMA TAMPÃO AMÔNIA
O segundo sistema tampão no líquido tubular, ainda mais importante em
termos quantitativos do que o sistema tampão fosfato, é composto pela
amônia (NH + ) e pelo íon amônio (NH). O íon amônio é sintetizado a 3 4
partir da glutamina, que se origina basicamente do metabolismo de
aminoácidos no fígado. A glutamina liberada para os rins é transportada
pelas células epiteliais dos túbulos proximais, do segmento ascendente
espesso da alça de Henle e dos túbulos distais (Figura 31-8). Uma vez
dentro da célula, cada molécula de glutamina é metabolizada em séries de
reações que no final formam dois NH + − + e dois HCO . O NH é secretado 4 3 4
para o lúmen tubular por mecanismo de contratransporte em troca de sódio,
que é reabsorvido. O HCO − é transportado através da membrana 3
basolateral em conjunto com o Na + reabsorvido para o líquido intersticial, e
é captado pelos capilares peritubulares. Assim, para cada molécula de
glutamina metabolizada no túbulo proximal, dois NH + são secretados na 4
urina e dois HCO − − são reabsorvidos no sangue. O HCO, gerado por esse 3 3
processo, constitui novo HCO −. 3
Nos túbulos coletores, a adição de NH + ao líquido tubular ocorre por 4
mecanismo diferente ( + Figura 31-9 ). Aqui, o H é secretado pela membrana
tubular para o lúmen, onde se combina com NH + para formar NH que é 3 4
excretado. Os ductos coletores são permeáveis ao NH , que consegue se 3
difundir facilmente para o lúmen tubular. Entretanto, a membrana luminal
dessa parte dos túbulos é bem menos permeável ao NH +; por conseguinte, 4
uma vez o H + + + tenha reagido com NH para formar NH , o NH fica no 3 4 4
lúmen e é eliminado na urina. + − Para cada NH excretado, um novo HCO 4 3
é gerado e adicionado ao sangue.
Figura 31-8. + Produção e secreção do íon amônio (NH) pelas células tubulares proximais. 4
A glutamina é metabolizada na célula, gerando NH + + e bicarbonato. O NH é secretado 4 4 para o lúmen pela bomba de sódio-NH +. Para cada molécula de glutamina metabolizada, 4
dois NH + − são produzidos e secretados e dois HCO retornam para o sangue. 4 3
Figura 31-9. Tamponamento da secreção do íon hidrogênio pela amônia (NH ) nos túbulos 3 coletores. A amônia se difunde do lúmen tubular, onde reage com os íons hidrogênio
secretados, formando NH + + que é, então, excretado. Para cada NH excretado, novo 4 4
HCO − é formado nas células tubulares. O novo bicarbonato vai para o sangue. 3
A Acidose Crônica Aumenta a Excreção de NH4 +. Um dos aspectos
mais importantes do sistema tampão amônio-amônia renal é estar sujeito ao
controle fisiológico. O eleva da concentração de H+ no líquido extracelular
estimula o metabolismo renal da glutamina e, portanto, eleva a formação de
NH + − + e novo HCO para serem usados no tamponamento de H; a queda 4 3
na concentração de H + tem o efeito oposto.
Sob + condições normais , a quantidade de H eliminada pelo sistema
tampão amônia é responsável por cerca de 50% do ácido excretado e 50%
do novo HCO − gerado pelos rins. Entretanto, na acidose crônica, a 3
excreção de NH + pode aumentar para até 500 mEq/dia. Portanto, na 4