Tratado de Fisiologia Médica
Funções de Áreas Corticais Específicas
Figura 58-2. Áreas do córtex cerebral que se conectam com porções específicas do tálamo.
FUNÇÕES DE ÁREAS CORTICAIS ESPECÍFICAS
Estudos em seres humanos mostraram que áreas corticais cerebrais distintas
têm funções diferenciadas. A Figura 58-3 mapeia algumas dessas funções
como determinadas pela estimulação elétrica do córtex, em pacientes
acordados ou durante exame neurológico dos pacientes após a remoção de
partes do córtex. Os pacientes, que foram eletricamente estimulados,
relataram seus pensamentos evocados pela estimulação e, algumas vezes,
eles apresentaram movimentos. Por vezes, eles espontaneamente emitiram
sons ou mesmo uma palavra ou apresentaram algum sinal associado à
estimulação.
O uso das várias informações combinadas às encontradas em diversas
fontes da literatura, permite-nos construir mapa mais geral, como mostrado
na Figura 58-4. Essa figura exibe as principais áreas primária e secundária
pré-motoras e áreas motoras suplementares do córtex, bem como as
principais áreas primárias e secundárias sensoriais para a sensação
somática, a visão e a audição, todas discutidas em Capítulos anteriores. As
áreas motoras primárias mantêm conexões diretas com grupamentos
musculares específicos, com o objetivo de causar movimentos musculares
isolados. As áreas sensoriais primárias detectam sensações específicas —
visual, auditiva ou somática — transmitidas dos órgãos sensoriais
periféricos diretamente para o cérebro.
As áreas secundárias integram e dão significado aos sinais recebidos das
áreas primárias. Por exemplo, as áreas motora suplementar e pré-motora
funcionam juntas com o córtex motor primário e os gânglios da base para
fornecer “padrões” de atividade motora. Do lado sensorial, as áreas
sensoriais secundárias, localizadas a poucos centímetros das áreas
primárias, começam a analisar os significados dos sinais sensoriais específicos, como (1) interpretação do formato ou textura de um objeto em
uma das mãos; (2) interpretação de cor, intensidade da luz, direção das
linhas e ângulos e outros aspectos da visão; e (3) interpretações dos
significados dos tons sonoros e sequência de sons nos sinais auditivos.
Figura 58-3. Áreas funcionais do córtex cerebral humano, como determinadas pela estimulação elétrica do córtex, durante operações neurocirúrgicas e por exames neurológicos de pacientes com regiões corticais lesadas. (Modificada de Penfield W, Rasmussen T: The Cerebral Cortex of Man: A Clinical Study of Localization of Function. New York: Hafner, 1968.)
ÁREAS ASSOCIATIVAS
A Figura 58-4 também mostra grandes áreas do córtex cerebral, que não se
encaixam nas rígidas categorias de áreas motoras e sensoriais primárias ou
secundárias. Essas áreas são chamadas áreas associativas, por receberem e
analisarem sinais simultâneos de múltiplas regiões, tanto dos córtices
motores e sensoriais, quanto das estruturas subcorticais. No entanto, até
mesmo as áreas associativas têm suas especializações. As áreas associativas
importantes incluem (1) a área associativa parieto-occipitotemporal; (2) a
área associativa pré-frontal; e (3) a área associativa límbica.
Figura 58-4. Localizações das principais áreas associativas do córtex cerebral, bem como as áreas motoras e sensoriais primárias e secundárias.
Área Associativa Parieto-occipitotemporal A área associativa parieto-occipitotemporal fica no grande espaço parieto-
occipital, limitado à frente, pelo córtex somatossensorial, abaixo pelo córtex
visual e ao lado pelo córtex auditivo. Como seria de se esperar, ela fornece
alto nível de interpretação para os sinais de todas as áreas sensoriais
adjacentes. Entretanto, mesmo a área associativa parieto-occipitotemporal
tem suas próprias subáreas funcionais, mostradas na Figura 58-5.
Análise das Coordenadas Espaciais do Corpo. A área que se inicia
no córtex parietal posterior e se estende até o córtex occipital é capaz de
realizar análise contínua das coordenadas espaciais de todas as partes do
corpo, bem como do seu entorno. Essa área recebe informação sensorial
visual do córtex occipital, situado posterior e, simulta neamente, informação
somatossensorial do córtex parietal situa do à sua frente. Com todas estas
informações, essa região é capaz de calcular as coordenadas visuais,
auditivas e da que circunda o corpo.
A Área de Wernicke é Importante para Compreensão da
Linguagem. A principal área envolvida, na compreensão da linguagem,
chamada área de Wernicke, se localiza atrás do córtex auditivo primário, na
parte posterior do giro superior do lobo temporal. Discutiremos, adiante,
essa área com muito mais detalhes; ela é a região mais importante de todo o
cérebro que está envolvida com a função intelectual superior, uma vez que
quase todas as funções intelectuais são baseadas na linguagem.
A Área do Giro Angular É Necessária para o Processamento
Inicial da Linguagem Visual (Leitura). Atrás da área de compreensão
da linguagem, localizada principalmente na região anterolateral do lobo
occipital, fica a área associativa visual que supre informação visual, na
forma de palavras lidas em livro, à área de Wernicke, a área de compre‐
ensão da linguagem. Essa área, chamada giro angular, é necessária para dar significado às palavras percebidas visualmente. Em sua ausência, a pessoa
pode ainda ter excelente compreensão da linguagem pela audição, mas não
pela leitura.
A Área para a Nomeação de Objetos. Na parte mais lateral da região
anterior do lobo occipital e da região posterior do lobo temporal fica a
área responsável pela nomeação dos objetos. Esses nomes são aprendidos,
principalmente, pela audição, enquanto a natureza física dos objetos é
aprendida em sua maior parte pela visão. Por sua vez, os nomes são
essenciais para a compreensão das linguagens visual e auditiva (funções
realizadas pela área de Wernicke, localizada imediatamente superior à
região auditiva de “nomeação” e anterior à área de processamento visual da
palavra).
Área Associativa Pré-frontal
Como discutido no Capítulo 57, a área associativa pré-frontal funciona em
íntima associação ao córtex motor, para planejar padrões complexos e
sequências de movimentos. Para ajudar nesta função, ele recebe muitas
informações por meio de feixe subcortical maciço de fibras nervosas, que
conectam a área associativa parieto-occipitotemporal com a área associativa
pré-frontal. Por esse feixe, o córtex pré-frontal recebe muitas informações
sensoriais pré-analisadas, especialmente informações sobre as coordenadas
espaciais do corpo que são necessárias para o planejamento dos
movimentos efetivos. A maior parte da eferência da área pré-frontal, para o
sistema de controle motor, passa pela porção do caudado, envolvida com o
circuito de feed back de gânglios da base-tálamo, responsável por muitos
dos componentes paralelos e sequenciais do movimento.
A área associativa pré-frontal é, também, essencial para executar os
processos “mentais”. Essa característica, presumivelmente, resulta de algumas das mesmas capacidades do córtex pré-frontal que o permitem
planejar as atividades motoras. Ele parece ser capaz de processar tanto
informação não motora quanto motora, de áreas disseminadas do cérebro e,
consequentemente, realizar tipos de pensamentos não motores, bem como
tipos motores. De fato, a área associativa pré-frontal é, com frequência,
descrita simplesmente como sendo importante para a elaboração dos
pensamentos e é dita armazenar, a curto prazo, as “memórias de trabalho”
que são usadas para combinar novos pensamentos, enquanto eles estão
sendo processados no cérebro.
A Área de Broca Fornece a Circuitaria Neural Necessária para a
Formação das Palavras. A área de Broca, mostrada na Figura 58-5,
fica localizada, em parte, no córtex pré-frontal posterolateral e em parte na
área pré-motora. É aí, onde ocorre o planejamento dos padrões motores,
para a expressão de palavras individuais ou, até mesmo, onde frases curtas
são iniciadas e executadas. Essa área também atua em associação íntima ao
centro de compreensão da linguagem de Wernicke, no córtex associativo
temporal, como discutiremos adiante neste Capítulo.
Descoberta especialmente interessante é a seguinte: quando a pessoa já
aprendeu uma língua e, então, aprende nova língua, a área do cérebro onde
a nova língua é armazenada é ligeiramente removida do local onde foi
armazenada a primeira língua. Se ambas as línguas forem aprendidas
simultaneamente, elas são armazenadas juntas, na mesma área do cérebro.
Figura 58-5. Mapa das áreas funcionais específicas no córtex cerebral, mostrando especialmente as áreas de Wernicke e de Broca para compreensão da linguagem e produção da fala, que em 95% de todas as pessoas ficam localizadas no hemisfério esquerdo.
Área Associativa Límbica
As Figuras 58-4 e 58-5 mostram, ainda, outra área associativa chamada
área associativa límbica. Essa área está no polo anterior do lobo temporal,
na porção ventral do lobo frontal, e no giro cingulado, na profundidade da
fissura longitudinal, na superfície medial de cada hemisfério cerebral. Ela
se ocupa primariamente com comportamento, emoções e motivação. Vamos
discutir, no Capítulo 59, que o córtex límbico é parte de sistema muito mais
extenso, o sistema límbico, que inclui a rede complexa de estruturas
neuronais, nas regiões mediobasais do cérebro. Esse sistema límbico é
responsável pela maioria dos impulsos emocionais que ativam outras áreas do encéfalo, fornecendo comando motivacional para o próprio processo de
aprendizado.
Área para Reconhecimento de Faces
Tipo interessante de anormalidade cerebral, chamada prosofenosia, é a
incapacidade de reconhecer faces. Esse distúrbio ocorre em pessoas que têm
lesão extensa nas superfícies inferiores mediais de ambos os lobos
occipitais, juntamente com as superfícies medioventrais dos lobos
temporais, como mostrado na Figura 58-6. A perda dessas áreas de
reconhecimento facial, muito estranhamente, resulta em outras pequenas
anormalidades das funções cerebrais.
Pode-se perguntar por que parte tão grande do córtex cerebral deve ser
reservada para a simples tarefa de reconhecimento facial. Entretanto, a
maioria de nossas tarefas diárias envolve associações com outras pessoas e,
assim, pode-se perceber a importância dessa função intelectual.
A porção occipital dessa área de função de reconhecimento facial é
contígua com a do córtex visual, e a porção temporal está em íntima
associação ao sistema límbico, que está envolvido com as emoções, a
ativação cerebral, e controla a resposta comportamental ao ambiente, como
descrito no Capítulo 59.
Figura 58-6. Áreas de reconhecimento facial, localizadas na face inferior do cérebro na região medial dos lobos occipital e temporal. (Modificada de Geschwind N: Specializations of the human brain. Sci Am 241:180, 1979.)
FUNÇÃO COMPREENSIVA/INTERPRETATIVA DO LOBO
TEMPORAL POSTERIOR SUPERIOR — “ÁREA DE
WERNICKE” (ÁREA INTERPRETATIVA GERAL)
As áreas associativas somática, visual e auditiva se juntam, todas, na parte
mais posterior do lobo temporal superior, como mostrado na Figura 58-7,
região em que os lobos temporal, parietal e occipital se unem. Esse local de
confluência das diferentes áreas interpretativas sensoriais é muito
desenvolvido, particularmente no lado dominante do cérebro — o lado
esquerdo em quase todas as pessoas destras — e tem o papel mais
importante do que qualquer outra parte do córtex cerebral, em participar das
mais abrangentes funções superiores, que chamamos inteligência. Em
função disso, essa região tem sido chamada por diferentes nomes, sugestivos de área que tem importância quase global: área interpretativa
geral, área gnóstica, área do conhecimento, área associativa terciária, e
assim por diante. Ela é mais bem conhecida como área de Wernicke em
homenagem ao neurologista que primeiro descreveu seu significado
especial nos processos intelectuais.
Após graves danos na área de Wernicke, a pessoa pode ouvir
perfeitamente bem e até mesmo reconhecer diferentes palavras, mas, ainda
assim, será incapaz de agrupar essas palavras em pensamento coerente. De
forma análoga, a pessoa pode ser capaz de ler palavras de páginas
impressas, todavia ser incapaz de reconhecer o pensamento nelas contido.
A estimulação elétrica na área de Wernicke de pessoa consciente
ocasionalmente promove a formação de pensamentos muito complexos,
sobretudo quando o eletródio estimulatório é inserido na profundidade do
cérebro o suficiente para se aproximar das áreas correspondentes de
conexão com o tálamo. Os tipos de pensamentos que podem ser
experienciados incluem cenas visuais complicadas da infância, alucinações
auditivas, na forma de peça musical específica, ou até mesmo frase dita por
outra pessoa. Por essa razão, acredita-se que a ativação da área de Wernicke
pode reativar padrões complicados de memória que envolvem mais de uma
modalidade sensorial, mesmo que a maioria das memórias individuais seja
guardada em outros lugares. Essa crença está de acordo com a importância
da área de Wernicke de interpretar os significados complicados dos
diferentes padrões das experiências sensoriais.
Figura 58-7. Organização das áreas associativas somática, auditiva e visual de acordo com seu mecanismo geral de interpretação das experiências sensoriais. Todas essas vias chegam à área de Wernicke, localizada na porção posterossuperior do lobo temporal. Note também a área pré-frontal e a área da fala de Broca no lobo frontal.
Giro Angular — Interpretação da Informação Visual. O giro
angular é a porção mais inferior do lobo parietal posterior localizada
imediatamente atrás da área de Wernicke, fundindo-se, em sua parte
posterior, às áreas visuais do lobo occipital. Se essa região for destruída
enquanto a área de Wernicke permanecer intacta no lobo temporal, o
indivíduo pode ainda interpretar experiências auditivas, mas o fluxo de
experiências visuais que passam pela área de Wernicke, vindas do córtex
visual, fica na maioria das vezes bloqueado. Consequentemente, a pessoa
pode ser capaz de ver as palavras e até mesmo saber que são palavras, mas
não será capaz de interpretar seu significado. Essa condição é chamada
dislexia ou cegueira de palavras.
Vamos enfatizar novamente a importância global da área de Wernicke para
o processamento da maioria das funções intelectuais do cérebro. A perda dessa área no adulto em geral leva, daí para diante, a vida em estado de
quase demência.
Conceito de Hemisfério Dominante
As funções interpretativas gerais da área de Wernicke e do giro angular,
bem como as funções das áreas de fala e do controle motor, são em geral
muito mais desenvolvidas em um hemisfério cerebral do que no outro. Em
função disso, esse hemisfério é chamado hemisfério dominante. Em
aproximadamente 95% das pessoas, o hemisfério esquerdo é o dominante.
Mesmo ao nascimento, a área do córtex que constituirá, no futuro, a área
de Wernicke, já é cerca de 50% maior no hemisfério esquerdo do que no
direito, em mais da metade dos neonatos. Consequentemente, é fácil
entender, porque o lado esquerdo do cérebro pode se tornar dominante
sobre o direito. Entretanto, se por alguma razão esse lado esquerdo for
lesado ou removido em idade precoce, o lado oposto do cérebro será, em
geral, capaz de desenvolver características dominantes.
Em seguida, expõe-se uma teoria que pode explicar a capacidade de um
hemisfério dominar o outro. Aparentemente, a atenção “mental” parece ser
direcionada a um pensamento principal por vez. Presumivelmente, devido
ao fato de o lobo temporal posterior esquerdo, ao nascimento, ser
ligeiramente maior que o direito, o lado esquerdo, nas condições normais
começa a ser usado, em maior grau, que o direito. Daí em diante, devido à
tendência de se direcionar a atenção para a região mais desenvolvida, a
intensidade do aprendizado no hemisfério cerebral que foi usado primeiro
aumenta rapidamente, enquanto no lado oposto, menos usado, o
aprendizado permanece em um estado menos desenvolvido. Por
conseguinte, o lado esquerdo se torna dominante sobre o direito.
Em aproximadamente 95% das pessoas, o lobo temporal esquerdo e o giro
angular se tornam dominantes, e nos outros 5%, ambos os lados se desenvolvem simultaneamente tendo função dupla, ou mais raramente o
lado direito sozinho se torna mais desenvolvido, com dominância completa.
Como discutido adiante neste Capítulo, a área pré-motora da fala (área de
Broca) localizada bem lateralmente na região intermediária do lobo frontal
é também, em geral, dominante no lado esquerdo do cérebro. Essa área da
fala é responsável pela formação das palavras, por excitar ao mesmo tempo
os músculos laríngeos, músculos respiratórios e músculos da boca.
As áreas motoras para o controle das mãos são também dominantes no
lado esquerdo do cérebro em, aproximadamente, 9 entre 10 pessoas,
tornando-as assim destras.
Embora as áreas interpretativas do lobo temporal e do giro angular, bem
como muitas áreas motoras, sejam, em geral, muito desenvolvidas apenas
no hemisfério esquerdo, essas áreas recebem informações sensoriais de
ambos os hemisférios e são capazes também de controlar atividades
motoras em ambos os hemisférios. Para essa finalidade, elas usam
principalmente vias no corpo caloso, para comunicação entre os dois
hemisférios. Essa organização unitária com alimentação cruzada evita
interferência entre os dois lados do cérebro; essa interferência poderia criar
conflitos entre processos mentais e respostas motoras.
Papel da Linguagem na Função da Área de Wernicke e
nas Funções Intelectuais
A maior parte de nossas experiências sensoriais é convertida, em seu
equivalente linguístico, antes de ser armazenada nas áreas de memória do
cérebro e antes de ser processada para outros propósitos intelectuais. Por
exemplo, quando lemos um livro não guardamos as imagens das palavras
impressas, mas, em vez disso, armazenamos as próprias palavras ou os
pensamentos transmitidos por elas, muitas vezes em forma de linguagem.
A área sensorial do hemisfério dominante para a interpretação da
linguagem é a área de Wernicke, e está em íntima associação com as áreas
auditivas primária e secundá ria do lobo temporal. Essa relação muito íntima
prova velmente resulta do fato de que a primeira introdução da linguagem é
pela audição. Tardiamente na vida, quando a percepção visual da linguagem
pela leitura se desenvolve, a informação visual transmitida pelas palavras
escritas é, então, presumivelmente canalizada pelo giro angular, a área
associativa visual, para a já desenvolvida área de interpretação da
linguagem de Wernicke, no lobo temporal dominante.
FUNÇÕES DO CÓRTEX PARIETO-OCCIPITOTEMPORAL
NO HEMISFÉRIO NÃO DOMINANTE
Quando a área de Wernicke no hemisfério dominante de pessoa adulta é
destruída, a pessoa usualmente perde quase todas as funções intelectuais,
associadas à linguagem ou ao simbolismo visual, como a capacidade de ler,
a capacidade de realizar operações matemáticas e, até mesmo, a capacidade
de decifrar problemas lógicos. No entanto, muitos outros tipos de
capacidades interpretativas, algumas das quais usam o lobo temporal e o
giro angular do hemisfério oposto, são mantidos.
Estudos psicológicos em pacientes com danos no hemisfério não
dominante sugeriram que esse hemisfério pode ser especialmente
importante para entender e interpretar música, experiências visuais não
verbais (especialmente padrões visuais), relações espaciais entre a pessoa e
seus arredores, o significado da “linguagem corporal” e entonações da voz
e, provavelmente, muitas experiências somáticas relacionadas ao uso dos
membros e mãos. Então, mesmo embora falemos do hemisfério
“dominante”, essa dominância se refere primariamente às funções
intelectuais baseadas na linguagem; o hemisfério chamado não dominante
pode realmente ser dominante para outros tipos de inteligência.
FUNÇÕES INTELECTUAIS SUPERIORES DAS ÁREAS
ASSOCIATIVAS PRÉ-FRONTAIS
Por muitos anos, acreditou-se que o córtex pré-frontal era o local da
“inteligência superior” do ser humano, sobretudo, porque a maior diferença
entre os cérebros de macacos e dos seres humanos é a proeminente área pré-
frontal nos humanos. Entretanto, os esforços para mostrar que o córtex pré-
frontal é mais importante para as funções intelectuais superiores do que
outras porções do cérebro ainda não obtiveram sucesso. Certamente, a
destruição da área de compreensão da linguagem, na parte superior do lobo
temporal (área de Wernicke) e o giro angular adjacente, no hemisfério
dominante, causa muito mais dano ao intelecto do que a destruição das
áreas pré-frontais. As áreas pré-frontais têm, entretanto, funções intelectuais
próprias, menos definidas, mas nem por isso menos importantes. Essas
funções podem ser mais bem explicadas pela descrição do que ocorre com
os pacientes nos quais as áreas pré-frontais foram lesadas, como se segue.
Décadas atrás, antes do advento de fármacos modernos para tratar
condições psiquiátricas, foi descoberto que alguns pacientes poderiam
receber alívio significativo de depressão psicótica grave, pelo dano das
conexões neuronais entre as áreas pré-frontais e o restante do cérebro, o
procedimento chamado lobotomia pré-frontal. Esse procedimento era
realizado pela introdução de lâmina fina, sem corte, por pequena abertura,
na região laterofrontal do crânio, em cada lado da cabeça, para seccionar o
tecido cerebral de cima a baixo na parte posterior do lobo pré-frontal.
Estudos subsequentes nesses pacientes mostraram as seguintes alterações
mentais:
1. Os pacientes perderam sua capacidade de resolver problemas
complexos.
2. Ficaram incapazes de encadear tarefas sequenciais, para atingir
objetivos complexos.
3. Ficaram incapazes de aprender a fazer diversas tarefas paralelas, ao
mesmo tempo.
4. Seu nível de agressividade estava geralmente reduzido, algumas vezes,
de forma pronunciada, e, frequentemente, perderam suas ambições.
5. Suas respostas sociais eram, em geral, inapropriadas para a ocasião,
com frequência incluindo perda da moral e das restrições à atividade
sexual e às excreções.
6. Os pacientes ainda podiam conversar e compreender a linguagem, mas
eram incapazes de acompanhar longas linhas de raciocínio e seu humor
variava rapidamente da doçura para a raiva, de estar de bem com a vida a
atitudes de loucura.
7. Os pacientes ainda podiam realizar a maioria dos padrões usuais de
função motora que já realizavam antes, mas geralmente sem propósito.
Com base nessas informações, vamos tentar agregar, de forma coerente, as
funções da área associativa pré-frontal.
Diminuição da Agressividade e Respostas Sociais
Inadequadas. A diminuição da agressividade e as respostas sociais
inadequadas provavelmente resultam de perda das partes ventrais dos lobos
frontais, na face inferior do cérebro. Como explicado anteriormente e
mostrado nas Figuras 58-4 e 58-5, essa área é parte do córtex associativo
límbico, mais do que do córtex pré-frontal associativo. Essa área límbica
ajuda a controlar o comportamento, o que será discutido em detalhes
no Capítulo 59.
Incapacidade de Progredir em Direção a uma Meta ou de
Elaborar Pensamentos Sequenciais. Aprendemos anteriormente,
neste Capítulo, que a área associativa pré-frontal tem a habilidade de reunir
informações das mais variadas regiões neurais e usá-las para conseguir alcançar padrões de raciocínios mais profundos para atingir certos
objetivos.
Embora pessoas sem córtices pré-frontais ainda possam pensar, elas não
são capazes de elaborar pensamentos coerentes organizados, em sequência
lógica por mais do que poucos segundos ou 1 minuto, no máximo. Assim,
as pessoas sem os córtices pré-frontais se distraem facilmente de seu tema
central de pensamento, enquanto pessoas com córtices pré-frontais
funcionantes conseguem dirigir a si mesmas, no sentido de completar seus
pensamentos, apesar das distrações.
Elaboração do Pensamento, Prognósticos e Desempenho das
Funções Intelectuais Superiores pelas Áreas Pré-frontais — O
Conceito de “Memória de Trabalho”. Outra função que tem sido
associada às áreas pré-frontais é a elaboração de pensamentos, o qual
significa simplesmente o aumento da profundidade e de abstração dos
diferentes pensamentos organizados de múltiplas fontes de informação.
Testes psicológicos já mostraram que animais lobectomizados, quando em
contato com diversos fragmentos sucessivos de informações sensoriais, não
são capazes de seguir a sequência, mesmo como memória temporária,
provavelmente por serem tão facilmente distraídos que não podem manter
as informações por tempo suficiente, para que ocorra o armazenamento da
memória.
Essa capacidade da área pré-frontal de manter presentes, de modo
simultâneo, diversos fragmentos de informação sequencialmente
apresentados e levar ao resgate dessa informação instantaneamente, assim
que ela for necessária para pensamentos subsequentes, é chamada
“memória de trabalho” do cérebro, o que pode explicar muitas funções
cerebrais que habitualmente associamos à inteligência superior. De fato,
estudos mostraram que as áreas pré-frontais são divididas em segmentos
separados para armazenar tipos diferentes de memória temporária, por exemplo, a área para armazenar a forma de um objeto ou uma parte do
corpo e outra para armazenar movimento.
Combinando todos esses fragmentos temporários de memória de trabalho,
temos as capacidades de (1) fazer prognósticos; (2) planejar o futuro; (3)
retardar a ação em resposta a sinais sensoriais que chegam de tal forma que
a informação sensorial possa ser avaliada até se decidir a melhor forma de
resposta; (4) considerar as consequências de ações motoras, antes que sejam
executadas; (5) resolver problemas complicados, matemáticos, legais ou
filosóficos; (6) correlacionar todas as vias de informações, no diagnóstico
de doenças raras; (7) controlar nossas atividades, de acordo com leis
morais.
Função do Cérebro na Comunicação — Aferência de Linguagem e Eferência
de Linguagem
Uma das diferenças mais importantes entre seres humanos e outros animais é a
facilidade com que os seres humanos se comunicam entre si. Além disso, como testes neurológicos podem facilmente avaliar a capacidade de a pessoa se comunicar com outras, sabemos mais sobre os sistemas sensoriais e motores
relacionados à comunicação do que sobre qualquer outro segmento funcional do córtex cerebral. Por isso, revisaremos, com a ajuda dos mapas anatômicos
neurais na Figura 58-8, a função do córtex na comunicação. Partindo dessa análise, poder-se-á ver imediatamente como os princípios da análise sensorial e
do controle motor se aplicam a essa arte.
Existem dois aspectos da comunicação: sensorial (aspecto aferente da
linguagem), envolvendo os ouvidos e olhos, e motor (aspecto eferente da
linguagem), envolvendo a vocalização e seu controle.
Figura 58-8. Vias neurais (acima) necessárias para a percepção da palavra ouvida e, então, dizer a mesma palavra e (abaixo) percepção da palavra escrita e, então, dizer a mesma palavra. (Modificado de Geschwind N: Specializations of the human brain. Sci Am 241:180, 1979.)
Aspectos Sensoriais da Comunicação
Notamos previamente neste Capítulo que a destruição de porções das áreas
associativas auditivas ou visuais do córtex pode resultar em incapacidade de
entender a palavra falada ou escrita. Esses efeitos são chamados, respectivamente, afasia receptiva auditiva e afasia receptiva visual, ou, mais
comumente, de surdez de palavras e cegueira de palavras (também chamada dislexia).
Afasia de Wernicke e Afasia Global. Algumas pessoas são capazes de
entender tanto a palavra falada, quanto a palavra escrita, mas são incapazes de interpretar o pensamento que é expresso. Esse distúrbio resulta, mais frequentemente, quando a área de Wernicke, na parte posterior do giro temporal
superior no hemisfério dominante for danificada ou destruída. Consequentemente,
esse tipo de afasia é chamado afasia de Wernicke.
Quando a lesão na área de Wernicke for ampla e se estender (1) para trás, na
região do giro angular; (2) para baixo, nas áreas mais inferiores do lobo temporal;
e (3) para cima, na borda superior da fissura de Sylvius, a pessoa tem maior probabilidade de ficar quase totalmente incapacitada para a compreensão da
linguagem ou comunicação e, consequentemente, isso é chamado afasia global.
Aspectos Motores da Comunicação
Os processos mentais da fala envolvem dois estágios principais: (1) formação
dos pensamentos que serão expressos, bem como a escolha das palavras que
serão usadas; e, então, (2) controle motor da vocalização e o ato de vocalizar em si mesmo.
A formação de pensamentos e mesmo a escolha da maioria das palavras são
funções das áreas associativas sensoriais do cérebro. Novamente, a área de
Wernicke, na parte posterior do giro temporal superior, é a mais importante para a expressão dessa capacidade. Consequentemente, a pessoa tanto com afasia de
Wernicke como com afasia global é incapaz de formular os pensamentos que devem ser comunicados. Ou, se a lesão é menos grave, a pessoa pode ser capaz de formular os pensamentos, mas ser incapaz de organizá-los em sequências
apropriadas de palavras, para expressar esse pensamento. A pessoa, algumas
vezes, é até fluente com as palavras, mas confusas e desorganizadas.
A Perda da Área de Broca Causa Afasia Motora. Algumas vezes, a pessoa é
capaz de decidir o que ela quer dizer, mas não consegue fazer com que o sistema vocal emita palavras em vez de ruídos. Esse efeito, chamado afasia motora,
resulta de danos na área da fala de Broca, localizada na região pré-frontal e pré-motora facial do córtex cerebral — situada aproximadamente, em 95% das vezes,
no hemisfério esquerdo, como mostrado nas Figuras 58-5 e 58-8. Todos os