Tratado de Fisiologia Médica
Fisiologia dos Dentes
a formação de osteoide pelos osteoblastos; (4) falta de secreção de estrogênio no período pós-menopausa, já que esse hormônio reduz o número e a atividade dos
osteoclastos; (5) idade avançada com redução notável do hormônio do crescimento e de outros fatores de crescimento, além do fato de que muitas das
funções anabólicas proteicas também se deterioram com a idade, impossibilitando o depósito satisfatório da matriz óssea; e (6) síndrome de Cushing, pois as
quantidades maciças de glicocorticoides, secretadas nessa doença, provocam redução da deposição proteica por todo o organismo e aumento do catabolismo proteico, além de terem o efeito específico de deprimir a atividade osteoblástica.
Dessa forma, muitos distúrbios de deficiência do metabolismo de proteínas podem
causar osteoporose.
FISIOLOGIA DOS DENTES
Os dentes cortam, trituram e misturam o alimento ingerido. Para realizar
essas funções, os maxilares têm músculos vigorosos, capazes de gerar força
oclusiva entre os dentes dianteiros de, aproximadamente, 22 a 45 kg e, para
os dentes mandibulares, em torno de 68 a 91 kg. Além disso, os dentes
superiores e inferiores são providos de projeções e facetas interdigitantes,
assim a arcada superior se encaixa perfeitamente na inferior. Esse encaixe
recebe o nome de oclusão e permite a apreensão e a trituração até mesmo
de pequenas partículas de alimento entre as superfícies dentárias.
FUNÇÃO DAS DIFERENTES PARTES DOS DENTES
A Figura 80-14 mostra corte sagital de um dente, demonstrando suas
importantes partes funcionais: esmalte, dentina, cemento e polpa. O dente
também pode ser dividido em coroa, que corresponde à porção protruída da
gengiva na boca, e raiz, que representa a porção situada no interior do
alvéolo ósseo da maxila. O colar existente entre a coroa e a raiz, onde o
dente é circundado pela gengiva, denomina-se colo.
Figura 80-14. Partes funcionais de um dente.
Esmalte. A superfície externa do dente é revestida de camada de esmalte
formada antes da erupção dentária por células epiteliais especiais,
denominadas ameloblastos. Assim que o dente passa por sua erupção, não
ocorre mais a formação de esmalte. Essa camada externa do dente se
compõe de cristais amplos e densos de hidroxiapatita com carbonato,
magnésio, sódio, potássio e outros íons adsorvidos e embebidos em
delicada rede de fibras proteicas resistentes e quase insolúveis, similares à
queratina do cabelo, em termos de características físicas (mas não idênticas
do ponto de vista químico).
A estrutura cristalina dos sais torna o esmalte extremamente mais duro em
comparação à dentina. Além disso, a rede fibrosa proteica especial, embora constituída por apenas 1% da massa do esmalte, torna esse esmalte
resistente a ácidos, enzimas e outros agentes corrosivos, pois essa proteína é
uma das mais insolúveis e resistentes proteínas conhecidas.
Dentina. A principal parte do dente é composta pela dentina, que apresenta
robusta estrutura óssea. Essa dentina constitui-se principalmente dos cristais
de hidroxiapatita, similares aos presentes no osso, mas muito mais densos.
Esses cristais encontram-se embebidos em forte rede de fibras colágenas.
Em outras palavras, os principais constituintes da dentina são, em grande
parte, semelhantes aos compostos do osso. A principal diferença está em
sua organização histológica, já que a dentina não contém quaisquer
osteoblastos, osteócitos, osteoclastos ou espaços para vasos sanguíneos ou
nervos. Em vez disso, a dentina é depositada e nutrida por uma camada de
células denominadas odontoblastos, que revestem sua superfície interna, ao
longo da parede da cavidade pulpar.
Os sais de cálcio na dentina tornam essa estrutura extremamente resistente
às forças de compressão, enquanto as fibras de colágeno a tornam forte e
resistente às forças de tensão originárias, possivelmente quando os dentes
são impactados por objetos sólidos.
Cemento. O cemento é uma substância óssea, secretada por células da
membrana periodôntica, que reveste o alvéo lo dentário. Muitas fibras
colágenas avançam diretamente do osso mandibular, passando pela
membrana periodôntica e indo até o cemento. Essas fibras colágenas e o
cemento são responsáveis pela manutenção do dente no local adequado.
Quando os dentes são expostos a uma tensão excessiva, a camada de
cemento fica mais espessa e mais vigorosa. Além disso, a espessura e a
resistência dessa camada aumentam com a idade, o que promove a fixação
mais estável dos dentes nos maxilares, a partir da idade adulta em diante. Polpa. A cavidade pulpar de cada dente é preenchida pela polpa, composta
por tecido conjuntivo com aporte abundante de fibras nervosas, vasos
sanguíneos e linfáticos. As células de revestimento da superfície da
cavidade pulpar são os odontoblastos, que durante os anos de formação do
dente formam a dentina, mas, simultaneamente, invadem cada vez mais a
cavidade pulpar, tornando-a menor. Posteriormente, a dentina para de
crescer, e o tamanho da cavidade pulpar permanece basicamente constante.
Contudo, os odontoblastos ainda continuam viáveis e emitem projeções a
pequenos túbulos dentinários, penetrando todo o trajeto da dentina; essas
estruturas são importantes para o intercâmbio de cálcio, fosfato e outros
minerais com a dentina.
Dentição. Os seres humanos e a maioria dos outros mamíferos
desenvolvem dois grupos de dente durante sua vida. Os primeiros dentes
são denominados dentes deciduais, ou dentes de leite, chegando a 20 nos
humanos. Esses dentes passam por erupção entre o 7o o mês e o 2 ano de
vida, durando dos 6 aos 13 anos. Após a perda de cada dente decíduo,
ocorre sua substituição por dente permanente; em seguida, aparecem outros
8 a 12 molares nas mandíbulas, totalizando 28 a 32 dentes permanentes,
dependendo do surgimento final dos quatro dentes do siso, o que não ocorre
em todos os humanos.
Formação dos Dentes. A Figura 80-15 mostra a formação e a erupção
dos dentes. A Figura 80-15A mostra a invaginação do epitélio oral na
lâmina dentária; isso é acompanhado pelo desenvolvimento do órgão
produtor de dente. As células epiteliais superiores formam os ameloblastos,
que constituem o esmalte da face externa do dente. As células epiteliais
inferiores invaginam-se em direção ascendente à porção média do dente,
compondo a cavidade pulpar e os odontoblastos secretores da dentina.
Dessa maneira, o esmalte é formado na face externa do dente, enquanto a dentina é formada na face interna, dando origem a uma erupção dentária
prematura, conforme exibido na Figura 80-15B.
Figura 80-15. A, Órgão dentário primordial. B, Dente em desenvolvimento. C, Dente em erupção.
Erupção dos Dentes. Durante o início da infância, os dentes começam a
se projetar para fora do osso, através do epitélio oral. A causa da “erupção” não é conhecida, embora diversas teorias tenham sido propostas, na
tentativa de explicar tal fenômeno. A teoria mais provável consiste na
projeção progressiva e anterógrada do dente, provocada pelo crescimento
da raiz dentária, bem como do osso abaixo do dente.
Desenvolvimento dos Dentes Permanentes. Durante a vida
embrionária, o órgão formador de dente também se desenvolve na lâmina
dentária mais profunda para cada dente permanente, necessário após a perda
dos dentes deciduais. Esses órgãos produtores de dente formam lentamente
os dentes permanentes durante os primeiros 6 a 20 anos de vida. Quando
cada dente permanente está totalmente formado, ele irrompe através do
osso, de modo semelhante ao dente decidual. Ao fazer isso, o dente
permanente desgasta a raiz do dente decíduo, provocando, finalmente, seu
afrouxamento e sua queda. Logo depois, o dente permanente passa por sua
erupção, assumindo o lugar do original.
Os Fatores Metabólicos Influenciam o Desenvolvimento dos
Dentes. O índice de desenvolvimento e a velocidade de erupção dos
dentes podem ser acelerados pelos hormônios da tireoide e do crescimento.
Além disso, a deposição de sais nos dentes de formação prematura é,
consideravelmente, influenciada por diversos fatores do metabolismo, como
a disponibilidade de cálcio e fosfato na dieta, a quantidade de vitamina D
presente e a secreção do PTH. Quando todos esses fatores permanecem
normais, a dentina e o esmalte serão correspondentemente sadios, mas,
quando deficientes, a calcificação dos dentes também pode ser defeituosa, e
os dentes permanecerão anormais por toda a vida.
Intercâmbio Mineral nos Dentes. Os sais dos dentes, semelhantes aos
do osso, são compostos por hidroxiapatita com carbonatos adsorvidos e
diversos cátions unidos por uma substância cristalina rígida. Além disso, novos sais estão sendo constantemente depositados de forma simultânea à
absorção dos sais antigos dos dentes, assim como ocorre no osso. A
deposição e a absorção ocorrem principalmente na dentina e no cemento e,
em grau restrito, no esmalte. Nessa estrutura, esses processos ocorrem, na
maioria das vezes, por meio da difusão de minerais com a saliva, e não com
os líquidos da cavidade pulpar.
A absorção e a deposição de minerais no cemento são quase equivalentes
às do osso maxilar adjacente, ao passo que na dentina correspondem a
apenas um terço das do osso. O cemento tem características quase idênticas
às do osso comum, incluindo a presença de osteoblastos e osteo clastos,
enquanto a dentina não possui tais características, como explicado antes.
Sem dúvida, essa diferença explica as intensidades distintas do intercâmbio
mineral.
Em suma, ocorre intercâmbio mineral contínuo na dentina e no cemento
dos dentes, embora o mecanismo dessa troca na dentina não esteja
esclarecido. Contudo, o esmalte tem intercâmbio mineral extremamente
lento, preservando, com isso, grande parte de seu complemento mineral
original por toda a vida.
Anormalidades Dentárias
As duas anormalidades dentárias mais comuns são as cáries e a maloclusão. As
cáries referem-se à erosão dos dentes, enquanto a maloclusão corresponde à
falha de interdigitação adequada das projeções dos dentes superiores e inferiores.
As Cáries e o Papel das Bactérias e Carboidratos Ingeridos. É consenso
geral que as cáries se originam da ação de bactérias nos dentes, sendo o
Streptococcus mutans o agente bacteriano mais comum. O primeiro evento no desenvolvimento das cáries é o depósito da placa, uma película de produtos precipitados de saliva e alimento sobre os dentes. Grande quantidade de
bactérias reside nessa placa, estando prontamente disponíveis para provocar as
cáries. Essas bactérias dependem, em grande escala, dos carboidratos como alimento. Quando há disponibilidade de carboidratos, os sistemas metabólicos das bactérias são intensamente ativados, proporcionando a multiplicação desses
micro-organismos. Além disso, eles produzem ácidos (particularmente o ácido
lático) e enzimas proteolíticas. Os ácidos são os principais culpados na indução
das cáries, já que os sais de cálcio dos dentes têm dissolução lenta em um meio
altamente ácido. E, uma vez que os sais tenham sido absorvidos, a matriz
orgânica remanescente é rapidamente digerida pelas enzimas proteolíticas.
O esmalte do dente é a principal barreira ao desenvolvimento das cáries. Esse
esmalte é bem mais resistente à desmineralização por ácidos, em comparação
com a dentina, principalmente porque os cristais do esmalte são densos e cada
um deles tem um volume cerca de 200 vezes maior que cada cristal da dentina.
Assim que o processo da cárie tenha passado do esmalte para a dentina, ele
evolui com muito mais rapidez, devido ao alto grau de solubilidade dos sais da
dentina.
Em virtude de as bactérias responsáveis pelas cáries dependerem dos
carboidratos para nutrição, frequentemente ensina-se que o consumo de dieta
com alto teor desse alimento leva ao desenvolvimento excessivo de cáries. No
entanto, não é a quantidade de carboidrato ingerido, mas a frequência de seu
consumo que é importante. Se os carboidratos forem ingeridos em pequena
quantidade durante todo o dia, como na forma de balas, as bactérias permanecem
abastecidas com seu substrato metabólico preferencial, por muitas horas do dia,
aumentando intensamente o desenvolvimento das cáries.
O Papel do Flúor na Prevenção das Cáries. Os dentes formados em crianças
que ingerem água com pequena quantidade de flúor desenvolvem esmalte mais
resistente a cáries, em comparação com o esmalte de crianças submetidas à
ingestão de água sem flúor. O flúor não torna o esmalte mais duro que o usual,
mas os íons flúor substituem muitos dos íons hidroxila nos cristais de
hidroxiapatita; esses cristais, por sua vez, tornam o esmalte muitas vezes menos
solúvel. O flúor também pode ser tóxico às bactérias. Por fim, quando ocorre o
desenvolvimento de pequenas depressões no esmalte, acredita-se que o flúor
promova a deposição de fosfato de cálcio para “cicatrizar” a superfície do esmalte.
Independentemente dos meios exatos de proteção dos dentes pelo flúor, sabe-se
que pequenas quantidades desse composto depositadas no esmalte tornam os
dentes cerca de três vezes mais resistentes a cáries, em comparação aos dentes
não expostos a ele.
Maloclusão. A maloclusão costuma ser causada por anormalidade hereditária,
que faz com que os dentes de um dos maxilares cresçam em posição anormal. Na
maloclusão, os dentes não têm interdigitação adequada e, consequentemente,
não conseguem realizar suas funções normais de trituração e corte do alimento de
forma apropriada. Ocasionalmente, a maloclusão também resulta do
deslocamento anormal da mandíbula em relação ao maxilar, gerando efeitos indesejados, como dor na articulação mandibular e deterioração dos dentes.
Em geral, o ortodontista consegue corrigir a maloclusão pela aplicação de uma
pressão suave e prolongada contra os dentes, com o auxílio de aparelhos
apropriados. Essa pressão suave provoca a absorção do osso alveolar sobre a face dentária de compressão e a deposição de novo tecido ósseo sobre a face
dentária de tensão. Dessa forma, o dente gradativamente desloca-se a uma nova
posição, direcionada pela pressão aplicada.
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CAPÍTULO 81
Funções Reprodutivas e
Hormonais Masculinas (e Função
da Glândula Pineal)
As funções reprodutoras masculinas podem ser divididas em três grandes
subdivisões: (1) espermatogênese, que significa a formação do
espermatozoide; (2) desempenho do ato sexual masculino; e (3) regulação
das funções reprodutoras masculinas por vários hormônios. Associados a
essas funções reprodutoras estão os efeitos dos hormônios sexuais
masculinos nos órgãos sexuais acessórios, metabolismo celular, crescimento
e outras funções do organismo.
Anatomia Fisiológica dos Órgãos Sexuais Masculinos
A Figura 81-1A mostra as várias partes do sistema reprodutor masculino, e a
Figura 81-1B apresenta a estrutura detalhada do testículo e do epidídimo. O
testículo é composto por até 900 túbulos seminíferos convolutos, onde é formado
o esperma; cada um tem, em média, mais de 1 metro de comprimento. O
esperma, então, é lançado no epidídimo, que é outro tubo convoluto de,
aproximadamente, 6 metros de comprimento. O epidídimo conduz ao canal
deferente, que se alarga na ampola do canal deferente, imediatamente antes de o
canal entrar no corpo da glândula prostática.
Duas vesículas seminais, uma de cada lado da próstata, desembocam na
terminação prostática da ampola, e os conteú dos da ampola e das vesículas
seminais passam para o ducto ejaculatório e são conduzidos através do corpo da
glândula prostática, então desaguando na uretra interna. Os ductos prostáticos
recebem o conteúdo da glândula prostática e o conduzem para o ducto
ejaculatório e daí para a uretra prostática.
Finalmente, a uretra é o último elo dos testículos com o exterior. A uretra contém
muco proveniente de grande número de pequenas glândulas uretrais, localizadas
em toda a sua extensão, e, em maior quantidade, das glândulas bulbouretrais
(glândulas de Cowper), localizadas próximas da origem da uretra.