Tratado de Fisiologia Médica
Sistema de Líquidos do Olho — Líquido Intraocular
Figura 50-18. Sistema óptico do oftalmoscópio.
SISTEMA DE LÍQUIDOS DO OLHO — LÍQUIDO
INTRAOCULAR
O olho está cheio de líquido intraocular que mantém pressão suficiente no
globo ocular para conservá-lo distendido. A Figura 50-19 demonstra que
esse líquido pode ser dividido em duas partes — humor aquoso, que se
situa à frente do cristalino, e humor vítreo, que fica entre a superfície
posterior do cristalino e a retina. O humor aquoso é líquido com fluxo livre,
enquanto o humor vítreo, algumas vezes, chamado corpo vítreo, é uma
massa gelatinosa que se mantém unida por rede fibrilar fina, composta,
sobretudo, por moléculas de proteoglicanos bastante alongadas. Água e
substâncias dissolvidas podem se difundir lentamente no humor vítreo, mas
ocorre pouco fluxo de líquido.
O humor aquoso está continuamente sendo formado e reabsorvido. O
balanço entre a formação e a reabsorção de humor aquoso regula o volume
total e a pressão do líquido intraocular.
Figura 50-19. Formação e fluxo de líquido no olho.
FORMAÇÃO DO HUMOR AQUOSO PELO CORPO CILIAR
O humor aquoso é formado no olho a intensidade média de 2 a 3
microlitros a cada minuto. Essencialmente, todo ele é secretado pelos
processos ciliares que são pregas lineares que se projetam do corpo ciliar
para o espaço atrás da íris, onde os ligamentos do cristalino e o músculo
ciliar se fixam ao globo ocular. Um corte transverso desses processos
ciliares é mostrado na Figura 50-20, e sua relação com as câmaras de
líquido ocular pode ser vista na Figura 50-19. Devido à sua arquitetura em
dobras, a área total dos processos ciliares é cerca de 6 centímetros
quadrados em cada olho — área extensa, considerando-se o pequeno
tamanho do corpo ciliar. As superfícies desses processos são cobertas por células epiteliais muito secretoras, e, imediatamente abaixo delas, existe
uma área altamente vascular.
O humor aquoso é formado quase inteiramente por uma secreção ativa
pelo epitélio dos processos ciliares. A secreção começa com o transporte
ativo de íons sódio para os espaços entre as células epiteliais. Os íons sódio
puxam íons cloreto e íons bicarbonato junto com eles para manter a
neutralidade elétrica. Depois, todos esses íons em conjunto promovem
osmose de água dos capilares sanguíneos, situa dos abaixo dos mesmos
espaços intercelulares epiteliais, e a solução resultante banha os espaços dos
processos ciliares na câmara anterior do olho. Além disso, vários nutrientes
são transportados, através do epitélio, por transporte ativo ou difusão
facilitada; eles incluem aminoácidos, ácido ascórbico e glicose.
Figura 50-20. Anatomia dos processos ciliares. O humor aquoso é formado nas superfícies.
SAÍDA DO HUMOR AQUOSO DO OLHO
Depois que o humor aquoso é formado pelos processos ciliares, ele
primeiro flui, como mostrado na Figura 50-19, através da pupila e entra na
câmara anterior do olho. Daí, o líquido flui na direção anterior ao
cristalino e entra no ângulo entre a córnea e a íris, e depois através de
malha de trabéculas finalmente entra no canal de Schlemm, que desemboca
em veias extraoculares. A Figura 50-21 demonstra as estruturas anatômicas
nesse ângulo iridocórneo, mostrando que os espaços entre as trabéculas se
estendem em todo o trecho da câmara anterior ao canal de Schlemm. O
canal de Schlemm é ums veia com paredes finas que se estende
circunferencialmente por todo o trajeto em torno do olho. Sua membrana
endotelial é tão porosa que tanto grandes moléculas proteicas quanto
pequeno material particulado do tamanho de hemácias, podem passar da
câmara anterior para o canal de Schlemm. Embora o canal de Schlemm na
realidade seja vaso sanguíneo venoso, o humor aquoso, normalmente, se
dirige a ele que o faz ficar cheio apenas de humor aquoso, e não de sangue.
As pequenas veias que levam do canal de Schlemm às veias maiores do
olho geralmente contêm apenas humor aquoso, e são chamadas veias
aquosas.
Figura 50-21. Anatomia do ângulo iridocórneo, mostrando o sistema para saída do humor aquoso do globo ocular, indo para as veias conjuntivais.
PRESSÃO INTRAOCULAR
A pressão intraocular normal média é cerca de 15 mmHg, variando entre 12
e 20 mmHg.
Medição da Pressão Intraocular por Tonometria. Como não é
prático passar uma agulha pelo olho do paciente para medir a pressão
intraocular, essa pressão é medida clinicamente pelo uso do “tonômetro”,
cujo princípio é mostrado na Figura 50-22. A córnea do olho é anestesiada
com anestésico local, e a plataforma do tonômetro é colocada na córnea.
Aplica-se, então, pequena força ao êmbolo central, fazendo que parte da
córnea, abaixo do êmbolo, seja deslocada para dentro. O grau de
deslocamento é registrado na escala do tonômetro, e isso é calibrado em
termos de pressão intraocular.
Figura 50-22. Princípios do tonômetro.
Regulação da Pressão Intraocular. A pressão intraocular permanece
constante no olho normal, geralmente na faixa de 2 mmHg de seu nível normal,
que é, em média, cerca de 15 mmHg. O nível dessa pressão é determinado
principalmente pela resistência à saída do humor aquoso da câmara anterior para
o canal de Schlemm. Essa resistência à saída resulta da rede de trabéculas pelas
quais o líquido precisa passar em seu caminho, dos ângulos laterais da câmara
anterior para a parede do canal de Schlemm. Essas trabéculas têm aberturas
minúsculas de apenas 2 a 3 micrômetros. A intensidade do fluxo do líquido para o
canal aumenta acentuadamente quando a pressão se eleva. Com cerca de 15
mmHg no olho normal, a quantidade de líquido que sai do olho, por meio do canal
de Schlemm, em geral é, em média, 2,5 mL/min, sendo igual à entrada de líquido
vindo do corpo ciliar. A pressão normalmente continua em termos aproximados,
nesse nível de 15 mmHg.
Mecanismo para Limpeza dos Espaços Trabeculares e Líquido Intraocular.
Quando grandes quantidades de detritos estão presentes no humor aquoso, como
ocorre após hemorragia no olho ou durante infecção intraocular, os detritos
provavelmente se acumulam nos espaços trabeculares que levam da câmara
anterior ao canal de Schlemm; esses detritos podem impedir a reabsorção adequada de líquido da câmara anterior, algumas vezes causando “glaucoma”,
como será explicado subsequentemente. No entanto, nas superfícies das placas trabeculares, há grande número de células fagocitárias. Imediatamente fora do
canal de Schlemm, existe uma camada de gel intersticial contendo grande número de células reticuloendoteliais com capacidade extremamente alta de englobar
detritos e digeri-los, até se formarem substâncias com moléculas pequenas que podem então ser absorvidas. Desse modo, esse sistema fagocitário mantém os espaços trabeculares limpos. A superfície da íris e outras superfícies do olho,
atrás da íris, são cobertas por epitélio capaz de fagocitar proteínas e pequenas
partículas do humor aquoso, ajudando assim a manter um líquido claro.
O “Glaucoma” Provoca uma Elevada Pressão Intraocular e é Uma Causa
Principal de Cegueira. O glaucoma, uma das causas mais comuns de cegueira, é uma doença do olho em que a pressão intraocular fica patologicamente alta,
algumas vezes se elevando agudamente até 60 a 70 mmHg. Pressões acima de 25 a 30 mmHg podem causar perda de visão quando mantidas por longos
períodos. Pressões extremamente altas podem causar cegueira em dias ou até horas. À medida que a pressão se eleva, os axônios no nervo óptico são
comprimidos no ponto de saída do globo ocular, no disco óptico. Acredita-se que essa compressão bloqueie o fluxo axônico de citoplasma dos corpos celulares
neuronais da retina nas fibras do nervo óptico que levam ao cérebro. O resultado é a falta de nutrição apropriada das fibras, o que finalmente causa morte das fibras envolvidas. É possível que a compressão da artéria da retina, que penetra
no globo ocular pelo disco óptico, também se acrescente à lesão neuronal, por
redução da nutrição à retina.
Na maioria dos casos de glaucoma, a pressão anormalmente alta resulta de
aumento da resistência à saída de líquido passando pelos espaços trabeculares e para o canal de Schlemm na junção iridocórnea. Por exemplo, na inflamação
aguda do olho, leucócitos e detritos teciduais podem bloquear esses espaços trabeculares e causar aumento agudo da pressão intraocular. Em condições
crônicas, especialmente, em indivíduos mais velhos, a oclusão fibrosa dos espaços trabeculares parece ser a provável responsável.
O glaucoma algumas vezes pode ser tratado por colocação, no olho, de colírio
que contenha fármaco que se difunda para o globo ocular e reduza a secreção ou
aumente a absorção do humor aquoso. Quando a terapia medicamentosa falha,
técnicas cirúrgicas, para abrir os espaços das trabéculas ou para fazer canais que permitam que o líquido flua diretamente do espaço líquido do globo ocular para o espaço subconjuntival fora do globo ocular, podem reduzir com eficácia a pressão.
Bibliografia
Buisseret P: Influence of extraocular muscle proprioception on vision. Physiol Rev 75:323,
1995.
Candia OA, Alvarez LJ: Fluid transport phenomena in ocular epithelia. Prog Retin Eye Res
27:197, 2008.
Congdon NG, Friedman DS, Lietman T: Important causes of visual impairment in the world
today. JAMA 290:2057, 2003.
De Groef L, Van Hove I, Dekeyster E, et al: MMPs in the trabecular meshwork: promising
targets for future glaucoma therapies? Invest Ophthalmol Vis Sci 54:7756, 2013.
Grossniklaus HE, Nickerson JM, Edelhauser HF, et al: Anatomic alterations in aging and
age-related diseases of the eye. Invest Ophthalmol Vis Sci 54(14):ORSF23, 2013.
Krag S, Andreassen TT: Mechanical properties of the human lens capsule. Prog Retin Eye
Res 22:749, 2003.
Kwon YH, Fingert JH, Kuehn MH, Alward WL: Primary open-angle glaucoma. N Engl J Med
360:1113, 2009.
Lichtinger A, Rootman DS: Intraocular lenses for presbyopia correction: past, present, and
future. Curr Opin Ophthalmol 23:40, 2012.
Mathias RT, Rae JL, Baldo GJ: Physiological properties of the normal lens. Physiol Rev
77:21, 1997.
Petrash JM: Aging and age-related diseases of the ocular lens and vitreous body. Invest
Ophthalmol Vis Sci 54:ORSF54, 2013.
Quigley HA: Glaucoma. Lancet 377:1367, 2011.
Vazirani J, Basu S: Keratoconus: current perspectives. Clin Ophthalmol 7:2019, 2013.
Weinreb RN, Aung T, Medeiros FA: The pathophysiology and treatment of glaucoma: a
review. JAMA 311:1901, 2014.
OceanofPDF.com