Tratado de Fisiologia Médica
Hipoxia e Terapia com Oxigênio
transmissão dos bacilos nos pulmões e, portanto, é parte do sistema de
proteção contra a extensão da infecção. No entanto, em cerca de 3% de
todas as pessoas que desenvolvem tuberculose, caso não seja instituído o
tratamento, o processo de encarceramento falha e os bacilos se disseminam
por todo o pulmão, frequentemente causando destruição importante do
parênquima com formação de grandes cavidades.
Dessa forma, a tuberculose, nos estágios finais, é caracterizada por muitas
áreas de fibrose por todo o pulmão, assim como pela redução da quantidade
total de tecido pulmonar funcional. Esses efeitos causam (1) “trabalho”
aumentado por parte dos músculos respiratórios, a fim de realizar a
ventilação pulmonar, e capacidades vital e respiratória diminuídas; (2)
redução total da área de superfície da membrana respiratória e aumento da
espessura da membrana respiratória, ocasionando, progressivamente, ‐
redução da capacidade de difusão pulmonar; e (3) proporção ventilação-
perfusão anormal nos pulmões, reduzindo ainda mais a difusão pulmonar
total de O e CO . 2 2
HIPOXIA E TERAPIA COM OXIGÊNIO
Quase todas as condições discutidas nas seções anteriores deste Capítulo
podem causar hipoxia celular grave por todo o corpo. Algumas vezes, a
terapia com O é de grande valor; outras vezes, é de valor moderado; e, 2
ainda em outras ocasiões, quase não tem valor algum. Portanto, é
importante entender os diferentes tipos de hipoxia; assim poderemos
discutir os princípios fisiológicos da terapia com O . A seguir, a 2
classificação descritiva das causas de hipoxia:
1. Oxigenação inadequada do sangue nos pulmões por causa de razões
extrínsecas
a. Deficiência de O na atmosfera. 2
b. Hipoventilação (distúrbios neuromusculares).
2. Doença pulmonar
a. Hipoventilação causada pelo aumento da resistência das vias aéreas ou
diminuição da complacência pulmonar.
b. Proporção ventilação-perfusão alveolar anormal (incluindo o aumento
do espaço morto fisiológico ou aumento da derivação fisiológica).
c. Diminuição da difusão pela membrana respiratória.
3. Desvios arteriovenosos (desvios cardíacos “direita-esquerda”)
4. Inadequação do transporte sanguíneo de O aos tecidos 2
a. Anemia ou anormalidade da hemoglobina.
b. Deficiência circulatória generalizada.
c. Deficiência circulatória localizada (periférica, cerebral, vasos
coronarianos).
d. Edema tecidual.
5. Inadequação da capacidade tecidual de usar o O . 2
a. Envenenamento das enzimas de oxidação celular.
b. Diminuição da capacidade metabólica celular de usar O por causa da 2
toxicidade, deficiência vitamínica ou outros fatores.
Essa classificação dos tipos de hipoxia fica principalmente autoevidente
pelas discussões anteriores neste Capítulo. Apenas um dos tipos de hipoxia,
na classificação, necessita de maior elaboração: a hipoxia causada pela
incapacidade de as células teciduais do corpo usarem O . 2
Capacidade Inadequada de os Tecidos Usarem Oxigênio. A
causa clássica para a incapacidade de os tecidos usarem O é o 2
envenenamento por cianeto, em que a ação da enzima citocromo oxidase é
bloqueada pelo cianeto — em extensão tal que os tecidos simplesmente não
podem usar o O , até mesmo quando grande quantidade está disponível. Da 2
mesma forma, as deficiências de algumas enzimas oxida tivas celulares
teciduais ou de outros elementos do sistema oxidativo tecidual podem levar
a esse tipo de hipoxia. Exemplo especial ocorre no beribéri, em que várias
etapas importan tes na utilização tecidual do O e na formação do CO estão 2 2
comprometidas por causa da deficiência de vitamina B.
Efeitos da Hipoxia no Corpo. A hipoxia, se grave o suficiente, pode
causar a morte celular por todo o corpo, mas em graus menos intensos,
causa sobretudo (1) depressão da atividade mental, algumas vezes
culminando em coma; e (2) redução da capacidade de trabalho muscular.
Esses efeitos são especificamente discutidos no Capítulo 44, em relação à
fisiologia em altas altitudes.
TERAPIA COM OXIGÊNIO EM DIFERENTES TIPOS DE
HIPoXIA
O O pode ser administrado (1) pela colocação da cabeça do paciente em 2
“tenda” que contém ar enriquecido com O ; (2) permitindo-se que o 2
paciente respire O puro ou altas concentrações, por meio de máscara; ou 2
(3) por meio de cateter intranasal.
Relembrando os princípios fisiológicos básicos dos diferentes tipos de
hipoxia pode-se prontamente decidir quando a terapia com O será útil e, 2
em caso positivo, quão útil será.
Na hipoxia atmosférica, a terapia com O pode corrigir completamente o 2
nível reduzido de O no gás inspirado e, portanto, proporcionar terapia 2
100% efetiva.
Na hipoxia de hipoventilação, a pessoa respirando O a 100% pode 2
mobilizar cinco vezes mais O para o interior dos alvéolos em cada 2
respiração do que pela respiração do ar normal. Portanto, de novo, a terapia
com O pode ser extrema mente benéfica. (Entretanto, isso não provê 2
benefício algum para o excesso de CO , também causado pela 2
hipoventilação.)
Na hipoxia causada pela difusão prejudicada da membrana alveolar
ocorre, essencialmente, o mesmo resultado, como na hipoxia de
hipoventilação, visto que a terapia com O pode aumentar a Po nos 2 2
alvéolos pulmonares de um valor normal de cerca de 100 mmHg para
valores tão altos quanto 600 mmHg. Essa ação aumenta o gradiente de
pressão do O para sua difusão dos alvéolos para o sangue do valor normal 2
de 60 mmHg para até 560 mmHg, uma elevação de mais de 800%. Esse
efeito altamente benéfico da terapia com O na hipoxia de difusão é 2
demonstrado na Figura 43-8, que mostra que o sangue pulmonar, nesse
paciente com edema pulmonar, capta O 3 a 4 vezes mais rapidamente do 2
que ocorreria sem terapia alguma.
Na hipoxia causada por anemia, transporte anormal de O2
hemoglobínico, deficiência circulatória ou derivação fisiológica, a terapia
com O tem muito menos valor, porque o O normal já está disponível nos 2 2
alvéolos. O problema é que um ou mais dos mecanismos de transporte do
O dos pulmões para os tecidos estão deficientes. Mesmo assim, pequena 2
quantidade de O , entre 7% e 30%, pode ser transportada no estado 2
dissolvido pelo sangue, quando o O alveolar é aumentado ao máximo, 2
mesmo que a quantidade transportada pela hemoglobina esteja bastante
alterada. Essa pequena quantidade extra de O pode ser a diferença entre a 2
vida e a morte.
Nos diferentes tipos de hipoxia causada pelo uso inadequado de O pelos 2
tecidos, não existe anormalidade na captação do O pelos pulmões, 2
tampouco no transporte para os tecidos. Em vez disso, o sistema enzimático
de metabolização tecidual é simplesmente incapaz de usar o O que é 2 fornecido. Portanto, a terapia com O não terá qualquer benefício 2
mensurável.
Figura 43-8. Absorção de oxigênio para o sangue capilar pulmonar, na situação de edema pulmonar com e sem terapia com tenda de oxigênio.
CIANOSE
O termo cianose significa pele com tonalidade azulada, o que é causado
pela excessiva quantidade de hemoglobina desoxigenada nos vasos
sanguíneos cutâneos, especialmente nos capilares. Essa hemoglobina
desoxigenada tem intensa cor azul-púrpura escura, que é transmitida para a
pele.
Em geral, cianose definitiva aparece onde quer que o sangue arterial
contenha mais de 5 gramas de hemoglobina desoxigenada em cada 100
mililitros de sangue. Uma pessoa com anemia quase nunca fica cianótica,
porque não existem 5 gramas de hemoglobina suficientes para ser‐
desoxigenadas em 100 mililitros de sangue arterial. De modo oposto, em pessoa com excesso de hemácias, como ocorre na poli citemia vera, o