Tratado de Fisiologia Médica
Anatomia Fisiológica do Músculo Esquelético
CAPÍTULO 6
Contração do Músculo
Esquelético
Cerca de 40% do corpo são compostos por músculo esquelé tico, e talvez
outros 10% por músculo liso e cardíaco. Alguns dos princípios básicos da
contração se aplicam a todos esses diferentes tipos de músculos. Neste
Capítulo, a função do músculo esquelético é considerada como tema
principal; as funções específicas do músculo liso são discutidas no Capítulo
8, e as do músculo cardíaco, no Capítulo 9.
ANATOMIA FISIOLÓGICA DO MÚSCULO ESQUELÉTICO
FIBRA DO MÚSCULO ESQUELÉTICO
A Figura 6-1 apresenta a organização do músculo esquelético,
demonstrando que todos esses músculos são compostos por inúmeras fibras, com diâmetro de 10 a 80 micrômetros. Cada uma dessas fibras é formada
por subunidades sucessivamente ainda menores, também mostradas
na Figura 6-1 e descritas nos parágrafos seguintes.
Na maioria dos músculos esqueléticos, cada fibra se prolonga por todo o
comprimento do músculo. Exceto por 2% das fibras, cada uma, em geral, é
inervada por apenas uma terminação nervosa, situada perto do meio da
fibra.
O Sarcolema é a Membrana Delgada que Reveste a Fibra
Muscular Esquelética. O sarcolema é a membrana celular da fibra
muscular. Ele consiste em verdadeira membrana celular, chamada
membrana plasmática, e com revestimento de fina camada de material
polissacarídeo contendo muitas fibrilas colágenas delgadas. Em cada
extremidade da fibra muscular, essa camada superficial do sarcolema funde-
se com uma fibra do tendão. As fibras do tendão, por sua vez, se agrupam
em feixes para formar os tendões dos músculos que depois ligam os
músculos aos ossos.
Miofibrilas são Compostas por Filamentos de Actina e de
Miosina. Cada fibra muscular contém centenas a milhares de miofibrilas,
demonstradas na vista de corte transversal da Figura 6-1C. Cada miofibrila
(Fig. 6-1D e E) é composta por cerca de 1.500 filamentos de miosina
adjacentes e por 3.000 filamentos de actina, longas moléculas de proteínas
polimerizadas responsáveis pelas contrações reais musculares. Isso pode ser
visto no corte longitudinal da micrografia eletrônica da Figura 6-2 e
representado diagramaticamente na Figura 6-1, partes E a L. Os filamentos
mais espessos nesse diagrama são miosina, e os filamentos mais finos são
actina.
Note na Figura 6-1E que os filamentos de miosina e actina estão
parcialmente interdigitados, fazendo com que a miofibrila alterne faixas
escuras e claras, como ilustrado na Figura 6-2. As faixas claras só contêm
filamentos de actina, sendo conhecidas como faixas I, por serem isotrópicas
à luz polarizada. As faixas escuras contêm filamentos de miosina, assim
como as extremidades dos filamentos de actina, onde se superpõem aos de
miosina, sendo chamadas faixas A, por serem anisotrópicas à luz
polarizada. Note, também, as pequenas projeções laterais dos filamentos de
miosina na Figura 6-1E e L. Essas projeções são as pontes cruzadas. E são
as interações entre os filamentos de actina e as pontes cruzadas que causam
as contrações.
A Figura 6-1E mostra também que as extremidades dos filamentos de
actina estão ligadas ao disco Z. Desse disco, esses filamentos se estendem
em ambas as direções para se interdigitarem com os filamentos de miosina.
O disco Z, composto por proteína filamentosa diferente dos filamentos de
actina e miosina cruza transversalmente toda a miofibrila e igualmente de
forma transversa de miofibrila para miofibrila, conectando as miofibrilas
umas às outras, por toda fibra muscular. Por essa razão, a fibra muscular,
em sua espessura, apresenta faixas claras e escuras, como o fazem as
miofibrilas individuais. Essas faixas dão aos músculos esqueléticos e
cardíacos sua aparência estriada.
O segmento da miofibrila (ou de toda a fibra muscular) situado entre dois
discos Z sucessivos é referido como sarcômero. Quando a fibra muscular
está contraída, como mostra a parte inferior da Figura 6-5, o comprimento
do sarcômero é de cerca de 2 micrômetros. Nesse comprimento, os
filamentos de actina se sobrepõem completamente aos filamentos de
miosina, e as pontas dos filamentos de actina estão quase começando a se
sobrepor. Será visto adiante que, nesse comprimento, o músculo é capaz de
gerar sua força máxima de contração.
Figura 6-1. Organização do músculo esquelético do nível macroscópico ao molecular. As letras F, G, H e I são cortes transversais nos níveis indicados.
Figura 6-2. Micrografia eletrônica das miofibrilas musculares mostrando detalhadamente a organização dos filamentos de actina e miosina. Note as mitocôndrias situadas entre as miofibrilas. (De Fawcett DW: The Cell. Philadelphia: WB Saunders, 1981.)
Moléculas Filamentosas de Titina mantêm os Filamentos de
Miosina em seus Lugares. O posicionamento lado a lado dos
filamentos de miosina e actina é mantido por meio de um grande número de
moléculas filamentares da proteína chamada titina (Fig. 6-3). Cada
molécula de titina tem peso molecular de cerca de 3 milhões, o que faz dela
a maior molécula de proteína no corpo. Também por ser filamentar é muito
flexível. Essa flexibilidade das moléculas de titina atua como arcabouço,
que mantém os filamentos de miosina e actina em seus lugares, de modo
que a maquinaria contrátil possa entrar em ação. Uma extremidade da
molécula de titina é elástica, estando fixada ao disco Z, atuando como mola
e variando seu comprimento conforme o sarcômero contrai e relaxa. A
outra parte da molécula de titina a ancora nos filamentos grossos de
miosina. A própria molécula de titina também parece servir como molde
para a formação inicial de partes dos filamentos contráteis do sarcômero,
em especial para os filamentos de miosina.
Figura 6-3. Organização das proteínas no sarcômero. Cada molécula de titina se estende do disco Z até a linha M. Parte da molécula de titina está intimamente associada ao filamento grosso de miosina, enquanto o resto da molécula é flexível e varia seu comprimento com a contração e o relaxamento do sarcômero.
O Sarcoplasma é o Líquido Intracelular entre as Miofibrilas. As
inúmeras miofibrilas de cada fibra muscular ficam em suspensão, lado a
lado, na fibra muscular. Os espaços entre as miofibrilas são preenchidos
pelo líquido intracelular conhecido como sarcoplasma, contendo grande
quantidade de potássio, magnésio e fosfato, além de múltiplas enzimas
proteicas. Também está presente nessa substância um número imenso de
mitocôndrias, situadas paralelas às miofibrilas. Essas mitocôndrias
fornecem às miofibrilas, que se contraem, grande quantidade de energia, na
forma de trifosfato de adenosina (ATP), formada pelas mitocôndrias.
O Retículo Sarcoplasmático é o Retículo Endoplasmático
Especializado do Músculo Esquelético. Também no sarcoplasma,
circundando as miofibrilas de cada fibra muscular, existe retículo extenso
(Fig. 6-4), referido como retículo sarcoplasmático. Esse retículo tem
organização especial que é extremamente importante para regular o
armazenamento, a liberação e a recaptação de cálcio e, portanto, a
contração muscular, como discutido no Capítulo 7. Os tipos de fibras musculares com contração muito rápida apresentam retículos