Tratado de Fisiologia Médica
Autorregulação da FG e Fluxo Sanguíneo Renal
reduções significativas na FG.
AUTORREGULAÇÃO DA FG E FLUXO SANGUÍNEO
RENAL
Mecanismos de feedback intrínsecos dos rins normalmente mantêm o fluxo
sanguíneo renal e a FG relativamente constantes, mesmo com alterações
acentuadas da pressão sanguínea arterial. Esses mecanismos ainda
funcionam independentes das influências sistêmicas em rins perfundidos
com sangue removidos do corpo. Essa relativa constância da FG e do fluxo
sanguíneo renal é conhecida como autorregulação (Figura 27-9).
A função primária da autorregulação do fluxo sanguíneo na maioria dos
tecidos, excetuando-se os rins, é manter o fornecimento de oxigênio e de
nutrientes em nível normal e remover os produtos indesejáveis do
metabolismo, a despeito das variações da pressão arterial. Nos rins, o fluxo
sanguíneo normal é muito maior do que o requerido para essas funções. A
principal função da autorregulação nos rins é manter a FG relativamente
constante e permitir o controle preciso da excreção renal de água e solutos.
A FG normalmente permanece autorregulada (isto é, permanece
relativamente constante), apesar de consideráveis flutuações da pressão
arterial que ocorrem durante as atividades diárias da pessoa. Por exemplo,
diminuição na pressão arterial, para de cerca de 70 a 75 mmHg, ou aumento
que chegue a 160 a 180 mmHg comumente alteram a FG por menos de
10%. Em geral, o fluxo sanguíneo renal é autorregulado em paralelo com a
FG, mas a FG é mais eficientemente autorregulada em certas condições.
Figura 27-9. Autorregulação do fluxo sanguíneo renal e da taxa de filtração glomerular, mas perda da autorregulação do fluxo urinário durante alterações na pressão arterial.
A IMPORTÂNCIA DA AUTORREGULAÇÃO DA FG NA
PREVENÇÃO DE ALTERAÇÕES EXTREMAS DA
EXCREÇÃO RENAL
Os mecanismos autorregulatórios do rim não são perfeitos, mas evitam
grandes alterações que poderiam ocorrer na FG e na excreção renal da água
e solutos que de outra forma ocorreriam com variações da pressão
sanguínea. Pode-se entender a importância quantitativa da autorregulação
considerando-se as magnitudes relativas da filtração glomerular, reabsorção
tubular e excreção renal e as alterações da excreção renal que ocorreriam
sem mecanismos autorregulatórios.
Normalmente, a FG é de cerca de 180 L/dia e a reabsorção tubular é de
178,5 L/dia, deixando 1,5 L/dia de líquido para ser excretado pela urina. Na
ausência de autorregulação, aumento relativamente pequeno na pressão
sanguínea (de 100 a 125 mmHg) poderia causar aumento semelhante de
25% na FG (de aproximadamente 180 a 225 L/dia). Caso a reabsorção
tubular permanecesse constante em 178,5 L/dia, o fluxo de urina
aumentaria para 46,5 L/dia (a diferença entre a FG e a reabsorção tubular)
— aumento total na urina de mais de 30 vezes. Como o volume plasmático
total é de apenas cerca de 3 litros, tal alteração depletaria rapidamente o
volume sanguíneo.
Na realidade, as variações da pressão arterial costumam exercer muito
menos efeito sobre o volume de urina por dois motivos: (1) a
autorregulação renal evita grandes alterações da FG e (2) existem
mecanismos adaptativos adicionais nos túbulos renais que os permitem
aumentar a intensidade da reabsorção, quando a FG se eleva, fenômeno
conhecido como balanço glomerulotubular (discutido no Cap. 28). Até
mesmo com esses mecanismos especiais de controle, variações da pressão
arterial ainda têm efeitos significativos na excreção renal de água e sódio;
isto é conhecido como diurese pressórica ou natriurese pressórica e é
crucial para a regulação do volume dos líquidos corporais e da pressão
arterial, como discutido nos Capítulos 19 e 30.
FEEDBACK TUBULOGLOMERULAR E
AUTORREGULAÇÃO DA FG
Os rins têm um mecanismo especial de feedback que relaciona as mudanças
na concentração de cloreto de sódio na mácula densa com o controle da
resistência arteriolar renal e a autorregulação da FG. Esse feedback permite
assegurar o fornecimento relativamente constante de cloreto de sódio ao
túbulo distal e ajuda a prevenir flutuações espúrias da excreção renal que de outro modo ocorreriam. Em muitas circunstâncias, esse feedback
autorregula o fluxo sanguíneo renal e em paralelo a FG. Entretanto, já que
esse mecanismo é especificamente direcionado para a estabilização do
fornecimento de cloreto de sódio ao túbulo distal, ocorrem momentos em
que a FG é autorregulada a expensas de mudanças no fluxo sanguíneo renal,
como discutido adiante. Em outros casos, esse mecanismo pode realmente
induzir alterações na FG em resposta a alterações primárias na reabsorção
de cloreto de sódio nos túbulos renais.
O mecanismo de feedback tubuloglomerular tem dois componentes que
agem em conjunto para controlar a FG: (1) mecanismo de feedback
arteriolar aferente e (2) mecanismo de feedback arteriolar eferente. Esses
mecanismos de feedback dependem da disposição anatômica especial do
complexo justaglomerular (Figura 27-10).
O complexo justaglomerular consiste de células da mácula densa na parte
inicial do túbulo distal e de células justaglomerulares nas paredes das
arteríolas aferentes e eferentes. A mácula densa é um grupo de células
especializadas nos túbulos distais em íntimo contato com as arteríolas
aferentes e eferentes. As células da mácula densa contêm o aparelho de
Golgi, organelas secretoras intracelulares, direcionadas para as arteríolas,
sugerindo que essas células possam secretar substâncias direcionadas para
as arteríolas.
Figura 27-10. Estrutura do aparelho justaglomerular demonstrando o possível papel do feedback no controle da função do néfron.
A Diminuição da Concentração de Cloreto de Sódio na Mácula
Densa Causa Dilatação das Arteríolas Aferentes e Aumento da
Liberação de Renina. As células da mácula densa detectam alterações
do volume que chega ao túbulo distal por meio de sinais que não são
completamente entendidos. Estudos experimentais sugerem que a FG
diminuída torne mais lento o fluxo na alça de Henle, causando reabsor ção
aumentada da porcentagem de íons sódio e cloreto fornecidos no ramo
ascendente, reduzindo por meio disso a concentração de cloreto de sódio nas células da mácula densa. Essa queda da concentração de cloreto de
sódio na mácula densa desencadeia um sinal que tem dois efeitos (Figura
27-11): (1) reduz a resistência ao fluxo sanguíneo nas arteríolas aferentes, o
que eleva a pressão hidrostática glomerular e ajuda a retornar a FG ao
normal; e (2) aumenta a liberação de renina, pelas células justaglomerulares
das arteríolas aferentes e eferentes que são os locais de maior estocagem da
renina. A renina liberada por essas células funciona como enzima que
aumenta a formação de angiotensina I, que é convertida em angiotensina II.
Por fim, a angiotensina II contrai as arteríolas eferentes, o que eleva a
pressão hidrostática glomerular e auxilia no retorno da FG ao normal.
Esses dois componentes do mecanismo de feedback tubuloglomerular
operam em conjunto, por meio da estrutura anatômica especial do aparelho
justaglomerular, fornecendo sinais de feedback às arteríolas aferentes e
eferentes para a autorregulação eficiente da FG durante as variações da
pressão arterial. Quando ambos os mecanismos estão funcionando em
conjunto, a FG se altera apenas por poucos pontos percentuais, até mesmo
com grandes flutuações da pressão arterial entre os limites de 75 e 160
mmHg.
Figura 27-11. Mecanismo de feedback da mácula densa para autorregulação da pressão hidrostática glomerular e da taxa de filtração glomerular (FG) durante a diminuição da pressão arterial renal.
O Bloqueio da Formação de Angiotensina II Reduz Adicionalmente a FG durante a
Hipoperfusão Renal. Como discutido antes, a ação constritora preferencial da angiotensina II
sobre as arteríolas eferentes ajuda a evitar reduções graves da pressão hidrostática glomerular e na
FG quando a pressão de perfusão renal cai abaixo do normal. A administração de fármacos, que
bloqueiam a formação de angiotensina II (inibidores da enzima conversora de angiotensina) ou
que bloqueiam a ação da angiotensina II (antagonistas dos receptores de angiotensina II), pode
causar reduções maiores que o normal na FG quando a pressão arterial renal cai abaixo da normal.
Portanto, complicação importante do uso desses fármacos, para tratar pacientes hipertensos,
devido à estenose da artéria renal (bloqueio parcial da artéria renal) é a grave diminuição da FG
que pode, em alguns casos, ocasionar insuficiência renal aguda. No entanto, os fármacos que bloqueiam a angiotensina II podem ser agentes terapêuticos úteis em muitos pacientes com hipertensão, insuficiência cardíaca congestiva e outras condições, desde que exista monitoramento
que assegure a não ocorrência nos pacientes de diminuições graves na FG.
AUTORREGULAÇÃO MIOGÊNICA DO FLUXO
SANGUÍNEO RENAL E FG
Outro mecanismo que contribui para a manutenção do fluxo sanguíneo
renal e a FG relativamente constantes é a capacidade dos vasos sanguíneos
individuais resistirem ao estiramento, durante o aumento da pressão arterial,
fenômeno conhecido como mecanismo miogênico. Estudos em vasos
sanguíneos isolados (especialmente, pequenas arteríolas) de todo o corpo
mostraram que respondem à tensão aumentada de parede ou ao estiramento
da parede com contração do músculo liso vascular. O estiramento da parede
vascular permite movimento aumentado de íons cálcio do líquido
extracelular para as células, causando sua contração pelos mecanismos
discutidos no Capítulo 8. Essa contração evita a distensão excessiva do vaso
e, ao mesmo tempo, pela elevação da resistência vascular, ajuda a prevenir
o aumento excessivo do fluxo sanguíneo renal e da FG quando ocorre
elevação da pressão arterial.
Embora o mecanismo miogênico provavelmente opere na maioria das
arteríolas por todo o corpo, sua importância, no fluxo sanguíneo renal e na
autorregulação da FG, tem sido questionada por alguns fisiologistas porque
esse mecanismo sensível ao estiramento da parede não tem meios de
detectar diretamente alterações do fluxo sanguíneo renal ou da FG per se.
Por outro lado, esse mecanismo pode ser mais importante na proteção do
rim da lesão induzida por hipertensão. Em resposta ao aumento súbito da
pressão sanguínea, a resposta constritora miogênica, nas arteríolas aferentes, ocorre em segundos e assim atenua a transmissão da pressão
arterial aumentada para os capilares glomerulares.
Outros Fatores que Aumentam o Fluxo Sanguíneo Renal e a FG: Alta Ingestão Proteica e
Glicose Sanguínea Aumentada. Embora o fluxo sanguíneo renal e a FG sejam relativamente
estáveis na maior parte das condições, existem circunstâncias em que essas variáveis variam
significativamente. Por exemplo, sabe-se que a ingestão rica em proteínas aumenta tanto o fluxo
sanguíneo renal quanto a FG. Com uma dieta crônica rica em proteínas, como as que contêm
grande quantidade de carne, o aumento da FG e do fluxo sanguíneo renal é decorrente
parcialmente do crescimento dos rins. Contudo, a FG e o fluxo sanguíneo renal aumentam
também 20 a 30% em 1 a 2 horas após a ingestão de refeição rica em proteínas.
A explicação provável para o aumento da FG é a seguinte: a refeição rica em proteínas aumenta
a liberação de aminoáci dos para o sangue, reabsorvidos nos túbulos renais proximais. Como os
aminoácidos e o sódio são reabsorvidos juntos pelo túbulo proximal, a reabsorção aumentada de
aminoácidos também estimula a reabsorção de sódio nos túbulos proximais. Essa reabsorção de
sódio diminui o aporte de sódio para a mácula densa (Figura 27-12), o que suscita diminuição na
resistência das arteríolas aferentes, mediada pelo feedback tubuloglomerular, como discutido
antes. A resistência arteriolar aferente diminuída então eleva o fluxo sanguíneo renal e a FG. Essa
FG aumentada permite a manutenção da excreção de sódio em nível próximo do normal enquanto
aumenta a excreção de produtos indesejáveis do metabolismo proteico, como a ureia.
Mecanismo semelhante também pode explicar o aumento acentuado do fluxo sanguíneo renal e
na FG, que ocorre com grandes aumentos nos níveis de glicose sanguínea em pessoas com
diabetes melito não controlado. Visto que a glicose, como alguns dos aminoácidos, também é
reabsorvida junto com o sódio no túbulo proximal, o aumento do aporte de glicose aos túbulos faz
com que eles reabsorvam sódio em excesso, junto com a glicose. Essa reabsorção do excesso de
sódio diminui, por sua vez, a concentração de cloreto de sódio na mácula densa, ativando feedback
que leva à dilatação de arteríolas aferen tes e ao subsequente aumento no fluxo sanguíneo renal e
na FG.
Esses exemplos demonstram que o fluxo sanguíneo renal e a FG per se não são as principais
variáveis controladas pelo mecanismo do feedback tubuloglomerular. O principal objetivo desse
feedback é assegurar o aporte constante de cloreto de sódio ao túbulo distal, onde ocorre o
processamento final da urina. Dessa maneira, distúrbios que tendem a aumentar a reabsorção do
cloreto de sódio, nas regiões tubulares antes da mácula densa, ocasionam incremento do fluxo
sanguíneo renal e da FG, o que contribui para a normalização do aporte de cloreto de sódio, de
modo que intensidades normais da excreção de sódio e da água possam ser mantidas (Figura 27-
12).
Sequência oposta de eventos ocorre quando a reabsorção tubular proximal está reduzida. Por
exemplo, quando os túbulos proximais estão danificados (o que pode ocorrer como resultado de
envenenamento por metais pesados, como mercúrio, ou por grandes doses de fármacos, como a
tetraciclina), a capacidade de reabsorção do cloreto de sódio é diminuída. Como consequência,
grandes quantidades de cloreto de sódio chegam ao túbulo distal e, sem as compensações
apropriadas, causam rapidamente depleção excessiva do volume. Uma das respostas compensatórias importantes parece ser a vasoconstrição renal, mediada por feedback, que ocorre em resposta ao aporte aumentado de cloreto de sódio à mácula densa, nessas circunstâncias. Esses
exemplos novamente demonstram a importância do mecanismo de feedback para assegurar que o túbulo distal receba quantidades apropriadas de cloreto de sódio e de outros solutos tubulares e,
também, volume de líquido adequado para que quantidades apropriadas dessas substâncias sejam excretadas na urina.
Figura 27-12. Possível função do feedback da mácula densa na mediação do aumento do filtrado glomerular (FG) após uma alimentação rica em proteínas.
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CAPÍTULO 28
Reabsorção e Secreção Tubular
Renal
Após o filtrado glomerular entrar nos túbulos renais, ele flui pelas porções
sucessivas do túbulo — túbulo proximal, alça de Henle, túbulo distal, túbulo
coletor e, finalmente, ducto coletor — antes de ser excretado como urina. Ao
longo desse curso, algumas substâncias são seletivamente reabsorvidas dos
túbulos de volta para o sangue enquanto outras são secretadas, do sangue
para o lúmen tubular. Por fim, a urina total formada representa a soma de três
processos renais básicos — filtração glomerular, reabsorção tubular e
secreção tubular — como se segue:
Excreção urinária = Filtração glomerular − Reabsorção tubular + Secreção tubular
Para muitas substâncias, a reabsorção tem papel bem mais importante do
que o da secreção na determinação da intensidade final de excreção urinária.
No entanto, a secreção é responsável por quantidades significativas de íons potássio, íons hidrogênio e de outras poucas substâncias que aparecem na