Tratado de Fisiologia Médica
Controle da Excitação e da Condução no Coração
Figura 10-4. Transmissão do impulso cardíaco pelo coração, mostrando o tempo de aparecimento nas diferentes partes do órgão (em frações de segundo, após o aparecimento inicial no nodo sinoatrial). A-V, atrioventricular; S-A, sinoatrial.
CONTROLE DA EXCITAÇÃO E DA CONDUÇÃO NO
CORAÇÃO
O NODO SINUSAL É O MARCA-PASSO NORMAL DO
CORAÇÃO
A esta altura do que já foi discutido sobre a gênese e a transmissão do
impulso cardíaco, nota-se que o impulso normalmente se origina no nodo
sinoatrial. Em certas condições anormais isso não acontece. Algumas outras
partes do coração também podem apresentar excitação intrínseca rítmica do
mesmo modo que as fibras do nodo sinusal; essa capacidade é, de modo
particular, verdadeira para as fibras do nodo A-V e as de Purkinje.
As fibras do nodo A-V, quando não estimuladas a partir de local externo,
emitem descargas intrínsecas rítmicas, com frequência aproximada de 40 a
60 vezes por minuto, e as fibras de Purkinje têm frequência de descarga
entre 15 e 40 vezes por minuto. Esses valores diferem dos da frequên cia
normal do nodo sinusal, de 70 a 80 vezes por minuto.
A questão a ser respondida é: por que o nodo sinusal controla a
ritmicidade cardíaca, e não o nodo A-V ou as fibras de Purkinje? A resposta
se baseia no fato de que a descarga do nodo sinusal é consideravelmente
mais rápida que a autoexcitação natural do nodo A-V e das fibras de
Purkinje. A cada descarga sinusal, seu impulso é conduzido para o nodo A-
V e para as fibras de Purkinje, causando, assim, a descarga de suas
membranas excitáveis. Entretanto, o nodo sinusal pode de novo atingir seu
limiar antes que o nodo A-V ou as fibras de Purkinje atinjam seus próprios
limiares de autoexcitação. Portanto, o novo estímulo sinusal descarrega o
nodo A-V e as fibras de Purkinje antes que suas autoexcitações ocorram.
Assim, o nodo sinusal controla o batimento cardíaco porque sua
frequência de descargas rítmicas é mais alta que a de qualquer outra porção
do coração. Portanto, o nodo sinusal é quase sempre o marca-passo do
coração normal.
Marca-passos Anormais — Marca-passo “Ectópico”.
Ocasionalmente, alguma outra parte do coração desenvolve frequência de
descargas rítmicas mais rápidas que a do nodo sinusal. Por exemplo, às
vezes esse desenvolvimento acontece no nodo A-V ou nas fibras de
Purkinje quando um deles fica anormal. Nesses casos, o marca-passo passa
a ser o nodo A-V ou as fibras de Purkinje excitadas. Sob certas condições
mais raras, um local no músculo atrial ou ventricular desenvolve
excitabilidade excessiva e passa a ser o marca-passo.
Um marca-passo em qualquer lugar que não o nodo sinusal é referido
como marca-passo “ectópico”. O marca-passo ectópico produz sequências
anormais da contração das diferentes partes do coração e pode
comprometer, de modo significativo, o bombeamento.
Outra causa de troca do marca-passo é o bloqueio da condução do impulso
cardíaco do nodo sinusal para as demais porções do coração. O novo marca-
passo, então, mais frequentemente se situa no nodo A-V ou nas porções
penetrantes do feixe A-V a caminho dos ventrículos.
Quando ocorre bloqueio A-V — ou seja, quando o impulso cardíaco falha
em passar dos átrios para os ventrículos pelo sistema nodal e pelo feixe A-V
—, os átrios continuam a se contrair com a frequência normal do nodo
sinoatrial, enquanto novo marca-passo geralmente se desenvolve no sistema
ventricular de Purkinje, conduzindo o músculo ventricular a novas
frequências, entre 15 e 40 batimentos por minuto. Após bloqueio A-V
repentino, o sistema de Purkinje não inicia imediatamente a emissão de
impulsos, mas apenas após o intervalo de 5 a 20 segundos, pois antes do
bloqueio as fibras de Purkinje estavam “sobrepujadas” (overdriven) pelos rápidos impulsos sinusais e se encontravam consequentemente em estado de
supressão. Durante esses 5 a 20 segundos, os ventrículos não bombeiam
sangue, e a pessoa desmaia após 4 a 5 segundos, em virtude da falta de
fluxo sanguíneo para o cérebro. Essa retomada tardia dos batimentos
cardíacos é chamada de síndrome de Stokes-Adams. Se esse período de
atraso se prolongar muito, pode ocasionar a morte.
O PAPEL DAS FIBRAS DE PURKINJE NA SINCRONIA DA
CONTRAÇÃO DO MÚSCULO VENTRICULAR
A rápida condução do sistema de Purkinje permite normalmente que o
impulso cardíaco chegue a quase todas as porções do coração dentro de
pequeno intervalo de tempo, excitando a primeira fibra muscular ventricular
apenas 0,03 a 0,06 segundo antes de excitar o último cardiomiócito
ventricular. Essa coincidência temporal faz com que todas as porções
musculares dos dois ventrículos iniciem sua contração praticamente ao
mesmo tempo e, em seguida, se mantenham contraídos por mais 0,3
segundo.
O bombeamento eficaz de ambos os ventrículos depende dessa contração
sincrônica. Se o impulso cardíaco tiver de ser conduzido lentamente pelos
ventrículos, boa parte da massa muscular irá se contrair antes da massa
restante; nesse caso, o efeito global do bombeamento ficará bastante
prejudicado. Na realidade, em alguns casos de debilidade cardíaca, muitos
dos quais serão discutidos nos Capítulos 12 e 13, ocorre transmissão lenta, e
a eficácia do bombeamento pode ficar reduzida por até 20% a 30%.
OS NERVOS SIMPÁTICOS E PARASSIMPÁTICOS
CONTROLAM A RITMICIDADE CARDÍACA E A
CONDUÇÃO DE IMPULSOS PELOS NERVOS
CARDÍACOS
O coração recebe inervação pelos nervos simpáticos e pelos
parassimpáticos, como mostrado na Figura 9-13 do Capítulo 9. Os nervos
parassimpáticos (vagos) distribuem-se majoritariamente para os nodos S-A
e A-V, pouco menos para a musculatura atrial e muito pouco para o
músculo ventricular. Os nervos simpáticos, por outro lado, distribuem-se
por todas as porções do coração com forte representação no músculo
ventricular, bem como em outras áreas.
A Estimulação Parassimpática (Vagal) Desacelera o Ritmo e a
Condução Cardíaca. A estimulação da inervação parassimpática do
coração (nervos vagos) provoca liberação do hormônio acetilcolina pelas
terminações vagais. Esse hormônio tem dois efeitos principais sobre o
coração. Primeiro, ele diminui o ritmo do nodo sinusal e, segundo, ele reduz
a excitabilidade das fibras juncionais A-V entre a musculatura atrial e o
nodo A-V, lentificando, assim, a transmissão do impulso cardíaco para os
ventrículos.
A estimulação vagal, leve a moderada, reduz a frequência cardíaca
frequentemente até cerca da metade do valor normal. Além disso, a
estimulação intensa dos vagos pode interromper por completo a excitação
rítmica do nodo sinusal ou pode bloquear a transmissão do impulso
cardíaco dos átrios para os ventrículos pelo nodo A-V. Em ambos os casos,
os sinais excitatórios não são conduzidos para os ventrículos. O batimento
ventricular pode ser interrompido por 5 a 20 segundos, mas então algum
ponto das fibras de Purkinje, mais comumente na porção septal
interventricular do feixe A-V, desenvolve ritmo próprio, causando contração
ventricular na frequência de 15 a 40 batimentos por minuto. Esse fenômeno
é denominado escape ventricular.
Mecanismo dos Efeitos Vagais. A liberação de acetilcolina pelas
terminações vagais aumenta muito a permeabilidade da membrana aos íons potássio, permitindo o rápido vazamento desse íon para fora das fibras
condutoras. Esse processo provoca aumento da negatividade no interior das
células, efeito esse conhecido como hiperpolarização, que torna esses
tecidos excitáveis muito menos excitáveis, como explicado no Capítulo 5.
No nodo sinusal, o estado de hiperpolarização torna o potencial “de
repouso” da membrana das fibras sinusais consideravelmente mais negativo
que o usual, isto é, de −65 a −75 milivolts, em lugar dos −55 a −60
milivolts normais. Portanto, a subida inicial do potencial de membrana
sinusal, decorrente do influxo de sódio e cálcio, exige muito mais tempo
para atingir o potencial limiar para a excitação. Esse requisito reduz em
muito a frequência da ritmicidade dessas fibras sinusais. Se o estímulo
vagal for suficientemente intenso, é possível interromper por completo a
autoexcitação desse nodo.
No nodo A-V, o estado de hiperpolarização provocado pela estimulação
vagal faz com que fique mais difícil para as pequenas fibras atriais que
chegam ao nodo gerarem eletricidade suficiente para excitar as fibras
nodais. Portanto, o fator de segurança para a transmissão do impulso
cardíaco pelas fibras transicionais para as fibras do nodo A-V diminui. A
redução moderada simplesmente retarda a condução do estímulo, mas a
redução mais intensa bloqueia completamente esse processo.
A Estimulação Simpática Aumenta o Ritmo Cardíaco e a
Condução. A estimulação simpática causa essencialmente efeitos opostos
aos observados no coração pela estimulação parassimpática, como se segue.
Primeiro, aumentando a frequência de descargas do nodo sinusal. Segundo,
aumentando a velocidade da condução, bem como a excitabilidade em todas
as porções do coração. Terceiro, aumentando muito a força de contração de
toda a musculatura cardíaca, tanto atrial quanto ventricular, como discutido
no Capítulo 9.
Em resumo, o estímulo simpático aumenta a atividade global do coração.
A estimulação máxima pode praticamente triplicar a frequência cardíaca e
duplicar a força de contração.
Mecanismo do Efeito Simpático. A estimulação simpática leva à
liberação do hormônio norepinefrina pelas terminações nervosas. A
norepinefrina, por sua vez, estimula os receptores adrenérgicos beta 1
mediadores do efeito sobre a frequência cardíaca. O mecanismo preciso
pelo qual a estimulação adrenérgica beta 1 atua sobre as fibras musculares
do coração ainda não está totalmente esclarecido, mas acredita-se que
aumente a permeabilidade das fibras aos íons sódio e cálcio. No nodo
sinusal, o aumento da permeabilidade sódio-cálcio torna o potencial de
repouso mais positivo, provocando também aumento da inclinação da
elevação do potencial de membrana durante a diástole em direção ao nível
limiar de autoexcitação, acelerando esse processo e, portanto, aumentando a
frequência cardíaca.
No nodo A-V e nos feixes A-V, o aumento da permeabilidade ao sódio-
cálcio torna mais fácil para o potencial de ação excitar as porções
sucessivas do sistema condutor, reduzindo o tempo de condução entre os
átrios e os ventrículos.
O aumento da permeabilidade aos íons cálcio é no mínimo parcialmente
responsável pelo aumento da força de contração do miocárdio, sob a
influência de estímulo simpático, já que o cálcio desempenha potente papel
na excitação e nos processos contráteis das miofibrilas.
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CAPÍTULO 11
O Eletrocardiograma Normal
Quando o impulso cardíaco passa através do coração, uma corrente elétrica
também se propaga do coração para os tecidos adjacentes que o circundam.
Pequena parte da corrente se propaga até a superfície do corpo. Se
eletródios forem colocados sobre a pele, em lados opostos do coração, será
possível registrar os potenciais elétricos gerados por essa corrente: esse
registro é conhecido como eletrocardiograma (ECG). A Figura 11-1 mostra
o registro de dois batimentos cardíacos de um ECG normal.