Tratado de Fisiologia Médica
Dinâmica Circulatória Anormal nas Valvulopatias
Fonocardiogramas dos Sopros Valvulares. Os fonocardiogramas B,
C, D e E da Figura 23-3 mostram, respectivamente, registros idealizados
obtidos de pacientes com estenose aórtica, regurgitação mitral, regurgitação
aórtica e estenose mitral. É óbvio, por esses fonocardiogramas, que a lesão
da estenose aórtica causa o sopro mais baixo, e a lesão da estenose mitral
ocasiona o mais fraco. Os fonocardiogramas mostram como a intensidade
dos sopros varia durante os diferentes trechos da sístole e da diástole, e a
duração relativa de cada sopro também é evidente. Observe, em particular,
que os sopros da estenose aórtica e da regurgitação mitral ocorrem apenas
durante a sístole, enquanto os sopros da regurgitação aórtica e da estenose
mitral ocorrem apenas durante a diástole. Se o leitor não compreender essa
sincronia, é necessário fazer revisão adicional até entendê-la.
DINÂMICA CIRCULATÓRIA ANORMAL NAS
VALVULOPATIAS
Dinâmica da Circulação na Estenose Aórtica e na
Regurgitação Aórtica
Na estenose aórtica, o ventrículo esquerdo em contração falha em se
esvaziar de modo adequado, enquanto na regurgitação aórtica, o sangue
flui, retrogradamente, para o ventrículo, vindo da aorta após o ventrículo já
ter bombeado o sangue para a aorta. Por conseguinte, em qualquer um dos
casos, o volume efetivo do débito sistólico cardíaco fica reduzido.
Acontecem várias compensações importantes que podem diminuir a
gravidade dos defeitos circulatórios. Algumas dessas compensações são
discutidas nas seções seguintes.
Hipertrofia do Ventrículo Esquerdo. Tanto na estenose aórtica quanto
na regurgitação aórtica, a musculatura ventricular esquerda se hipertrofia,
devido ao aumento da carga do trabalho ventricular.
Na regurgitação, a câmara ventricular esquerda também aumenta para
conter todo o sangue regurgitado da aorta. Algumas vezes, a massa
muscular ventricular esquerda se eleva por quatro a cinco vezes, produzindo
hipertrofia cardíaca esquerda.
Quando a valva aórtica estiver seriamente estenosada, o músculo
hipertrofiado permite que o ventrículo esquerdo desenvolva pressão
intraventricular de até 400 mmHg no pico sistólico.
Em pessoas com regurgitação aórtica grave, algumas vezes o músculo
hipertrofiado permite que o ventrículo esquerdo bombeie volume de débito
sistólico maior que 250 mL, embora até três quartos desse sangue retornem
ao ventrículo durante a diástole; somente um quarto flui pela aorta para o
corpo.
Aumento do Volume Sanguíneo. Outro efeito que ajuda a compensar a
diminuição do bombeamento efetivo pelo ventrículo esquerdo é o aumento
do volume de sangue. Esse volume aumentado é o resultado de (1) leve
diminuição inicial na pressão arterial; mais (2) reflexos circulatórios
periféricos induzidos por essa redução. Esses mecanismos, em conjunto,
diminuem o débito renal de urina, fazendo com que o volume sanguíneo
aumente e a pressão arterial média retorne ao normal. Além disso, a massa
eritrocítica eventualmente aumenta devido ao leve grau de hipóxia tecidual.
A elevação do volume sanguíneo tende a aumentar o retorno venoso para
o coração. Isso, por sua vez, faz com que o ventrículo esquerdo bombeie
com força adicional, necessária para superar a dinâmica do bombeamento
anormal.
As Lesões Valvulares Aórticas Podem Estar Associadas A Um
Fluxo Sanguíneo Coronariano Inadequado. Quando uma pessoa tem
estenose da valva aórtica, o músculo ventricular precisa desenvolver uma
tensão elevada para gerar uma alta pressão intraventricular, necessária para forçar o sangue através da válvula estenosada. Essa ação aumenta a carga
de trabalho e o consumo de oxigênio do ventrículo, o que exige incremento
do fluxo sanguíneo coronariano para fornecer esse oxigênio. Entretanto, a
tensão elevada da parede ventricular provoca quedas acentuadas no fluxo
coronariano durante a sístole, particularmente sobre os vasos
subendocárdicos. A pressão diastólica intraventricular também é aumentada
quando existe estenose da valva aórtica, e esse aumento da pressão pode
provocar compressão das camadas internas do miocárdio e redução do fluxo
sanguíneo coronariano. Assim, a estenose grave da valva aórtica provoca,
muitas vezes, isquemia do miocárdio.
Com a regurgitação aórtica, a pressão diastólica intraven tricular também
aumenta, comprimindo, assim, a camada interna do miocárdio e reduzindo
o fluxo coronariano. A pressão diastólica aórtica diminui durante a
regurgitação aórtica, o que pode reduzir também o fluxo sanguíneo
coronariano e provocar isquemia do miocárdio.
Falência Eventual do Ventrículo Esquerdo e Desenvolvimento
de Edema Pulmonar. Nos estágios iniciais da estenose aórtica ou da
regurgitação aórtica, a capacidade intrínseca do ventrículo esquerdo, de se
adaptar a cargas cada vez maiores, impede anormalidades significativas da
função circulatória no indivíduo em repouso, além do aumento do trabalho
necessário do ventrículo esquerdo. Por conseguinte, graus consideráveis de
estenose aórtica ou de regurgitação aórtica ocorrem, muitas vezes, antes que
a pessoa saiba que tem cardiopatia grave (como pressão sistólica ventricular
esquerda em repouso de até 200 mmHg, nas pessoas com estenose aórtica,
ou volume do débito sistólico ventricular esquerdo de até o dobro do
normal, nos casos de regurgitação aórtica).
Além do estágio crítico nessas lesões da valva aórtica, o ventrículo
esquerdo não pode, finalmente, acompanhar a demanda do trabalho. Como
consequência, o ventrículo esquerdo se dilata e o débito cardíaco começa a cair; ao mesmo tempo, o sangue se acumula no átrio esquerdo e nos
pulmões acima do ventrículo esquerdo em falência. A pressão atrial
esquerda se eleva progressivamente, e com pressões acima de 25 mmHg a
40 mmHg de pressão média atrial esquerda ocorre edema grave nos
pulmões, como discutido em detalhes no Capítulo 39.
Dinâmica da Estenose Mitral e da Regurgitação Mitral
Em pessoas com estenose mitral, o fluxo sanguíneo do átrio esquerdo para o
ventrículo esquerdo é impedido e, nos casos de regurgitação mitral, muito
do sangue que fluiu para o ventrículo esquerdo, durante a diástole, reflui
para o átrio esquerdo na sístole, em vez de ser bombeado para a aorta.
Portanto, quaisquer dessas condições reduzem o movimento efetivo de
sangue do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo.
Edema Pulmonar na Valvulopatia Mitral. O acúmulo de sangue no
átrio esquerdo provoca aumento progressivo da pressão atrial esquerda, o
que resulta, eventualmente, no desenvolvimento de edema pulmonar grave.
Na forma usual, não ocorre edema letal até que a pressão média atrial
esquerda se eleve acima de 25 mmHg e, ocasionalmente, até 40 mmHg,
porque a vasculatura linfática pulmonar aumenta muitas vezes e pode retirar
líquido dos tecidos pulmonares com extrema rapidez.
Aumento do Átrio Esquerdo e Fibrilação Atrial. O aumento da
pressão atrial esquerda na valvulopatia mitral causa aumento progressivo do
átrio esquerdo, o que eleva a distância que o impulso elétrico excitatório
cardíaco deve percorrer na parede atrial. Essa via pode ficar, eventualmente,
tão longa que predispõe ao desenvolvimento de movimentos circulares do
sinal excitatório, como discutido no Capítulo 13. Por conseguinte, nos
estágios finais da valvulopatia mitral, especialmente na estenose mitral, em
geral ocorre fibrilação atrial. Esse desenvolvimento reduz ainda mais a eficácia do bombeamento cardíaco, ocasionando debilidade cardíaca ainda
maior.
Compensação na Valvulopatia Mitral Inicial. Como ocorre também
na valvulopatia aórtica e em muitos tipos de cardiopatia congênita, o
volume do sangue aumenta na valvulopatia mitral devido, principalmente, à
diminuição da excreção de líquido e de sal pelos rins. Esse aumento do
volume sanguíneo eleva o retorno venoso para o coração, ajudando, assim,
a superar o efeito da debilidade cardíaca. Portanto, após compensação, o
débito cardíaco pode cair apenas minimamente até os estágios finais da
valvulopatia mitral, mesmo que a pressão atrial esquerda esteja
aumentando.
Enquanto a pressão atrial esquerda aumenta, o sangue começa a se
acumular nos pulmões, talvez, por toda a extensão de volta à artéria
pulmonar. Além disso, o edema incipiente dos pulmões causa constrição
arteriolar pulmonar. Esses dois efeitos juntos elevam a pressão arterial
pulmonar sistólica e também a pressão ventricular direita, algumas vezes
até 60 mmHg, que é mais que o dobro do valor normal. Por sua vez, esse
aumento da pressão ocasiona hipertrofia do lado direito do coração, o que
compensa, em parte, o aumento de sua carga de trabalho.
Dinâmica Circulatória durante o Exercício em Pacientes
com Lesões Valvulares
Durante o exercício, grande quantidade de sangue venoso retorna ao
coração vinda da circulação periférica. Por conseguinte, todas as
anormalidades dinâmicas que ocorrem nos diferentes tipos de valvulopatia
são bastante exacerbadas. Mesmo em pessoas com cardiopatia valvular
leve, nas quais os sintomas podem ser irreconhecíveis no repouso, muitas
vezes os sintomas graves aparecem durante o exercício intenso. Por exemplo, nos pacientes com lesões da válvula aórtica, o exercício pode