Tratado de Fisiologia Médica
A Doença Renal Crônica é Frequentemente Associada a uma Perda Irreversível de Néfrons Funcionais
obstrução crônica do trato urinário que permanece por muitos dias ou
semanas pode levar a dano renal irreversível. Algumas das causas de‐
injúria renal aguda pós-renal incluem (1) obstrução bilateral dos ureteres ou
das pelves renais, causada por grandes cálculos ou coágulos de sangue; (2)
obstrução da bexiga; e (3) obstrução da uretra.
EFEITOS FISIOLÓGICOS DA INJÚRIA RENAL AGUDA
Um dos principais efeitos fisiológicos da lesão renal aguda é a retenção de
água, de produtos da degradação metabólica e de eletrólitos no sangue e no
líquido extracelular, podendo levar à sobrecarga de água e sal, o que, por
sua vez, pode acarretar edema e hipertensão. Todavia, a retenção excessiva
de potássio é com frequência ameaça mais séria a pacientes com injúria
renal aguda, porque o aumento da concentração de potássio no plasma
(hipercalemia) acima de 8 mEq/L (duas vezes o normal) pode ser fatal. Na
medida em que os rins também não conseguem excretar íons hidrogênio
suficientes, os pacientes com injúria renal aguda desenvolvem acidose
metabólica, que, por si só, pode ser letal ou agravar a hipercalemia.
Nos casos mais graves de injúria renal aguda, ocorre anúria total. O
paciente falecerá em 8 a 14 dias, a menos que a função renal seja restaurada
ou que um rim artificial seja usado para livrar o corpo do excesso de água,
eletrólitos e produtos da degradação metabólica. Outros efeitos do débito
urinário diminuído, bem como o tratamento por rim artificial, são discutidos
na próxima seção, em referência à doença renal crônica.
A DOENÇA RENAL CRÔNICA É FREQUENTEMENTE
ASSOCIADA A UMA PERDA IRREVERSÍVEL DE
NÉFRONS FUNCIONAIS
A DRC é definida normalmente como a presença de um dano renal ou uma
redução da função renal que persiste durante pelo menos 3 meses.
Frequentemente está associada a perda progressiva e irreversível de grande
número de néfrons funcionais. Normalmente, não ocorrem sintomas clínicos
sérios até que o número de néfrons funcionais diminua, pelo menos, a 70%
a 75% abaixo do normal. Na verdade, concentrações relativamente normais
da maioria dos eletrólitos e dos volumes de líquidos corporais normais ainda
podem se manter até o número de néfrons funcionais cair abaixo de 20% a
25% do normal.
A Tabela 32-4 mostra algumas das causas mais importantes de nefropatia
crônica. Em geral, a nefropatia crônica, bem como a insuficiência renal
aguda, pode ocorrer devido a distúrbios nos vasos sanguíneos, nos
glomérulos, nos túbulos, no interstício renal e no trato urinário inferior. A
despeito da grande variedade de doenças capazes de levar à nefropatia
crônica, o resultado final é essencialmente o mesmo — a redução do
número de néfrons funcionais.
Tabela 32-4 Algumas Causas de Doença Renal Crônica
Distúrbios Metabólicos
Diabetes melito
Obesidade
Amiloidose
Hipertensão
Distúrbios Vasculares Renais
Aterosclerose
Nefrosclerose-hipertensão
Distúrbios Imunológicos
Glomerulonefrite
Poliarterite nodosa
Lúpus eritematoso
Infecções
Pielonefrite
Tuberculose
Distúrbios Tubulares Primários
Nefrotoxinas (analgésicos, metais pesados)
Obstrução do Trato Urinário
Cálculos renais
Hipertrofia da próstata
Compressão uretral
Distúrbios Congênitos
Doença policística
Ausência congênita de tecido renal (hipoplasia renal)
O CICLO VICIOSO DA DOENÇA RENAL CRÔNICA LEVA
À DOENÇA RENAL TERMINAL
Em alguns casos, um insulto inicial ao rim leva à deterioração progressiva
da função renal e à perda de néfrons, até o ponto em que a pessoa deve
receber diálise ou ser submetida a transplante renal para sobreviver. Essa
condição é referida como doença renal terminal (DRT).
Estudos experimentais em animais de laboratório mostraram que a
remoção cirúrgica de grandes porções do rim causa, inicialmente, mudanças
adaptativas nos néfrons restantes, capazes de levar ao aumento do fluxo
sanguíneo, aumento da FG e maior débito urinário pelos néfrons
sobreviventes. Ainda não são bem compreendidos os mecanismos
responsáveis por essas mudanças que envolvem hipertrofia (crescimento de
diversas estruturas dos néfrons sobreviventes), bem como mudanças
funcionais que diminuem a resistência vascular e a reabsorção tubular nos
néfrons sobreviventes. Essas mudanças adaptativas permitem que a pessoa elimine quantidades normais de água e solutos mesmo quando a massa renal
é reduzida a 20% a 25% do normal. Durante período de vários anos,
entretanto, essas mudanças adaptativas renais podem levar à lesão adicional
dos néfrons restantes, em particular dos glomérulos desses néfrons.
A causa dessa injúria adicional não está completamente elucidada, mas
alguns investigadores acreditam que possa estar relacionada, em parte, ao
aumento da pressão ou da distensão dos glomérulos remanescentes, o que
decorre da vasodilatação funcional ou do aumento da pressão sanguínea.
Acredita-se que o aumento crônico da pressão e a distensão das menores
arteríolas e dos glomérulos causem lesão e esclerose desses vasos
(substituição do tecido normal por tecido conjuntivo). Essas lesões
escleróticas podem eventualmente obliterar o glomérulo, levando à redução
ainda maior da função renal, a mais mudanças adaptativas nos néfrons
restantes, e a ciclo vicioso lentamente progressivo que acaba resultando em
DRT (Figura 32-2). O método mais eficaz para desacelerar essa perda
progressiva da função renal é diminuir a pressão arterial e a pressão
hidrostática glomerular, especialmente pelo uso de fármacos como os
inibidores da enzima conversora de angiotensina ou antagonistas da
angiotensina II.
A Tabela 32-5 lista as causas mais comuns de DRT. No início da década
de 1980, acreditava-se que a glomerulonefrite, em todas as suas diversas
formas, era a causa inicial mais comum de DRT. Nos últimos anos, o
diabetes melito e a hipertensão foram reconhecidos como as principais
causas de DRT, representando, em conjunto, mais de 70% de todos os casos
de insuficiência renal crônica.
O ganho excessivo de peso (obesidade) parece ser o fator de risco mais
importante das duas principais causas de DRT — diabetes e hipertensão.
Como discutido no Capítulo 79, o diabetes tipo II, fortemente relacionado
com a obesidade, é responsável por mais de 90% de todos os casos de diabetes melito. O ganho excessivo de peso é também uma das causas
principais de hipertensão, respondendo por até 65% a 75% do risco de
desenvolver hipertensão em adultos. Além de causar lesão renal, por meio
do diabetes e da hipertensão, a obesidade pode ter efeitos adicionais ou
sinergísticos que agravam a função renal em pacientes com doença renal
preexistente.
Figura 32-2. Ciclo vicioso que pode ocorrer na doença renal primária. A perda de néfrons, decorrente da doença, pode aumentar a pressão e o fluxo nos capilares dos glomérulos sobreviventes, o que, por sua vez, pode acabar comprometendo também esses capilares “normais”, causando, assim, esclerose progressiva e perda eventual desses glomérulos.
Tabela 32-5 Causas Mais Comuns de Doença Renal Terminal (DRT)
Causa Total de Pacientes com DRT (%)
Diabetes melito 45
Hipertensão 27
Glomerulonefrite 8
Doença renal policística 2
Outras/desconhecidas 18
INJÚRIA DA VASCULATURA RENAL COMO CAUSA DE
DOENÇA RENAL CRÔNICA
Muitos tipos de lesões vasculares podem levar à isquemia renal e à morte do
tecido renal. As mais comuns dessas lesões são (1) aterosclerose das
artérias renais mais calibrosas, com constrição esclerótica progressiva dos
vasos; (2) hiperplasia fibromuscular de uma ou mais das grandes artérias, o
que também ocasiona oclusão dos vasos; e (3) nefrosclerose, provocada por
lesões escleróticas das artérias menores, de arteríolas e glomérulos.
As lesões ateroscleróticas ou hiperplásicas das grandes artérias
frequentemente afetam um rim mais do que o outro e, assim, levam à
diminuição unilateral da função renal. Como discutido no Capítulo 19,
ocorre hipertensão, muitas vezes, quando a artéria de um rim fica constrita
enquanto a artéria do outro rim ainda está normal, condição análoga à
hipertensão de “dois rins” de Goldblatt.
A nefrosclerose benigna, a forma mais comum de doença renal, é
encontrada, até certo grau, em cerca de 70% dos exames pós-morte em
pessoas que falecem com mais de 60 anos de idade. Esse tipo de lesão
vascular ocorre nas menores artérias interlobulares e nas arteríolas aferentes
do rim. Acredita-se que comece por vazamento de plasma, através da
membrana íntima desses vasos, causando depósito de fibrina nas suas
camadas médias, seguido por espessamento progressivo da parede do vaso,
o que leva, por fim, à constrição desses vasos e, em alguns casos, à sua oclusão. Na medida em que não existe, essencialmente, qualquer circulação
colateral entre as menores artérias renais, a oclusão de uma ou mais dessas
artérias ocasiona destruição de número comparável de néfrons. Desse modo,
grande parte do tecido renal é substituída por pequena quantidade de tecido
fibroso. Quando ocorre esclerose nos glomérulos, a lesão é referida como
glomerulosclerose.
A nefrosclerose e a glomerulosclerose ocorrem em certo grau na maioria
das pessoas após a quarta década de vida, causando diminuição de cerca de
10% do número de néfrons funcionais a cada 10 anos, depois dos 40 anos de
idade (Figura 32-3). Essa perda de glomérulos e da função geral dos néfrons
se reflete na queda progressiva do fluxo sanguíneo renal e da FG. Mesmo
em pessoas saudáveis sem hipertensão ou diabetes de base, o fluxo renal de
plasma e a FG diminuem em 40% a 50% aos 80 anos de idade.
A frequência e a gravidade da nefrosclerose e da glome rulosclerose são
bastante acentuadas pela hipertensão e pelo diabetes melito concomitantes.
Na verdade, o diabetes melito e a hipertensão são as duas causas mais
importantes de DRT, como discutido anteriormente. Assim, a nefrosclerose
benigna associada à hipertensão grave pode levar à nefrosclerose maligna,
rapidamente progressiva. Os aspectos histológicos característicos da
nefrosclerose maligna incluem grande quantidade de depósitos fibrinoides
nas arteríolas e espessamento progressivo dos vasos com isquemia grave
nos néfrons afetados. Por razões desconhe cidas, a incidência de
nefrosclerose maligna e glomerulosclerose grave é, significativamente,
maior em pessoas negras do que em brancas da mesma idade e que tenham
graus semelhantes de gravidade de hipertensão ou diabetes melito.
Figura 32-3. Figura 32‐3. Efeito da idade sobre o número de glomérulos funcionais.
INJÚRIA AOS GLOMÉRULOS COMO CAUSA DE
DOENÇA RENAL CRÔNICA — GLOMERULONEFRITE
A glomerulonefrite crônica pode ser provocada por diversas doenças que
causam inflamação e dano às alças capilares nos glomérulos renais. Em
contraste com a forma aguda dessa doença, a glomerulonefrite crônica é
doença de evolução lenta que, muitas vezes, leva à insuficiência renal
irreversível. Pode decorrer de doença renal primária, de glomerulonefrite
aguda, ou pode ser secundária a doenças sistêmicas, como o lúpus
eritematoso sistêmico.
Na maioria dos casos, a glomerulonefrite crônica começa com o acúmulo
de complexos antígenos-anticorpos precipitados na membrana glomerular.
Em contraste com a glomerulonefrite aguda, as infecções estreptocócicas
respondem por apenas pequena porcentagem de pacientes com a forma
crônica de glomerulonefrite. O acúmulo do complexo antígenos-anticorpos
nas membranas glomerulares causa inflamação, espessamento progressivo
das membranas e posterior invasão dos glomérulos por tecido fibroso. Nos
estágios avançados da doença, o coeficiente de filtração dos capilares glomerulares fica muito reduzido, devido ao menor número de capilares
filtrantes nos tufos glomerulares e ao espessamento das membranas
glomerulares. Nos estágios finais da doença, muitos glomérulos são
substituídos por tecido fibroso e, portanto, não conseguem filtrar líquido.
INJÚRIA AO INTERSTÍCIO RENAL COMO CAUSA DE
DOENÇA RENAL CRÔNICA — NEFRITE INTERSTICIAL
A doença primária ou secundária do interstício renal é conhecida como
nefrite intersticial. Essas doenças podem decorrer de dano vascular,
glomerular ou tubular que destrói os néfrons individuais, ou pode envolver
dano primário ao interstício renal por venenos, fármacos e infecções
bacterianas.
A lesão intersticial renal causada por infecção bacteriana é denominada
pielonefrite. A infecção pode decorrer de diferentes tipos de bactérias, mas
especialmente pela Escherichia coli originada pela contaminação fecal do
trato urinário. Essas bactérias chegam aos rins pela corrente sanguínea ou,
mais comumente, pela ascensão pelo trato urinário inferior, por meio dos
ureteres, até os rins.
Muito embora a bexiga normal seja capaz de eliminar rapidamente as
bactérias, existem duas condições clínicas gerais que podem interferir na
expulsão normal das bactérias pela bexiga: (1) a incapacidade da bexiga de
se esvaziar completamente, retendo certo volume de urina residual, e (2)
uma obstrução do fluxo urinário. Com o comprometimento da capacidade
de expulsão das bactérias pela bexiga, as bactérias se multiplicam e a bexiga
fica inflamada, condição denominada cistite. Quando ocorre cistite, ela pode
permanecer localizada sem ascender para os rins, ou, em algumas pessoas,
as bactérias podem atingir a pelve renal, devido à condição patológica na
qual a urina é propelida para um ou para ambos os ureteres, durante a
micção. Essa condição é referida como refluxo vesicouretral e se deve à incapacidade da parede da bexiga de ocluir o ureter durante a micção; como
consequência, parte da urina é propelida para cima, em direção ao rim,
carregando consigo bactérias que podem atingir a pelve renal e a medula
renal, onde desencadeiam a infecção e a inflamação associadas à
pielonefrite.
A pielonefrite se inicia na medula renal e, assim, usualmen te afeta a
função da medula mais do que a do córtex, pelo menos nos estágios iniciais.
Na medida em que uma das funções primárias da medula é a de manter o
mecanismo de contracorrente para concentrar a urina, pacientes com
pielonefrite, com frequência, apresentam incapacidade acentuada de
concentrar a urina.
Com a pielonefrite de longa duração, a invasão dos rins pelas bactérias não
só causa dano ao interstício da medula renal como também resulta em dano
progressivo dos túbulos renais, dos glomérulos e de outras estruturas, por
todo o rim. Consequentemente, grande parte do tecido renal funcional é
perdida, e o paciente pode desenvolver uma nefropatia crônica.
SÍNDROME NEFRÓTICA — EXCREÇÃO DE PROTEÍNA
NA URINA EM RAZÃO DO AUMENTO NA
PERMEABILIDADE GLOMERULAR
A síndrome nefrótica, caracterizada pela perda de grande quantidade de
proteína plasmática na urina, desenvolve-se em muitos pacientes com
doença renal. Em alguns casos, essa síndrome ocorre sem evidências de
outras anormalidades significativas da função renal, mas, muitas vezes, é
associada a algum grau de doença renal crônica.
A causa da perda de proteína na urina é a maior permea bilidade da
membrana glomerular. Assim, qualquer doença que aumente a
permeabilidade dessa membrana pode causar a síndrome nefrótica. Tais
doenças incluem (1) glomerulo nefrite crônica, que afeta basicamente os glomérulos, levando, com frequência, ao aumento acentuado da
permeabilidade da membrana glomerular; (2) amiloidose, que resulta do
depósito de substância proteinoide anormal nas paredes dos vasos
sanguíneos e compromete seriamente a membrana basal dos glomérulos; e
(3) síndrome nefrótica de alteração mínima, que não está associada a
qualquer anormalidade importante da membrana capilar glomerular passível
de ser detectada pela microscopia óptica. Como discutido noCapítulo 27,
observou-se que a nefropatia de alteração mínima estava associada à perda
das cargas negativas normalmente presentes na membrana basal do capilar
glomerular. Estudos imunológicos mostraram também reações imunes
anormais em alguns casos, sugerindo que a perda das cargas negativas pode
ser resultado do ataque por anticorpos à membrana. A perda de cargas
negativas normais da membrana basal dos capilares glomerulares permite
que proteínas, especialmente a albumina, passem com facilidade pela
membrana glomerular, porque as cargas negativas da membrana basal
normalmente repelem as proteínas plasmáticas negativamente carregadas.
A nefropatia de alteração mínima pode ocorrer em adultos, mas, com
maior frequência, acomete crianças entre 2 e 6 anos de idade. A maior
permeabilidade da membrana capilar glomerular permite, ocasionalmente, a
perda de até 40 gramas de proteína plasmática na urina a cada dia, o que
representa quantidade importante em crianças pequenas. Quando isso
ocorre, a concentração de proteínas plasmáticas da criança cai, em geral,
abaixo de 2 g/dL, e a pressão coloidosmótica cai do valor normal de 28 para
menos de 10 mmHg. Como consequência dessa baixa pressão
coloidosmótica plasmática, grande quantidade de líquido vaza dos capilares
de todo o corpo para a maioria dos tecidos, causando edema grave, como
discutido no Capítulo 25.
A FUNÇÃO DO NÉFRON NA DOENÇA RENAL CRÔNICA
A Perda de Néfrons Funcionais Requer que os Néfrons
Sobreviventes Excretem mais Água e Solutos. Seria razoável
suspeitar que a diminuição do número de néfrons funcionais, o que reduz a
FG, também causasse grande redução da excreção renal de água e solutos.
Contudo, muitos pacientes, que perderam até 75% a 80% de seus néfrons,
conseguem excretar quantidades normais de água e eletrólitos sem acúmulo
significativo de líquidos ou da maioria dos eletrólitos nos líquidos corporais.
A redução progressiva do número de néfrons, no entanto, leva à retenção de
eletrólitos e de líquido, chegando-se ao óbito quando o número de néfrons
cai abaixo de 5% a 10% do normal.
Em contraste com os eletrólitos, muito dos produtos da degradação
metabólica, como ureia e creatinina, se acumulam quase na mesma
proporção que o número de néfrons destruídos. Isso se deve ao fato de que a
excreção de substâncias, como creatinina e ureia, depende muito da filtração
glomerular, e de não serem reabsorvidas tão avidamente quanto os
eletrólitos. A creatinina, por exemplo, não é reabsorvida, e sua excreção é
aproximadamente igual à filtração.
Filtração da creatinina
= FG × Concentração plasmática de creatinina
= Excreção da creatinina
Portanto, se a FG diminui, a excreção de creatinina também diminui
transitoriamente, causando acúmulo de crea tinina nos líquidos corporais e
elevando a concentração plasmática até que a excreção da creatinina volte
ao normal — a mesma com que a creatinina é produzida no corpo (Figura
32-4). Assim, sob condições estáveis, o ritmo de excreção de creatinina é
igual ao ritmo de produção de crea tinina, independentemente das reduções
no FG; entretanto, essa excreção normal da creatinina ocorre à custa da concentração plasmática elevada de creatinina, como ilustrado pela curva A
da Figura 32-5.
Alguns solutos, como o fosfato, a ureia e os íons hi drogê nio, são mantidos
com frequência perto de sua faixa normal até que a FG caia a 20% a 30% da
normal. Por conseguinte, as concentrações plasmáticas dessas substâncias
aumentam, mas não em proporção à redução da FG, como ilustrado pela
curva B da Figura 32-5. A manutenção de concen trações plasmáticas
relativamente constantes desses solutos, enquanto a FG diminui, é
acompanhada pela excreção de frações cada vez maiores da quantidade
desses solutos que são filtradas nos capilares glomerulares; isso ocorre pela
diminuição da reabsorção tubular ou, em alguns casos, pelo aumento da
secreção tubular.
No caso dos íons sódio e cloreto, suas concentrações plasmáticas se
mantêm praticamente constantes, mesmo com quedas significativas da FG
(ver a curva C da Figura 32-5). Essa manutenção é conseguida reduzindo
bastante a reabsorção tubular desses eletrólitos.
Por exemplo, com a perda de 75% dos néfrons funcionais, cada néfron
sobrevivente precisa excretar quatro vezes mais sódio e quatro vezes mais
volume do que sob condições normais (Tabela 32-6).
Parte dessa adaptação decorre do maior fluxo sanguíneo e da maior FG em
cada néfron sobrevivente devido à hipertrofia dos vasos sanguíneos e dos
glomérulos, bem como de alterações funcionais que ocasionam dilatação
dos vasos sanguíneos. Mesmo com grandes reduções da FG total, a
excreção renal normal ainda pode ser mantida diminuindo-se a intensidade
com que os túbulos reabsorvem água e solutos.
Figura 32-4. Efeito da redução da filtração glomerular (FG) por 50%, na concentração sérica de creatinina e em sua excreção, quando a produção de creatinina permanece constante.
Figura 32-5. Padrões representativos da adaptação para diferentes tipos de solutos, na insuficiência renal crônica. A curva A mostra as mudanças aproximadas das concentrações plasmáticas de solutos, como creatinina e ureia, que são filtradas e pouco absorvidas. A curva B mostra as concentrações aproximadas de solutos, como fosfato e urato. A curva C mostra as concentrações aproximadas de solutos, como sódio e cloreto.
Tabela 32-6 Excreção Renal Total e Excreção por Néfron nas Doenças Renais
Perda de 75% dos
Normal Néfrons
Número de néfrons 2.000.000 500.000
FG total (mL/min) 125 40
FG de um só néfron (nL/min) 62,5 80
Volume excretado por todos os néfrons 1,5 1,5
(mL/min)
Volume excretado por néfron (nL/min) 0,75 3,0
FG, Filtração glomerular.
Isostenúria — Incapacidade do Rim de Concentrar ou Diluir a
Urina. Efeito importante da alta intensidade do fluxo tubular que ocorre
nos néfrons remanescentes dos rins afetados é que os túbulos renais perdem
sua capacidade de concentrar ou diluir totalmente a urina. A capacidade de
concentração do rim é comprometida, principalmente porque (1) o fluxo
intenso do líquido tubular pelos ductos coletores evita a reabsorção
adequada de água; e (2) o fluxo rápido pela alça de Henle e dos ductos
coletores impede que o mecanismo de contracorrente opere, de forma
efetiva, na concentração dos solutos do líquido intersticial medular.
Portanto, à medida que mais néfrons são progressivamente destruídos, a
capacidade renal de concentração máxima diminui, e a osmolaridade e a
gravidade específica da urina (medida da concentração total de solutos) se
aproximam da osmolaridade e da gravidade específica do filtrado
glomerular, como mostrado na Figura 32-6.
O mecanismo de diluição do rim também fica comprome tido quando o
número de néfrons diminui de forma acentuada, porque a rápida passagem
de líquido pelas alças de Henle e a carga elevada de solutos, como a ureia,
produzem concentração relativamente alta de solutos no líquido tubular
dessa parte do néfron. Consequentemente, a capacidade de diluição do rim é
afetada, e a osmolalidade e a gravidade específica mínimas da urina se
aproximam das do filtrado glomerular. Na medida em que o mecanismo de
concentração fica ainda mais comprometido que o mecanismo de diluição
na doença renal crônica, um importante exame clínico da função renal é o
de determinar quão bem os rins conseguem concentrar a urina quando a
ingestão de água da pessoa é restringida por 12 horas ou mais.
Figura 32-6. Desenvolvimento de isostenúria em paciente com redução do número de néfrons funcionais.
Efeitos da Insuficiência Renal sobre os Líquidos Corporais — Uremia
O efeito da doença renal crônica sobre os líquidos corporais depende (1) da
ingestão de água e de alimentos; e (2) do grau de comprometimento da função
renal. Assumindo que pessoa com insuficiência renal completa continue a ingerir as mesmas quantidades de água e de alimentos, as concentrações das diferentes
substâncias no líquido extracelular se aproximam das mostradas na Figura 32-7.
Efeitos importantes incluem (1) edema generalizado, decorrente da retenção de água e sal; (2) acidose resultante da incapacidade dos rins de livrar o corpo dos produtos ácidos normais; (3) concentração elevada de nitrogênios não proteicos — especialmente, ureia, creatinina e ácido úrico — devido à incapacidade do
corpo de excretar os produtos da degradação metabólica de proteínas; e (4) altas
concentrações de outras substâncias excretadas pelo rim, incluindo fenóis, sulfatos, fosfatos, potássio e bases de guanidina. Essa condição completa é
referida como uremia, devido à concentração elevada de ureia nos líquidos
corporais.
Figura 32-7. Efeito da insuficiência renal nos constituintes do líquido extracelular. NNP, nitrogênios não proteicos.
Retenção de Água e Desenvolvimento de Edema na Doença Renal Crônica.
Se a ingestão de água for restringida imediatamente após o início de uma injúria
renal aguda, o conteúdo total de líquido corporal pode aumentar apenas
ligeiramente. Se a ingestão de líquido não for restringida e o paciente beber
líquido em resposta aos mecanismos normais da sede, os líquidos corporais
começam a elevar, imediata e rapidamente.
Na doença renal crônica, o acúmulo de líquido pode não ser grave, desde que a
ingestão de sal e líquido não seja excessiva, até a função renal cair a 25% da
normal ou ainda mais baixa. A razão disso, como discutido anteriormente, é que
os néfrons sobreviventes excretam quantidades maiores de sal e água. Mesmo a
pequena retenção de líquido que ocorre em conjunto com a maior secreção de
renina e de angiotensina II que usualmente ocorre na doença renal isquêmica
causa, com frequência, hipertensão grave em pessoas com nefropatia crônica.
Desenvolvem hipertensão quase todos os pacientes com função renal tão
reduzida que necessitem de diálise para manter suas vidas. Em muitos desses
pacientes, a redução drástica de sal ou a remoção de líquido extracelular por
diálise pode controlar a hipertensão. Os pacientes remanescentes continuam a ter
hipertensão, mesmo depois de o excesso de sódio ter sido removido por diálise.
Nesse grupo, a remoção dos rins isquêmicos corrige a hipertensão (desde que a
retenção de líquido seja evitada pela diálise), já que se removem por esse modo a
fonte da secreção excessiva de renina e a subsequente maior formação de angiotensina II.
Aumento da Ureia e de Outros Nitrogênios Não Proteicos (Azotemia). Os
nitrogênios não proteicos incluem ureia, ácido úrico, creatinina e alguns poucos compostos menos importantes. Estes, em geral, são os produtos da degradação metabólica de proteínas e devem ser removidos do corpo para garantir o metabolismo contínuo normal das proteínas nas células. Suas concentrações,
particularmente de ureia, podem aumentar por até 10 vezes à normal, durante a
primeira e a segunda semanas de insuficiência renal total. Na insuficiência renal crônica, as concentrações elevam aproximadamente em proporção ao grau de
redução dos néfrons funcionais. Por essa razão, a medida das concentrações
dessas substâncias, em especial da ureia e da creatinina, representa meio importante para avaliar a gravidade da doença renal crônica.
Acidose na Doença Renal Crônica. Todos os dias o corpo normalmente produz
cerca de 50 a 80 milimoles a mais de ácido metabólico do que álcali metabólico. Portanto, quando os rins não conseguem funcionar, ácido se acumula nos líquidos
corporais. Os tampões dos líquidos corporais conseguem tamponar normalmente 500 a 1.000 milimoles de ácido, sem aumentos letais da concentração de H+ no
líquido extracelular, e os compostos de fosfato, nos ossos, conseguem tamponar outros poucos milhares de milimoles de H+. Entretanto, quando esse poder de tamponamento se esgota, o pH do sangue cai de forma drástica, e o paciente
entrará em coma e falecerá se o pH cair abaixo de 6,8.
Anemia na Doença Renal Crônica Provocada pela Menor Secreção de
Eritropoetina. Pacientes com doença renal crônica quase sempre desenvolvem
anemia. A causa mais importante dessa anemia é a menor secreção renal de eritropoetina, que estimula a medula óssea a produzir hemácias. Se os rins
estiverem seriamente comprometidos, eles não conseguirão formar quantidades
adequadas de eritropoetina, o que leva à menor produção de hemácias e à consequente anemia.
A existência, desde 1989, da eritropoetina recombinante, no entanto,
representou meio de tratar a anemia nos pacientes com insuficiência renal crônica.
Osteomalacia na Doença Renal Crônica Causada pela Menor Produção de
Vitamina D Ativa e por Retenção de Fosfato pelos Rins. A insuficiência renal prolongada também causa osteomalacia, condição em que os ossos são
parcialmente absorvidos e, portanto, ficam muito frágeis. Causa importante da
osteomalacia é a seguinte: a vitamina D precisa ser convertida por um processo em dois estágios, o primeiro no fígado e, em seguida nos rins em 1,25-di-hidroxicolecalciferol antes de ser capaz de promover a absorção de cálcio pelo
intestino. Portanto, o dano grave do rim reduz em muito a concentração sanguínea
de vitamina D ativa, o que, por sua vez, diminui a absorção intestinal de cálcio e a
disponibilidade de cálcio para os ossos.
Outra causa importante de desmineralização do esqueleto, na doença renal
crônica, é o aumento da concentração sérica de fosfato que acontece em
decorrência da menor FG. Esse aumento do fosfato sérico eleva a ligação do
fosfato com o cálcio plasmático, diminuindo assim a concentração sérica de cálcio
ionizado no plasma, o que, por sua vez, estimula a secreção do paratormônio.
Esse hiperparatireoidismo secundário, então, estimula a liberação de cálcio dos
ossos, provocando ainda mais desmineralização óssea.
Hipertensão e Doença Renal
Como discutido anteriormente neste Capítulo, a hipertensão pode exacerbar a
lesão dos glomérulos e dos vasos sanguíneos renais, sendo uma das principais
causas de doença renal terminal. Anormalidades da função renal podem também
causar hipertensão, como discutido em detalhes no Capítulo 19. Assim, a relação
entre hipertensão e doença renal pode, em certos casos, gerar ciclo vicioso: a
lesão renal primária leva ao aumento da pressão sanguínea, que, por sua vez,
causa mais dano aos rins, aumentando ainda mais a pressão sanguínea e assim
por diante, até que se desenvolva doença renal terminal.
Nem todos os tipos de doença renal causam hipertensão, porque o dano a
determinadas porções do rim causa uremia sem hipertensão. Contudo, alguns
tipos de dano renal são particularmente passíveis de causar hipertensão. Nas
seções seguintes é oferecida uma classificação das doenças renais, em relação
aos efeitos hipertensivos ou não hipertensivos.
Lesões Renais que Reduzem a Capacidade dos Rins de Excretar Sódio e
Água Promovem Hipertensão. Lesões renais que diminuem a capacidade dos
rins de excretar sódio e água quase invariavelmente causam hipertensão. Dessa
forma, lesões que reduzem a FG ou aumentam a reabsorção tubular, usualmente,
levam à hipertensão de graus variáveis. Alguns tipos específicos de
anormalidades renais capazes de causar hipertensão são as seguintes:
1. Maior resistência vascular renal, que reduz o fluxo renal de sangue e a FG. Um
exemplo é a hipertensão oca sionada por estenose da artéria renal.
2. Menor coeficiente de filtração dos capilares glomerulares, que reduz a FG. Um
exemplo é a glomerulonefrite crônica, que causa inflamação e espessamento
das membranas capilares glomerulares, reduzindo, assim, o coefi ciente de filtração dos capilares glomerulares.
3. Reabsorção excessiva de sódio tubular. Um exemplo é a hipertensão por
secreção excessiva de aldosterona, que aumenta a reabsorção de sódio,
principalmente nos túbulos coletores corticais.
Uma vez que se tenha desenvolvido a hipertensão, a excreção renal de sódio e
de água retorna ao normal porque a pressão arterial elevada causa natriurese de pressão e diurese de pressão, de maneira que a ingestão e o débito de sódio e água novamente ficam balanceados. Mesmo quando ocorrem aumentos
acentuados da resistência vascular renal ou reduções do coeficiente capilar
glomerular, a FG, ainda assim, retorna quase aos níveis normais, após o aumento da pressão arterial. Da mesma maneira, quando a reabsorção tubular aumenta,
como ocorre na secreção excessiva de aldosterona, a excreção urinária
inicialmente diminui, mas depois retorna ao normal, à medida que a pressão arterial sobe. Assim, depois do desenvolvimento de hipertensão, pode não existir qualquer outro sinal óbvio de comprometimento da excreção de sódio e água,
além da hipertensão. Como explicado no Capítulo 19, a excreção normal de sódio e de água, em presença de pressão arterial elevada, significa que a natriurese de
pressão e a di urese de pressão foram restauradas com pressão arterial mais elevada.
Hipertensão Causada por Dano Renal Focal e Maior Secreção Renal de
Renina. Se parte do rim estiver isquêmica e a restante não isquêmica, como acontece quando uma artéria renal está acentuadamente constrita, o tecido renal
isquêmico secretará grandes quantidades de renina. Essa secreção leva à maior
formação de angiotensina II, que pode causar hipertensão. A sequência mais
provável de evento que causa essa hipertensão, como discutido no Capítulo 19, é
(1) o próprio tecido isquêmico do rim excreta menor quantidade que a normal de
água e sal; (2) a renina secretada pelo rim isquêmi co, assim como a subsequente formação maior de angiotensina II, afeta o tecido renal não isquêmico, fazendo-o reter também sal e água; e (3) o excesso de sal e água causa hipertensão do modo usual.
Tipo semelhante de hipertensão pode resultar quando áreas focais de um ou de
ambos os rins ficam isquêmicas, em decorrência de arteriosclerose ou de lesão vascular em porções específicas dos rins. Quando isso ocorre, os néfrons
isquêmicos excretam menos sal e água, mas secretam maior quantidade de renina, o que causa maior formação de angiotensina II. Os níveis elevados de angiotensina II comprometem, então, a capacidade dos néfrons adjacentes, de
outra forma normais, de excretar sódio e água. Consequentemente, o paciente
desenvolve hipertensão, que restaura a excreção total de sódio e água pelo rim,
de modo a manter o equilíbrio entre a ingestão e o débito de sal e água, mas à
custa de pressão sanguínea elevada.
Doenças Renais que Provocam Perda de Néfrons Completos Levam à
Doença Renal Crônica Mas Podem Não Causar Hipertensão
A perda de grande número de néfrons inteiros, como ocorre na perda de um rim
e parte do outro rim, quase sempre leva à doença renal crônica se a quantidade
de tecido perdida for suficientemente grande. Se os néfrons restantes estiverem
normais e a ingestão de sal não for excessiva, essa condição poderá não causar
hipertensão clinicamente significativa, porque mesmo o ligeiro aumento da
pressão sanguínea aumentará a FG e diminuirá a reabsorção de sódio nos
néfrons sobreviventes o bastante para promover excreção suficiente de água e sal
na urina, mesmo com os poucos néfrons que permanecem intactos. Entretanto,
um paciente com esse tipo de anormalidade pode ficar seriamente hipertenso se
estresses adicionais forem impostos, como a ingestão de grande quantidade de
sal. Nesse caso, os rins simplesmente não conseguem eliminar quantidades
adequadas de sal para pressão arterial normal com o pequeno número de néfrons
funcionais restantes. A pressão sanguínea aumentada restaura a excreção de sal
e água para corresponder a ingestão de sal e água sob condições estáveis.
O tratamento eficaz da hipertensão exige que a capacidade renal de excretar sal
e água seja aumentada, tanto pela elevação da FG quanto pela diminuição da
reabsorção tubular, de modo que o equilíbrio entre a ingestão e excreção de sal e
de água possa ser mantido com pressões arteriais baixas. Esse efeito pode ser
realizado por fármacos que bloqueiam o efeito de sinais hormonais e nervosos
que levam o rim a reter sal e água (p. ex., com bloqueadores b-adrenérgicos,
antagonistas dos receptores de angiotensina ou inibidores da enzima conversora
de angiotensina), com fármacos que vasodilatam os rins e aumentam o FG (p. ex.,
bloqueadores dos canais de cálcio) ou por fármacos diuréticos que inibem
diretamente a reabsorção tubular de sal e água.
Distúrbios Tubulares Específicos
No Capítulo 28 apontou-se que diversos mecanismos são responsáveis por
transportar diferentes substâncias individuais pelas membranas do epitélio tubular.
No Capítulo 3 apontou-se também que cada enzima celular e cada proteína
transportadora são formadas em resposta ao gene respectivo no núcleo. Se algum
gene necessário estiver ausente ou anormal, os túbulos podem ser deficientes em
uma das proteínas transportadoras ou uma das enzimas necessárias para o
transporte de soluto pelas células do epitélio tubular renal. Em outros casos,
quantidade muito grande da enzima ou da proteína transportadora é produzida.
Assim, muitos distúrbios tubulares hereditários ocorrem por causa do transporte anormal de substâncias individuais ou grupos de substâncias através da
membrana tubular. Além disso, o dano à membrana do epitélio tubular, por toxinas ou por isquemia, pode causar importantes distúrbios tubulares renais.
Glicosúria Renal — Os Rins não Reabsorvem a Glicose. Na glicosúria renal,
a concentração sanguínea de glicose pode ser normal, mas o mecanismo de transporte para a reabsorção tubular de glicose se apresenta bastante limitado ou
ausente. Consequentemente, a despeito do nível normal de glicose no sangue,
grandes quantidades de glicose passam para a urina todos os dias. Na medida em que o diabetes melito também está associado à presença de glicose na urina,
deve-se descartar glicosúria renal, condição relativamente benigna, antes do
diagnóstico de diabetes melito.
Aminoacidúria — Os Rins não Reabsorvem Aminoácidos. Alguns
aminoácidos compartilham de sistemas mútuos de transporte para sua
reabsorção, enquanto outros aminoácidos têm seus próprios sistemas distintos de transporte. Em casos raros, uma condição denominada aminoacidúria
generalizada resulta da reabsorção deficiente de todos os aminoácidos; com mais frequência, as deficiências de sistemas de transporte específicos podem resultar
em (1) cistinúria essencial, na qual grandes quantidades de cistina deixam de ser reabsorvidas e geralmente cristalizam na urina, formando cálculos renais; (2) glicinúria simples, na qual a glicina não é reabsorvida; ou (3) beta-
aminoisobutiricoacidúria, condição presente em cerca de 5% de todas as pessoas,
mas aparentemente sem significância clínica maior.
Hipofosfatemia Renal — Os Rins não Reabsorvem Fosfato. Na
hipofosfatemia renal, os túbulos renais não reabsorvem grandes quantidades de íons fosfato quando a concentração de fosfato dos líquidos corporais está muito
diminuída. Essa condição geralmente não causa anormalidades imediatas sérias,
porque a concentração de fosfato no líquido extracelular pode variar bastante sem causar disfunção celular importante. Durante período prolongado, o nível baixo de fosfato causa menor calcificação dos ossos e a pessoa desenvolve raquitismo.
Esse tipo de raquitismo é refratário à terapia com vitamina D, em contraste com a
rápida resposta do tipo usual de raquitismo, como discutido no Capítulo 80.
Acidose Tubular Renal — Os Túbulos não Secretam Íons Hidrogênio. Na
acidose tubular renal, os túbulos renais são incapazes de secretar quantidades adequadas de íons hi drogê nio. Consequentemente, grandes quantidades de bicarbonato de sódio são continuamente perdidas na urina, causando estado
contínuo de acidose metabólica, como discutido no Capítulo 31. Esse tipo de
anormalidade renal pode ser ocasionado por distúrbios hereditários ou pode
decorrer de lesão difusa dos túbulos renais.
Diabetes Insípido Nefrogênico — Os Rins não Respondem ao Hormônio
Antidiurético. Às vezes, os túbulos renais não respondem ao hormônio
antidiurético, fazendo com que grande quantidade de urina diluída seja excretada.
Desde que a pessoa tenha bom aporte de água, essa condição raramente causa
dificuldades graves. Entretanto, quando quantidade adequada de água não está
disponível, a pessoa fica rapidamente desidratada.
Síndrome de Fanconi — Defeito Reabsortivo Generalizado dos Túbulos
Renais. A síndrome de Fanconi, em geral, está associada ao aumento da
excreção urinária de praticamente todos os aminoácidos, da glicose e dos
fosfatos. Em casos graves, outras manifestações também são observadas, como
(1) falta da reabsorção de bicarbonato de sódio, resultando em acidose
metabólica; (2) maior excreção de potássio e, às vezes, de cálcio; e (3) diabetes
insípido nefrogênico.
Existem múltiplas causas da síndrome de Fanconi, que resulta da incapacidade
generalizada das células tubulares renais de transportar diversas substâncias.
Algumas dessas causas incluem (1) defeitos hereditários nos mecanismos de
transporte celular; (2) toxinas ou fármacos que lesam as células do epitélio tubular
renal; e (3) lesão das células tubulares renais em decorrência de isquemia. As
células tubulares proximais são especialmente afetadas na síndrome de Fanconi
causada por lesão tubular, já que elas reabsorvem e secretam muitos dos
fármacos e das toxinas que podem provocar danos.
Síndrome de Bartter — Diminuição de Sódio, Cloreto, Potássio e
Reabsorção nas Alças de Henle. A síndrome de Bartter é um raro distúrbio
autossômico recessivo causado pelo comprometimento da função do
cotransportador de 1-sódio, 2-cloreto, 1-potássio, ou por defeito nos canais de
potássio na membrana luminal, ou nos canais de cloreto na membrana basolateral
da parte espessa da alça de Henle. Esses distúrbios resultam no aumento da
excreção de água, sódio, cloreto, potássio e cálcio pelos rins. A perda de sal e de
água leva à leve depleção do volume, resultando na ativação do sistema renina-
angiotensina-aldosterona. A aldosterona aumen tada e o alto fluxo tubular distal,
devido ao comprometimento da reabsorção da alça de Henle, estimulam a
secreção de potássio e de hidrogênio pelos túbulos coletores, levando à‐
hipocalemia e à alcalose metabólica.
Síndrome de Gitelman — Diminuição da Reabsorção de Cloreto de Sódio
pelos Túbulos Distais. A síndrome de Gitelman é um distúrbio autossômico
recessivo do cotransportador de sódio-cloreto sensível à tiazida nos túbulos
renais. Pacientes com síndrome de Gitelman apresentam algumas das mesmas características dos pacientes com síndrome de Bartter — discreta perda de água e
sal, leve depleção no volume de água, e ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona — apesar de essas anormalidades serem geralmente menos graves em pessoas com síndrome de Gitelman.
Como os defeitos tubulares na síndrome de Bartter ou de Gitelman não podem
ser corrigidos, o tratamento costuma estar focado na reposição das perdas de
cloreto de sódio e potássio. Alguns estudos sugerem que o bloqueio da síntese de
prostaglandinas, com medicamentos anti-inflamatórios não esteroides e administração de antagonistas da aldosterona, como a espironolactona, pode ser
útil na correção da hipocalemia.
Síndrome de Liddle — Aumento da Reabsorção de Sódio. A síndrome de
Liddle é um distúrbio autossômico dominante raro, resultantes de várias mutações
nos canais de sódio epitelial sensíveis à amilorida (CENa) nos túbulos distais e
coletores. Essas mutações causam atividade excessiva dos CENa, resultando no aumento da reabsorção de sódio e de água, hipertensão, e alcalose metabólica
similar às mudanças que ocorrem com excesso de secreção de aldosterona (aldosteronismo primário).
No entanto, pacientes com síndrome de Liddle têm os níveis de aldosterona
elevados devido à retenção de sódio e diminuição compensatória nos níveis da secreção de renina e angiotensina II, que, por sua vez, diminuem a secreção adrenal de aldosterona. Felizmente, a síndrome de Liddle pode ser tratada com o
diurético amilorida, que bloqueia a excessiva atividade da CENa.
Tratamento da Insuficiência Renal por Transplante ou Diálise com Rim
Artificial
A perda grave da função renal, tanto aguda quanto cronicamente, é ameaça à
vida e requer remoção de resíduos tóxicos e restauração do volume e da composição dos líquidos corporais ao normal. Isso pode ser conseguido pelo
transplante de rim ou por diálise com rim artificial. Nos Estados Unidos 600 mil
pacientes estão recebendo atualmente alguma forma de terapia para DRT).
O transplante bem-sucedido de doador único de rim para paciente com DRT
pode restaurar a função renal em um nível que é suficiente para manter,
essencialmente, a homeostasia normal dos líquidos e eletrólitos corporais. Cerca de 18.000 transplantes de rim são realizados anualmente nos Estados Unidos.
Pacientes que receberam transplante de rim, em geral, vivem mais e têm menos
problemas de saúde do que os que são mantidos em diálise. A manutenção da terapia imunossupressora é necessária a quase todos os pacientes para ajudar a
prevenir a rejeição aguda e perda do rim transplantado. Os efeitos adversos dos
fármacos que suprimem o sistema imune incluem aumento do risco de infecções e
de alguns tipos de câncer, embora a quantidade de terapia imunossupressora
possa muitas vezes ser reduzida ao longo do tempo, para reduzir significati‐
vamente estes riscos.
Nos Estados Unidos, 400 mil pessoas com insuficiência renal irreversível ou
remoção total do rim estão sendo mantidas cronicamente por diálise por rins
artificiais. A diálise também é utilizada em determinados tipos de injúria renal
aguda, pode-se usar rim artificial para estabilizar o paciente até que seus rins
reassumam suas funções normais. Se a perda da função renal for irreversível,
será preciso fazer diálise cronicamente para manter a vida. Como a diálise não
consegue manter a composição inteiramente normal do líquido corporal e não
pode substituir todas as múltiplas funções realizadas pelos rins, a saúde dos
pacientes mantidos com o uso de rins artificiais, na maior parte das vezes,
permanece comprometida de modo significativo.
Princípios Básicos da Diálise
O princípio básico do rim artificial é o de passar o sangue por diminutos canais
sanguíneos limitados por delgada membrana. No outro lado da membrana passa o
líquido dialisador, para o qual as substâncias indesejáveis no sangue passam por
difusão.
A Figura 32-8 mostra os componentes de tipo de rim artificial, no qual o sangue
flui continuamente entre duas membranas finas de celofane; por fora da
membrana fica o líquido dialisador. O celofane é suficientemente poroso para
permitir que os constituintes do plasma, exceto as proteínas plasmáticas, se
difundam em ambas as direções — do plasma para o líquido dialisador ou do
líquido dialisador de volta ao plasma. Se a concentração da substância for maior
no plasma do que no líquido dialisador, ocorrerá transferência efetiva da
substância do plasma para o líquido dialisador.
A intensidade da movimentação do soluto pela membrana dialisadora depende
(1) do gradiente de concentração do soluto entre as duas soluções; (2) da
permeabilidade da membrana ao soluto; (3) da área de superfície da membrana; e
(4) do período de tempo em que sangue e líquido permanecem em contato com a
membrana.
Assim, a intensidade máxima da transferência de soluto ocorre, inicialmente,
quando o gradiente de concentração é maior (quando começa a diálise) e diminui
à medida que o gradiente de concentração se dissipa. Em sistema de fluxo, como
é o caso da “hemodiálise”, no qual o sangue e o líquido dialisador fluem pelo rim
artificial, a dissipação do gradiente de concentração pode ser reduzida, e a difusão do soluto que atravessa a membrana pode ser otimizada aumentando-se a vazão
do sangue, do líquido dialisador ou de ambos.
Na operação normal do rim artificial, o sangue flui contínua ou intermitentemente
e volta à veia. A quantidade total de sangue no rim artificial, a qualquer momento, é em geral inferior a 500 mililitros, a intensidade do fluxo pode ser de várias centenas de mililitros por minuto, e a área total da superfície de difusão fica entre
0,6 e 2,5 metros quadrados. Para evitar a coagulação do sangue no rim artificial,
injeta-se pequena quantidade de heparina no sangue, na sua entrada no rim artificial. Além da difusão dos solutos, pode ser produzida a transferência da
massa de solutos e de água pela aplicação de pressão hidrostática para forçar o
líquido e os solutos através das membranas do dialisador; essa filtração é denominada fluxo de massa ou hemo filtração.
Figura 32-8. Princípios da diálise com rim artificial.
Líquido Dialisador
A Tabela 32-7 compara os constituintes do líquido dialisador típico com os do
plasma normal e do plasma urêmico. Note que as concentrações de íons e de
outras substâncias no líquido dialisador não são iguais às concentrações no plasma normal ou no plasma urêmico. Em vez disso, são ajustadas aos níveis
necessários para causar o movimento apropriado de água e solutos através da membrana durante a diálise.
Note também que não existe fosfato, ureia, urato, sulfato ou creatinina no líquido
dialisador; entretanto, essas substâncias estão presentes em concentrações elevadas no sangue urêmico. Assim, quando o paciente urêmico é dialisado,
essas substâncias são perdidas em grande quantidade para o líquido dialisador.
A eficácia do rim artificial pode ser expressa em termos da quantidade de
plasma que é depurada de diferentes substâncias a cada minuto, o que, como
discutido no Capítulo 28, é o meio primário de expressar a eficácia funcional dos próprios rins de livrar o corpo de substâncias indesejáveis. A maioria dos rins artificiais consegue eliminar ureia do plasma na intensidade de 100 a 225 mL/min,
o que mostra que, pelo menos em termos de excreção de ureia, o rim artificial
pode funcionar tão rapidamente quanto dois rins normais juntos, cuja depuração de ureia é de apenas 70 mL/min. Contudo, o rim artificial é usado por apenas 4 a 6
horas por dia, três vezes por semana. Portanto, a depuração total do plasma é ainda, consideravelmente, limitada, quando o rim artificial substitui os rins normais.
Além disso, é importante ter em mente que o rim artificial não pode substituir algumas das outras funções dos rins, como a secreção de eritropoetina, necessária para a produção de hemácias.
Tabela 32-7 Comparação do Líquido Dialisador ao Plasma Normal e Urêmico
Constituinte Plasma Normal Líquido Dialisador Plasma Urêmico
Eletrólitos (mEq/L)
Na+ 142 133 142
K+ 5 1,0 7
Ca++ 3 3,0 2
Mg++ 1,5 1,5 1,5
Cl− 107 105 107
HCO − 24 35,7 14 3
Lactato− 1,2 1,2 1,2
HPO = 3 0 9 4
Urato− 0,3 0 2
Sulfato= 0,5 0 3
Não eletrólitos
Glicose 100 125 100
Ureia 26 0 200
Creatinina 1 0 6
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UNIDADE VI
Células Sanguíneas, Imunidade e
Coagulação Sanguínea
RESUMO DA UNIDADE
CAPÍTULO 33 - Hemácias, Anemia e Policitemia
Hemácias (Eritrócitos)
Anemias
Policitemia
CAPÍTULO 34 - Resistência do Corpo à Infecção: I.
Leucócitos, Granulócitos, Sistema
Monócito‐Macrófago e Inflamação
Leucócitos (Glóbulos Brancos)
Neutrófilos e Macrófagos Defendem Contra as Infecções
O Sistema Celular Monócito‐Macrófago (Sistema
Reticuloendotelial)
Inflamação: o Papel dos Neutrófilos e Macrófagos
Eosinófilos
Basófilos
Leucopenia
Leucemia
CAPÍTULO 35 - Resistência do Corpo à Infecção: II.
Imunidade e Alergia
Imunidade Adquirida (Adaptativa)
Alergia e Hipersensibilidade
CAPÍTULO 36 - Tipos Sanguíneos; Transfusão;
Transplante de Tecidos e de Órgãos
A Antigenicidade Causa Reações Imunes do Sangue
Tipos Sanguíneos ABO
Tipos Sanguíneos Rh
Transplante de Tecidos e Órgãos
CAPÍTULO 37 - Hemostasia e Coagulação Sanguínea
Eventos na Hemostasia
Mecanismo da Coagulação Sanguínea
Condições Que Causam Sangramento Excessivo em Seres
Humanos
Condições Tromboembólicas
Anticoagulantes para Uso Clínico
Testes de Coagulação Sanguínea
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