Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 291 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Movimentos do Cólon

Controle por Feedback do Esfíncter Ileocecal. O grau de contração

do esfíncter ileocecal e a intensidade do peristaltismo no íleo terminal são

controlados, significa tivamente, por reflexos originados no ceco. Quando o

ceco se distende, a contração do esfíncter ileocecal se intensifica e o

peristaltismo ileal é inibido, fatos que retardam bastante o esvaziamento de

mais quimo do íleo para o ceco. Além disso, qualquer irritação no ceco

retarda o esvaziamento. Por exemplo, quando a pessoa está com o apêndice

inflamado, a irritação desse remanescente vestigial do ceco pode causar

espasmo intenso do esfíncter ileocecal e paralisia parcial do íleo, de tal

forma que esses efeitos em conjunto bloqueiam o esvaziamento do íleo no

ceco. Os reflexos do ceco para o esfíncter ileocecal e o íleo são mediados

pelo plexo mioentérico na parede do trato intestinal, pelos nervos

autônomos extrínsecos, especialmente, por meio dos gânglios simpáticos

pré- vertebrais.

 

MOVIMENTOS DO CÓLON

 

As principais funções do cólon são (1) absorção de água e de eletrólitos do

quimo para formar fezes sólidas; e (2) armazenamento de material fecal, até

que possa ser expelido. A metade proximal do cólon, mostrada na Figura

64-5, está envolvida principalmente na absorção, e a metade distal, no

armazenamento. Já que movimentos intensos da parede do cólon não são

necessários para essas funções, os movimentos do cólon são normalmente

muito lentos. Embora lentos, os movimentos ainda têm características

semelhantes às do intestino delgado e podem ser divididos, mais uma vez,

em movimentos de mistura e movimentos propulsivos.

Figura 64-5. Funções absortivas e de armazenamento do intestino grosso.

 

Movimentos de Mistura — “Haustrações”. Da mesma maneira que

os movimentos de segmentação ocorrem no intestino delgado, grandes

constrições circulares ocorrem no intestino grosso. A cada uma dessas

constrições, extensão de cerca de 2,5 centímetros de músculo circular se

contrai, às vezes constringindo o lúmen do cólon até quase oclusão. Ao

mesmo tempo, o músculo longitudinal do cólon, que se reúne em três faixas

longitudinais, denominadas tênias cólicas, se contrai. Essas contrações

combinadas de faixas circulares e longitudinais de músculos fazem com que

a porção não estimulada do intestino grosso se infle em sacos denominados

haustrações.

Cada haustração normalmente atinge a intensidade máxima em cerca de

30 segundos e desaparece nos próximos 60 segundos. Às vezes, elas ainda

se movem lentamente na direção do ânus, durante a contração, em especial no ceco e no cólon ascendente e, assim, contribuem com alguma propulsão

do conteúdo colônico para adiante. Após poucos minutos, novas contrações

haustrais ocorrem em áreas próximas. Assim, o material fecal no intestino

grosso é lentamente revolvido, de forma que todo o material fecal é

gradualmente exposto à superfície mucosa do intestino grosso, para que os

líquidos e as substâncias dissolvidas sejam de maneira progressiva

absorvidos. Apenas 80 a 200 mililitros de fezes são expelidos a cada dia.

 

Movimentos Propulsivos — “Movimentos de Massa”. Grande

parte da propulsão no ceco e no cólon ascendente resulta de contrações

haustrais lentas, mas persistentes; o quimo leva de 8 a 15 horas para se

mover da válvula ileocecal pelo cólon, passando a ser fecal em qualidade ao

se transformar de material semilíquido em material semissólido.

Do ceco ao sigmoide, movimentos de massa podem, por vários minutos a

cada surto, assumir o papel propulsivo. Esses movimentos normalmente

ocorrem apenas uma a três vezes por dia, e em muitas pessoas

particularmente por cerca de 15 minutos, durante a primeira hora seguinte

ao desjejum.

O movimento de massa é tipo modificado de peristaltismo caracterizado

pela seguinte sequência de eventos: primeiro, um anel constritivo ocorre em

resposta à distensão ou irritação em um ponto no cólon, o que costuma ser

no cólon transverso. Então, rapidamente nos 20 centímetros ou mais do

cólon distal ao anel constritivo, as haustrações desaparecem e o segmento

passa a se contrair como unidade, impulsionando o material fecal em massa

para regiões mais adiante no cólon. A contração se desenvolve

progressivamente por volta de 30 segundos, e o relaxamento ocorre nos

próximos 2 a 3 minutos. Em seguida, ocorrem outros movimentos de

massa, algumas vezes mais adiante no cólon.

A série de movimentos de massa normalmente se mantém por 10 a 30

minutos. Cessam para retornar mais ou menos meio dia depois. Quando tiverem forçado a massa de fezes para o reto, surge a vontade de defecar.

 

Iniciação de Movimentos de Massa por Reflexos Gastrocólicos

e Duodenocólicos. O aparecimento dos movimentos de massa depois

das refeições é facilitado por reflexos gastrocólicos e duodenocólicos. Esses

reflexos resultam da distensão do estômago e do duodeno. Podem não

ocorrer ou só ocorrer raramente, quando os nervos autônomos extrínsecos

ao cólon tiverem sido removidos; portanto, os reflexos quase certamente

são transmitidos por meio do sistema nervoso autônomo.

A irritação do cólon também pode iniciar intensos movimentos de massa.

Por exemplo, a pessoa acometida por condição ulcerativa da mucosa do

cólon (colite ulcerativa), com frequência, tem movimentos de massa que

persistem quase todo o tempo.

 

DEFECAÇÃO

A maior parte do tempo, o reto fica vazio, sem fezes, o que resulta, em

parte, do fato de existir fraco esfíncter funcional a aproximadamente 20

centímetros do ânus, na junção entre o cólon sigmoide e o reto. Ocorre

também angulação aguda nesse local que contribui com resistência

adicional ao enchimento do reto.

Quando o movimento de massa força as fezes para o reto, imediatamente

surge a vontade de defecar, com a contração reflexa do reto e o relaxamento

dos esfíncteres anais.

A passagem de material fecal pelo ânus é evitada pela constrição tônica

dos (1) esfíncter anal interno, que é um espesso músculo liso com vários

centímetros de comprimento na região do ânus; e (2) esfíncter anal externo,

composto por músculo estriado voluntário que circunda o esfíncter interno e

estende-se distalmente a ele. O esfíncter externo é controlado por fibras

nervosas do nervo pudendo, que faz parte do sistema nervoso somático e, assim, está sob controle voluntário, consciente ou pelo menos

subconsciente; por subsequência, o esfíncter externo é mantido contraído, a

menos que sinais conscientes inibam a constrição.

 

Reflexos da Defecação. De ordinário, a defecação é iniciada por

reflexos de defecação. Um desses reflexos é o reflexo intrínseco, mediado

pelo sistema nervoso entérico local na parede do reto. Quando as fezes

entram no reto, a distensão da parede retal desencadeia sinais aferentes que

se propagam pelo plexo mioentérico para dar início a ondas peristálticas no

cólon descendente, sigmoide e no reto, empurrando as fezes na direção do

reto. À medida que a onda peristáltica se aproxima do ânus, o esfíncter anal

interno se relaxa, por sinais inibidores do plexo mioentérico; se o esfíncter

anal externo estiver relaxado consciente e voluntariamente, ocorre a

defecação.

Normalmente, quando o reflexo intrínseco mioentérico de defecação

funciona, por si só, é relativamente fraco. Para que ele seja efetivo em

provocar a defecação, em geral é necessário o concurso de outro reflexo,

chamado reflexo de defecação parassimpático, que envolve os segmentos

sacros da medula espinal, como mostrado na Figura 64-6. Quando as

terminações nervosas no reto são estimuladas, os sinais são transmitidos

para a medula espinal e de volta ao cólon descendente, sigmoide, reto e

ânus, por fibras nervosas parassimpáticas nos nervos pélvicos. Esses sinais

parassimpáticos intensificam bastante as ondas peristálticas e relaxam o

esfíncter anal interno, convertendo, assim, o reflexo de defecação

mioentérico intrínseco de efeito fraco a processo intenso de defecação que,

por vezes, é efetivo para o esvaziamento do intestino grosso compreendido

entre a curvatura esplênica do cólon até o ânus.

Sinais de defecação que entram na medula espinal iniciam outros efeitos,

tais como inspiração profunda, fechar a glote e contrair os músculos da

parede abdominal, forçando os conteúdos fecais do cólon para baixo e, ao mesmo tempo, fazendo com que o assoalho pélvico se relaxe e, ao fazê-lo,

se projete para baixo, empurrando o anel anal para baixo para eliminar as

fezes.

Quando é oportuno para a pessoa defecar, os reflexos de defecação podem

ser propositadamente ativados por respiração profunda, movimento do

diafragma para baixo e contração dos músculos abdominais para aumentar a

pressão abdominal, forçando assim o conteúdo fecal para o reto e causando

novos reflexos. Os reflexos iniciados dessa maneira, quase nunca são tão

eficazes como os que surgem naturalmente, razão pela qual as pessoas que

inibem com muita frequência seus reflexos naturais tendam mais a ter

constipação grave.

Nos recém-nascidos e em algumas pessoas com transecção da medula

espinal, os reflexos da defecação causam o esvaziamento automático do

intestino, em momentos inconvenientes, devido à ausência do controle

consciente exercido pela contração e pelo relaxamento voluntários do

esfíncter anal externo.