Tratado de Fisiologia Médica
Movimentos do Cólon
Controle por Feedback do Esfíncter Ileocecal. O grau de contração
do esfíncter ileocecal e a intensidade do peristaltismo no íleo terminal são
controlados, significa tivamente, por reflexos originados no ceco. Quando o
ceco se distende, a contração do esfíncter ileocecal se intensifica e o
peristaltismo ileal é inibido, fatos que retardam bastante o esvaziamento de
mais quimo do íleo para o ceco. Além disso, qualquer irritação no ceco
retarda o esvaziamento. Por exemplo, quando a pessoa está com o apêndice
inflamado, a irritação desse remanescente vestigial do ceco pode causar
espasmo intenso do esfíncter ileocecal e paralisia parcial do íleo, de tal
forma que esses efeitos em conjunto bloqueiam o esvaziamento do íleo no
ceco. Os reflexos do ceco para o esfíncter ileocecal e o íleo são mediados
pelo plexo mioentérico na parede do trato intestinal, pelos nervos
autônomos extrínsecos, especialmente, por meio dos gânglios simpáticos
pré- vertebrais.
MOVIMENTOS DO CÓLON
As principais funções do cólon são (1) absorção de água e de eletrólitos do
quimo para formar fezes sólidas; e (2) armazenamento de material fecal, até
que possa ser expelido. A metade proximal do cólon, mostrada na Figura
64-5, está envolvida principalmente na absorção, e a metade distal, no
armazenamento. Já que movimentos intensos da parede do cólon não são
necessários para essas funções, os movimentos do cólon são normalmente
muito lentos. Embora lentos, os movimentos ainda têm características
semelhantes às do intestino delgado e podem ser divididos, mais uma vez,
em movimentos de mistura e movimentos propulsivos.
Figura 64-5. Funções absortivas e de armazenamento do intestino grosso.
Movimentos de Mistura — “Haustrações”. Da mesma maneira que
os movimentos de segmentação ocorrem no intestino delgado, grandes
constrições circulares ocorrem no intestino grosso. A cada uma dessas
constrições, extensão de cerca de 2,5 centímetros de músculo circular se
contrai, às vezes constringindo o lúmen do cólon até quase oclusão. Ao
mesmo tempo, o músculo longitudinal do cólon, que se reúne em três faixas
longitudinais, denominadas tênias cólicas, se contrai. Essas contrações
combinadas de faixas circulares e longitudinais de músculos fazem com que
a porção não estimulada do intestino grosso se infle em sacos denominados
haustrações.
Cada haustração normalmente atinge a intensidade máxima em cerca de
30 segundos e desaparece nos próximos 60 segundos. Às vezes, elas ainda
se movem lentamente na direção do ânus, durante a contração, em especial no ceco e no cólon ascendente e, assim, contribuem com alguma propulsão
do conteúdo colônico para adiante. Após poucos minutos, novas contrações
haustrais ocorrem em áreas próximas. Assim, o material fecal no intestino
grosso é lentamente revolvido, de forma que todo o material fecal é
gradualmente exposto à superfície mucosa do intestino grosso, para que os
líquidos e as substâncias dissolvidas sejam de maneira progressiva
absorvidos. Apenas 80 a 200 mililitros de fezes são expelidos a cada dia.
Movimentos Propulsivos — “Movimentos de Massa”. Grande
parte da propulsão no ceco e no cólon ascendente resulta de contrações
haustrais lentas, mas persistentes; o quimo leva de 8 a 15 horas para se
mover da válvula ileocecal pelo cólon, passando a ser fecal em qualidade ao
se transformar de material semilíquido em material semissólido.
Do ceco ao sigmoide, movimentos de massa podem, por vários minutos a
cada surto, assumir o papel propulsivo. Esses movimentos normalmente
ocorrem apenas uma a três vezes por dia, e em muitas pessoas
particularmente por cerca de 15 minutos, durante a primeira hora seguinte
ao desjejum.
O movimento de massa é tipo modificado de peristaltismo caracterizado
pela seguinte sequência de eventos: primeiro, um anel constritivo ocorre em
resposta à distensão ou irritação em um ponto no cólon, o que costuma ser
no cólon transverso. Então, rapidamente nos 20 centímetros ou mais do
cólon distal ao anel constritivo, as haustrações desaparecem e o segmento
passa a se contrair como unidade, impulsionando o material fecal em massa
para regiões mais adiante no cólon. A contração se desenvolve
progressivamente por volta de 30 segundos, e o relaxamento ocorre nos
próximos 2 a 3 minutos. Em seguida, ocorrem outros movimentos de
massa, algumas vezes mais adiante no cólon.
A série de movimentos de massa normalmente se mantém por 10 a 30
minutos. Cessam para retornar mais ou menos meio dia depois. Quando tiverem forçado a massa de fezes para o reto, surge a vontade de defecar.
Iniciação de Movimentos de Massa por Reflexos Gastrocólicos
e Duodenocólicos. O aparecimento dos movimentos de massa depois
das refeições é facilitado por reflexos gastrocólicos e duodenocólicos. Esses
reflexos resultam da distensão do estômago e do duodeno. Podem não
ocorrer ou só ocorrer raramente, quando os nervos autônomos extrínsecos
ao cólon tiverem sido removidos; portanto, os reflexos quase certamente
são transmitidos por meio do sistema nervoso autônomo.
A irritação do cólon também pode iniciar intensos movimentos de massa.
Por exemplo, a pessoa acometida por condição ulcerativa da mucosa do
cólon (colite ulcerativa), com frequência, tem movimentos de massa que
persistem quase todo o tempo.
DEFECAÇÃO
A maior parte do tempo, o reto fica vazio, sem fezes, o que resulta, em
parte, do fato de existir fraco esfíncter funcional a aproximadamente 20
centímetros do ânus, na junção entre o cólon sigmoide e o reto. Ocorre
também angulação aguda nesse local que contribui com resistência
adicional ao enchimento do reto.
Quando o movimento de massa força as fezes para o reto, imediatamente
surge a vontade de defecar, com a contração reflexa do reto e o relaxamento
dos esfíncteres anais.
A passagem de material fecal pelo ânus é evitada pela constrição tônica
dos (1) esfíncter anal interno, que é um espesso músculo liso com vários
centímetros de comprimento na região do ânus; e (2) esfíncter anal externo,
composto por músculo estriado voluntário que circunda o esfíncter interno e
estende-se distalmente a ele. O esfíncter externo é controlado por fibras
nervosas do nervo pudendo, que faz parte do sistema nervoso somático e, assim, está sob controle voluntário, consciente ou pelo menos
subconsciente; por subsequência, o esfíncter externo é mantido contraído, a
menos que sinais conscientes inibam a constrição.
Reflexos da Defecação. De ordinário, a defecação é iniciada por
reflexos de defecação. Um desses reflexos é o reflexo intrínseco, mediado
pelo sistema nervoso entérico local na parede do reto. Quando as fezes
entram no reto, a distensão da parede retal desencadeia sinais aferentes que
se propagam pelo plexo mioentérico para dar início a ondas peristálticas no
cólon descendente, sigmoide e no reto, empurrando as fezes na direção do
reto. À medida que a onda peristáltica se aproxima do ânus, o esfíncter anal
interno se relaxa, por sinais inibidores do plexo mioentérico; se o esfíncter
anal externo estiver relaxado consciente e voluntariamente, ocorre a
defecação.
Normalmente, quando o reflexo intrínseco mioentérico de defecação
funciona, por si só, é relativamente fraco. Para que ele seja efetivo em
provocar a defecação, em geral é necessário o concurso de outro reflexo,
chamado reflexo de defecação parassimpático, que envolve os segmentos
sacros da medula espinal, como mostrado na Figura 64-6. Quando as
terminações nervosas no reto são estimuladas, os sinais são transmitidos
para a medula espinal e de volta ao cólon descendente, sigmoide, reto e
ânus, por fibras nervosas parassimpáticas nos nervos pélvicos. Esses sinais
parassimpáticos intensificam bastante as ondas peristálticas e relaxam o
esfíncter anal interno, convertendo, assim, o reflexo de defecação
mioentérico intrínseco de efeito fraco a processo intenso de defecação que,
por vezes, é efetivo para o esvaziamento do intestino grosso compreendido
entre a curvatura esplênica do cólon até o ânus.
Sinais de defecação que entram na medula espinal iniciam outros efeitos,
tais como inspiração profunda, fechar a glote e contrair os músculos da
parede abdominal, forçando os conteúdos fecais do cólon para baixo e, ao mesmo tempo, fazendo com que o assoalho pélvico se relaxe e, ao fazê-lo,
se projete para baixo, empurrando o anel anal para baixo para eliminar as
fezes.
Quando é oportuno para a pessoa defecar, os reflexos de defecação podem
ser propositadamente ativados por respiração profunda, movimento do
diafragma para baixo e contração dos músculos abdominais para aumentar a
pressão abdominal, forçando assim o conteúdo fecal para o reto e causando
novos reflexos. Os reflexos iniciados dessa maneira, quase nunca são tão
eficazes como os que surgem naturalmente, razão pela qual as pessoas que
inibem com muita frequência seus reflexos naturais tendam mais a ter
constipação grave.
Nos recém-nascidos e em algumas pessoas com transecção da medula
espinal, os reflexos da defecação causam o esvaziamento automático do
intestino, em momentos inconvenientes, devido à ausência do controle
consciente exercido pela contração e pelo relaxamento voluntários do
esfíncter anal externo.