Tratado de Fisiologia Médica
Controle Humoral da Circulação
O controle humoral da circulação é feito por substâncias secretadas ou
absorvidas pelos líquidos corporais — como hormônios e fatores
produzidos localmente. Algumas dessas substâncias são formadas por
glândulas especiais e transportadas pelo sangue por todo o corpo. Outras
são formadas em tecidos locais, só causando efeitos circulatórios locais.
Entre os fatores humorais mais importantes que afetam a função
circulatória, destacam-se os que se descrevem nas secções seguintes.
Agentes Vasoconstritores
Norepinefrina e Epinefrina. A norepinefrina é hormônio vasoconstritor
especialmente potente; a epinefrina é menos potente e, em alguns tecidos,
causa até mesmo vasodilatação leve. (Exemplo especial da vasodilatação
causada pela epinefrina é a que ocorre para dilatar as artérias coronárias
durante o aumento da atividade cardíaca.)
Quando o sistema nervoso simpático é estimulado em quase todas, ou em
todas as partes do corpo durante estresse ou exercício, as terminações
nervosas simpáticas nos tecidos individuais liberam norepinefrina, que
excita o coração e contrai as veias e arteríolas. Além disso, os nervos
simpáticos, que suprem as medulas adrenais, fazem com que essas
glândulas secretem tanto norepinefrina quanto epinefrina no sangue. Esses
hormônios então circulam por todas as áreas do corpo e provocam
praticamente os mesmos efeitos sobre a circulação que a estimulação
simpática direta, formando, assim, sistema duplo de controle: (1) estimulação nervosa direta; e (2) efeitos indiretos da norepinefrina e/ou
epinefrina pelo sangue circulante.
Angiotensina II. A angiotensina II é outra potente substância
vasoconstritora. Até mesmo um milionésimo de grama pode aumentar a
pressão arterial do ser humano por 50 mmHg ou mais.
O efeito da angiotensina II é o de contrair, de forma muito intensa, as
pequenas arteríolas. Se isso ocorrer em área tecidual isolada, o fluxo
sanguíneo para essa área poderá ser intensamente reduzido. Entretanto, a
verdadeira importância da angiotensina II reside no fato de que em
condições normais ela age ao mesmo tempo em muitas arteríolas do corpo,
aumentando a resistência periférica total e reduzindo a excreção de sódio e
água nos rins, o que eleva pressão arterial. Assim, esse hormônio tem papel
integral na regulação da pressão arterial, como discutido em detalhes
no Capítulo 19.
Vasopressina. A vasopressina, também chamada hormônio antidiurético,
tem efeito vasoconstritor ainda mais intenso que a angiotensina II, sendo
uma das substâncias constritoras vasculares mais potentes do organismo.
Ela é formada nas células nervosas do hipotálamo no cérebro
(Caps. 29 e 76), mas é, em seguida, transportada por axônios nervosos até a
hipófise posterior, de onde é, por fim, secretada no sangue.
É evidente que a vasopressina poderia exercer efeitos muito intensos sobre
a função circulatória. Entretanto, dado que na maioria das condições
fisiológicas apenas quantidades diminutas de vasopressina são secretadas, a
maioria dos fisiologistas chegou a acreditar que ela tivesse pequeno papel
no controle vascular. Contudo, experimentos demonstraram que a
concentração de vasopressina no sangue circulante após hemorragia grave
pode aumentar o suficiente para elevar a pressão arterial por até 60 mmHg. Em muitos casos, essa ação pode aumentar, por ação própria, a pressão
arterial quase de volta ao normal.
A vasopressina tem a função principal de elevar muito a reabsorção de
água pelos túbulos renais de volta para o sangue (discutido no Cap. 29) e
ajuda, assim, no controle do volume de líquido corporal. Esse é o motivo
pelo qual esse hormônio é também chamado hormônio antidiu rético.
Agentes Vasodilatadores
Bradicinina. Diversas substâncias chamadas cininas provocam intensa
vasodilatação, quando formadas no sangue e nos líquidos teciduais de
alguns órgãos.
As cininas são pequenos polipeptídeos clivados por enzimas proteolíticas
das alfa2-globulinas, no plasma ou nos líquidos teciduais. Enzima
proteolítica com importância especial para esse propósito é a calicreína,
presente no sangue e nos líquidos teciduais em forma inativa. Ela é ativada
pela maceração do sangue, por inflamação tecidual ou por outros efeitos
químicos ou físicos semelhantes no sangue ou nos tecidos. Ao ser ativada, a
calicreína age imediatamente sobre a alfa2-globulina, liberando a cinina
chamada calidina, que é, então, convertida por enzimas teciduais em
bradicinina. Uma vez formada, a bradicinina persiste por apenas alguns
minutos, pois ela é inativada pela enzima carboxipeptidase ou pela enzima
conversora, a mesma que desempenha papel essencial na ativação da
angiotensina, como discutido no Capítulo 19. A calicreína ativada é
destruída por um inibidor de calicreína, também presente nos líquidos
corporais.
A bradicinina provoca intensa dilatação arteriolar e aumento da
permeabilidade capilar. Por exemplo, a injeção de 1 micrograma de
bradicinina na artéria braquial da pessoa aumenta o fluxo sanguíneo do
braço por seis vezes, e mesmo quantidades menores quando injetadas localmente nos tecidos podem provocar edema acentuado, resultante do
aumento de tamanho dos poros capilares.
As cininas parecem desempenhar papéis especiais na regulação do fluxo
sanguíneo e no extravasamento capilar de líquidos nos tecidos inflamados.
Acredita-se também que a bradicinina tenha papel normal na regulação do
fluxo sanguíneo da pele e também nas glândulas salivares e
gastrointestinais.
Histamina. A histamina é liberada em praticamente todos os tecidos
corporais se o tecido for lesado, tornar-se inflamado, ou se passar por
reação alérgica. A maior parte da histamina deriva de mastócitos nos
tecidos lesados e de basófilos no sangue.
A histamina exerce potente efeito vasodilatador nas arteríolas e, como a
bradicinina, tem a capacidade de aumentar muito a porosidade capilar,
permitindo o extravasamento de líquido e de proteínas plasmáticas para os
tecidos. Em muitas condições patológicas, a intensa dilatação arteriolar e o
aumento da porosidade capilar produzidos pela histamina fazem com que
enorme quantidade de líquido extravase da circulação para os tecidos,
causando edema. Os efeitos vasodilatadores locais e produtores de edema
da histamina são especialmente proeminentes durante reações alérgicas,
como discutidos no Capítulo 35.
Controle Vascular por Íons e Outros Fatores Químicos
Muitos íons e outros fatores químicos diferentes podem dilatar ou contrair
os vasos sanguíneos locais. A seguinte lista detalha alguns dos seus efeitos
específicos:
1. Aumento da concentração de íons cálcio provoca vasoconstrição. Isso
resulta do efeito geral do cálcio de estimular a contração do músculo
liso, como discutido no Capítulo 8.
2. Aumento da concentração de íons potássio, dentro da variação
fisiológica, provoca vasodilatação. Esse efeito resulta da capacidade dos
íons potássio de inibir a contração do músculo liso.
3. Aumento da concentração de íons magnésio provoca intensa
vasodilatação, porque os íons magnésio inibem a contração do músculo
liso.
4. Aumento da concentração de íons hidrogênio (diminuição do pH)
provoca a dilatação das arteríolas. Ao contrário, a ligeira diminuição da
concentração de íons hidrogênio provoca constrição arteriolar.
5. Os ânions com efeitos significativos sobre os vasos sanguíneos são o
acetato e o citrato, e ambos acarretam graus leves de vasodilatação.
6. Aumento da concentração de dióxido de carbono provoca vasodilatação
moderada na maioria dos tecidos, mas vasodilatação acentuada no
cérebro. Além disso, o dióxido de carbono no sangue agindo sobre o
centro vasomotor do cérebro exerce intenso efeito indireto, transmitido
pelo sistema nervoso vasoconstritor simpático, causando vasoconstrição
generalizada em todo o corpo.
Grande Parte dos Vasodilatadores e Vasoconstritores Exerce
Pouco Efeito a Longo Prazo no Fluxo Sanguíneo, a Menos que
Alterem a Intensidade Metabólica dos Tecidos. Na maioria dos
casos, o fluxo sanguíneo tecidual e o débito cardíaco (a soma do fluxo em
todos os tecidos do corpo) não são substancialmente alterados, exceto por
um dia ou dois em estudos experimentais, quando há infusão crônica de
grandes quantidades de vasoconstritores potentes, tais quais angiotensina II
ou vasodilatadores, como a bradicinina. Por que o fluxo sanguíneo não é
alterado significativamente na maioria dos tecidos, mesmo na presença de
grandes quantidades dessas substâncias vasoativas?
Para responder essa questão, devemos retornar para um dos princípios
fundamentais da função circulatória que discutimos antes — a capacidade de cada tecido de autorregular seu próprio fluxo sanguíneo, de acordo
com suas necessidades metabólicas e outras funções teciduais. A
administração de vasoconstritores potentes, tais como angiotensina II, pode
causar diminuição transitória no fluxo sanguíneo e no débito cardíaco, mas
normalmente tem pouco efeito a longo prazo se não alterar a intensidade
metabólica dos tecidos. Da mesma forma, a maioria dos vasodilatadores
causa apenas mudanças de curta duração no fluxo sanguíneo tecidual e no
débito cardíaco se não alterar o metabolismo do tecido. Portanto, o fluxo
sanguíneo é geralmente regulado de acordo com as necessidades específicas
do tecido, desde que a pressão arterial seja adequada para perfusão desses
tecidos.
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