Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 78 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Controle Humoral da Circulação

 

O controle humoral da circulação é feito por substâncias secretadas ou

absorvidas pelos líquidos corporais — como hormônios e fatores

produzidos localmente. Algumas dessas substâncias são formadas por

glândulas especiais e transportadas pelo sangue por todo o corpo. Outras

são formadas em tecidos locais, só causando efeitos circulatórios locais.

Entre os fatores humorais mais importantes que afetam a função

circulatória, destacam-se os que se descrevem nas secções seguintes.

 

Agentes Vasoconstritores

 

Norepinefrina e Epinefrina. A norepinefrina é hormônio vasoconstritor

especialmente potente; a epinefrina é menos potente e, em alguns tecidos,

causa até mesmo vasodilatação leve. (Exemplo especial da vasodilatação

causada pela epinefrina é a que ocorre para dilatar as artérias coronárias

durante o aumento da atividade cardíaca.)

Quando o sistema nervoso simpático é estimulado em quase todas, ou em

todas as partes do corpo durante estresse ou exercício, as terminações

nervosas simpáticas nos tecidos individuais liberam norepinefrina, que

excita o coração e contrai as veias e arteríolas. Além disso, os nervos

simpáticos, que suprem as medulas adrenais, fazem com que essas

glândulas secretem tanto norepinefrina quanto epinefrina no sangue. Esses

hormônios então circulam por todas as áreas do corpo e provocam

praticamente os mesmos efeitos sobre a circulação que a estimulação

simpática direta, formando, assim, sistema duplo de controle: (1) estimulação nervosa direta; e (2) efeitos indiretos da norepinefrina e/ou

epinefrina pelo sangue circulante.

 

Angiotensina II. A angiotensina II é outra potente substância

vasoconstritora. Até mesmo um milionésimo de grama pode aumentar a

pressão arterial do ser humano por 50 mmHg ou mais.

O efeito da angiotensina II é o de contrair, de forma muito intensa, as

pequenas arteríolas. Se isso ocorrer em área tecidual isolada, o fluxo

sanguíneo para essa área poderá ser intensamente reduzido. Entretanto, a

verdadeira importância da angiotensina II reside no fato de que em

condições normais ela age ao mesmo tempo em muitas arteríolas do corpo,

aumentando a resistência periférica total e reduzindo a excreção de sódio e

água nos rins, o que eleva pressão arterial. Assim, esse hormônio tem papel

integral na regulação da pressão arterial, como discutido em detalhes

no Capítulo 19.

 

Vasopressina. A vasopressina, também chamada hormônio antidiurético,

tem efeito vasoconstritor ainda mais intenso que a angiotensina II, sendo

uma das substâncias constritoras vasculares mais potentes do organismo.

Ela é formada nas células nervosas do hipotálamo no cérebro

(Caps. 29 e 76), mas é, em seguida, transportada por axônios nervosos até a

hipófise posterior, de onde é, por fim, secretada no sangue.

É evidente que a vasopressina poderia exercer efeitos muito intensos sobre

a função circulatória. Entretanto, dado que na maioria das condições

fisiológicas apenas quantidades diminutas de vasopressina são secretadas, a

maioria dos fisiologistas chegou a acreditar que ela tivesse pequeno papel

no controle vascular. Contudo, experimentos demonstraram que a

concentração de vasopressina no sangue circulante após hemorragia grave

pode aumentar o suficiente para elevar a pressão arterial por até 60 mmHg. Em muitos casos, essa ação pode aumentar, por ação própria, a pressão

arterial quase de volta ao normal.

A vasopressina tem a função principal de elevar muito a reabsorção de

água pelos túbulos renais de volta para o sangue (discutido no Cap. 29) e

ajuda, assim, no controle do volume de líquido corporal. Esse é o motivo

pelo qual esse hormônio é também chamado hormônio antidiu rético.

 

Agentes Vasodilatadores

 

Bradicinina. Diversas substâncias chamadas cininas provocam intensa

vasodilatação, quando formadas no sangue e nos líquidos teciduais de

alguns órgãos.

As cininas são pequenos polipeptídeos clivados por enzimas proteolíticas

das alfa2-globulinas, no plasma ou nos líquidos teciduais. Enzima

proteolítica com importância especial para esse propósito é a calicreína,

presente no sangue e nos líquidos teciduais em forma inativa. Ela é ativada

pela maceração do sangue, por inflamação tecidual ou por outros efeitos

químicos ou físicos semelhantes no sangue ou nos tecidos. Ao ser ativada, a

calicreína age imediatamente sobre a alfa2-globulina, liberando a cinina

chamada calidina, que é, então, convertida por enzimas teciduais em

bradicinina. Uma vez formada, a bradicinina persiste por apenas alguns

minutos, pois ela é inativada pela enzima carboxipeptidase ou pela enzima

conversora, a mesma que desempenha papel essencial na ativação da

angiotensina, como discutido no Capítulo 19. A calicreína ativada é

destruída por um inibidor de calicreína, também presente nos líquidos

corporais.

A bradicinina provoca intensa dilatação arteriolar e aumento da

permeabilidade capilar. Por exemplo, a injeção de 1 micrograma de

bradicinina na artéria braquial da pessoa aumenta o fluxo sanguíneo do

braço por seis vezes, e mesmo quantidades menores quando injetadas localmente nos tecidos podem provocar edema acentuado, resultante do

aumento de tamanho dos poros capilares.

As cininas parecem desempenhar papéis especiais na regulação do fluxo

sanguíneo e no extravasamento capilar de líquidos nos tecidos inflamados.

Acredita-se também que a bradicinina tenha papel normal na regulação do

fluxo sanguíneo da pele e também nas glândulas salivares e

gastrointestinais.

 

Histamina. A histamina é liberada em praticamente todos os tecidos

corporais se o tecido for lesado, tornar-se inflamado, ou se passar por

reação alérgica. A maior parte da histamina deriva de mastócitos nos

tecidos lesados e de basófilos no sangue.

A histamina exerce potente efeito vasodilatador nas arteríolas e, como a

bradicinina, tem a capacidade de aumentar muito a porosidade capilar,

permitindo o extravasamento de líquido e de proteínas plasmáticas para os

tecidos. Em muitas condições patológicas, a intensa dilatação arteriolar e o

aumento da porosidade capilar produzidos pela histamina fazem com que

enorme quantidade de líquido extravase da circulação para os tecidos,

causando edema. Os efeitos vasodilatadores locais e produtores de edema

da histamina são especialmente proeminentes durante reações alérgicas,

como discutidos no Capítulo 35.

 

Controle Vascular por Íons e Outros Fatores Químicos

Muitos íons e outros fatores químicos diferentes podem dilatar ou contrair

os vasos sanguíneos locais. A seguinte lista detalha alguns dos seus efeitos

específicos:

1. Aumento da concentração de íons cálcio provoca vasoconstrição. Isso

resulta do efeito geral do cálcio de estimular a contração do músculo

liso, como discutido no Capítulo 8.

2. Aumento da concentração de íons potássio, dentro da variação

fisiológica, provoca vasodilatação. Esse efeito resulta da capacidade dos

íons potássio de inibir a contração do músculo liso.

3. Aumento da concentração de íons magnésio provoca intensa

vasodilatação, porque os íons magnésio inibem a contração do músculo

liso.

4. Aumento da concentração de íons hidrogênio (diminuição do pH)

provoca a dilatação das arteríolas. Ao contrário, a ligeira diminuição da

concentração de íons hidrogênio provoca constrição arteriolar.

5. Os ânions com efeitos significativos sobre os vasos sanguíneos são o

acetato e o citrato, e ambos acarretam graus leves de vasodilatação.

6. Aumento da concentração de dióxido de carbono provoca vasodilatação

moderada na maioria dos tecidos, mas vasodilatação acentuada no

cérebro. Além disso, o dióxido de carbono no sangue agindo sobre o

centro vasomotor do cérebro exerce intenso efeito indireto, transmitido

pelo sistema nervoso vasoconstritor simpático, causando vasoconstrição

generalizada em todo o corpo.

 

Grande Parte dos Vasodilatadores e Vasoconstritores Exerce

Pouco Efeito a Longo Prazo no Fluxo Sanguíneo, a Menos que

Alterem a Intensidade Metabólica dos Tecidos. Na maioria dos

casos, o fluxo sanguíneo tecidual e o débito cardíaco (a soma do fluxo em

todos os tecidos do corpo) não são substancialmente alterados, exceto por

um dia ou dois em estudos experimentais, quando há infusão crônica de

grandes quantidades de vasoconstritores potentes, tais quais angiotensina II

ou vasodilatadores, como a bradicinina. Por que o fluxo sanguíneo não é

alterado significativamente na maioria dos tecidos, mesmo na presença de

grandes quantidades dessas substâncias vasoativas?

Para responder essa questão, devemos retornar para um dos princípios

fundamentais da função circulatória que discutimos antes — a capacidade de cada tecido de autorregular seu próprio fluxo sanguíneo, de acordo

com suas necessidades metabólicas e outras funções teciduais. A

administração de vasoconstritores potentes, tais como angiotensina II, pode

causar diminuição transitória no fluxo sanguíneo e no débito cardíaco, mas

normalmente tem pouco efeito a longo prazo se não alterar a intensidade

metabólica dos tecidos. Da mesma forma, a maioria dos vasodilatadores

causa apenas mudanças de curta duração no fluxo sanguíneo tecidual e no

débito cardíaco se não alterar o metabolismo do tecido. Portanto, o fluxo

sanguíneo é geralmente regulado de acordo com as necessidades específicas

do tecido, desde que a pressão arterial seja adequada para perfusão desses

tecidos.

 

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