Tratado de Fisiologia Médica
Sensações Térmicas
que são referidas para trás dos olhos ou, no caso de infecção do seio frontal, nas
superfícies frontais da testa e do couro cabeludo, como mostrado na Figura 49-9.
Além disso, a dor oriunda dos seios inferiores, como os seios maxilares, pode ser
sentida na face.
Cefaleias Causadas por Distúrbios Visuais. A dificuldade em focalizar uma
imagem nitidamente pode causar contração excessiva dos músculos ciliares dos
olhos, com o intuito de conseguir visão com nitidez. Embora esses músculos
sejam extremamente pequenos, acredita-se que sua contração tônica possa
causar a cefaleia retro-orbital. Ainda, as tentativas excessivas de focalização
podem resultar em espasmo reflexo de vários músculos faciais e extraoculares, o
que pode ser causa possível da cefaleia.
Segundo tipo de cefaleia, com origem nos olhos, ocorre quando estes são
expostos à irradiação excessiva oriunda dos raios solares, especialmente a luz
ultravioleta. Olhar para o sol ou para o arco de uma solda, mesmo durante alguns
segundos, pode resultar em cefaleia que dura de 24 a 48 horas. A cefaleia
algumas vezes resulta da irritação “actínica” da conjuntiva e a dor é referida para
a superfície da cabeça ou para a região retro-orbital. Entretanto, a focalização de
luz intensa de um arco de solda ou do sol sobre a retina também pode levar à sua
queimadura, o que pode ser a causa da cefaleia.
SENSAÇÕES TÉRMICAS
RECEPTORES TÉRMICOS E SUA EXCITAÇÃO
O ser humano pode perceber diferentes graduações de frio e calor: frio
congelante, gelado, frio, indiferente, morno, quente e muito quente.
As graduações térmicas são discriminadas por pelo menos três tipos de
receptores sensoriais: receptores para frio, receptores para calor e receptores
para dor. Os receptores para dor só são estimulados pelos graus extremos de
calor ou de frio e, portanto, são responsáveis, junto com os receptores para
frio e calor, pelas sensações de “frio congelante” e “calor extremo”.
Os receptores para frio e para calor se localizam imediatamente abaixo da
pele em pontos separados discretos. Na maioria das áreas do corpo, existem
entre 3 e 10 vezes mais pontos para frio que pontos para calor; o número dos pontos para frio, nas diferentes áreas do corpo, varia de 15 a 25 por
centímetro quadrado nos lábios, de 3 a 5 por centímetro quadrado nos dedos
da mão, a menos de um ponto por centímetro quadrado em algumas amplas
áreas da superfície do tronco.
Embora os testes psicológicos revelem a existência de terminações
nervosas distintas para o calor, essas terminações ainda não foram
identificadas histologicamente. Supõe-se que sejam terminações nervosas
livres, pois os sinais de calor são transmitidos, sobretudo, pelas fibras
nervosas do tipo C, com velocidades de transmissão de somente 0,4 a 2 m/s.
Já foi identificado o receptor definitivo para o frio. Ele é tipo especial de
terminação nervosa mielinizada fina do tipo Ad que se ramifica diversas
vezes, com suas pontas fazendo protrusão para as superfícies inferiores das
células epidérmicas basais. Os sinais são transmitidos desses receptores por
meio de fibras nervosas do tipo A d com velocidades de aproximadamente
20 m/s. Acredita-se que algumas sensações de frio sejam também
transmitidas por fibras nervosas do tipo C, o que sugere que algumas
terminações nervosas livres também possam funcionar como receptores
para o frio.
Estimulação dos Receptores Térmicos — Sensações de
Gelado, Frio, Indiferente, Morno e Quente. A Figura 49-10 mostra
os efeitos de diferentes temperaturas sobre as respostas dos quatro tipos de
fibras nervosas: (1) a fibra para dor, estimulada pelo frio; (2) a fibra para o
frio; (3) a fibra para o calor; e (4) a fibra para a dor, estimulada pelo calor.
Observe, especificamente, que essas fibras respondem diferentemente a
níveis distintos de temperatura. Por exemplo, na região muito fria, somente
as fibras para dor-frio são estimuladas (se a pele esfria ainda mais, quase
congelando ou realmente congelando, essas fibras não podem mais ser
estimuladas). Conforme as temperaturas se elevam para +10° ou 15°C, os
impulsos para dor-frio são interrompidos, mas os receptores para frio começam a ser estimulados, atingindo pico de estimulação em 24°C e
diminuindo levemente acima de 40°C. Acima dos 30°C, os receptores para
calor começam a ser estimulados, mas eles também deixam de ser
estimulados por volta dos 49°C. Finalmente, ao redor dos 45°C, as fibras
para dor-calor começam a ser estimu ladas pelo calor e, paradoxalmente,
algumas das fibras para frio começam a ser outra vez estimuladas, talvez
por causa de lesões das terminações para o frio, ocasionadas pelo calor
excessivo.
Pode-se compreender, pela Figura 49-10, que a pessoa determina as
diferentes graduações das sensações térmicas pelos graus relativos de
estimulação das diferentes terminações. Também, pode-se compreender
porque os graus extremos, tanto de frio quanto de calor, podem ser
dolorosos e porque ambas as sensações, quando intensas o suficiente, geram
quase a mesma qualidade de sensação, — isto é, as sensações de frio
congelante ou de calor abrasador são muito parecidas.
Figura 49-10. Frequências de descarga em diferentes temperaturas cutâneas de fibra de frio-dor, fibra de frio, fibra de calor e fibra de calor-dor.
Efeitos Estimulatórios da Elevação e da Queda da Temperatura
— Adaptação dos Receptores Térmicos. Quando o receptor para
frio é, de súbito, submetido à queda abrupta na temperatura, inicialmente,
ele é fortemente estimulado, mas essa estimulação diminui, com muita
rapidez, durante os primeiros segundos e de modo progressivamente mais
lento durante os próximos 30 minutos ou mais. Em outras palavras, o
receptor “se adapta” em grande parte, mas nunca em 100%.
Assim, é evidente que as sensações térmicas respondem acentuadamente
às alterações da temperatura, além de serem capazes de responder a
estados constantes de temperatura. Isso significa que quando a temperatura
da pele está ativamente caindo, a pessoa sente muito mais frio do que
quando a temperatura permanece fria, no mesmo nível. Inversamente, se a
temperatura está aumentando, a pessoa sente muito mais calor do que
sentiria na mesma temperatura, se ela fosse constante. A resposta às
alterações de temperatura explica o extremo grau de calor que se sente
quando se entra em banheira de água quente e o frio extremo quando se sai
de sala aquecida para fora de casa em dia frio.
MECANISMOS DA ESTIMULAÇÃO DOS RECEPTORES
TÉRMICOS
Acredita-se que os receptores para frio e para calor sejam estimulados pelas
alterações de suas intensidades metabólicas e que estas resultam do fato de
que a temperatura altera a velocidade das reações químicas intracelulares,
por mais de duas vezes, a cada alteração de 10°C. Em outras palavras, a
detecção térmica provavelmente resulta não dos efeitos físicos diretos do
calor ou do frio sobre as terminações nervosas, mas sim da estimulação
química das terminações modificadas pela temperatura.
Somação Espacial das Sensações Térmicas. Como o número de
terminações para frio ou para calor em qualquer área da superfície do corpo
é pequeno, é difícil avaliar as graduações de temperatura quando pequenas
áreas da pele são estimuladas. Entretanto, quando grande área da pele é
estimulada, os sinais térmicos de toda a área se somam. Por exemplo,
mudanças rápidas da temperatura de apenas 0,01°C podem ser detectadas se
afetarem toda a superfície do corpo de forma simultânea. Inversamente,
alterações de temperatura 100 vezes maiores podem não ser detectadas
quando a área da pele afetada for de apenas um centímetro quadrado.
TRANSMISSÃO DOS SINAIS TÉRMICOS NO SISTEMA
NERVOSO
Em geral, os sinais térmicos são transmitidos por vias paralelas às vias da
dor. Ao entrar na medula espinal, os sinais cursam por alguns segmentos de
modo ascendente ou descendente no trato de Lissauer, terminando,
principalmente, nas lâminas I, II e III dos cornos dorsais — como para a
dor. Após certo processamento por um ou mais neurônios da medula
espinal, os sinais cursam por longas fibras térmicas ascendentes que cruzam
para o trato sensorial anterolateral oposto e terminam (1) em áreas
reticulares do tronco cerebral; e (2) no complexo ventrobasal do tálamo.
Alguns sinais térmicos são também retransmitidos para o córtex
somatossensorial do complexo ventrobasal. Ocasionalmente, verifica-se, em
estudos utilizando microeletró dios, que um neurônio da área
somatossensorial primária é diretamente responsivo a estímulo de frio ou de
calor, em área específica da pele. Entretanto, a remoção de todo o giro
cortical pós-central, no ser humano reduz, mas não abole a capacidade de
distinguir as graduações da temperatura.
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UNIDADE X
O Sistema Nervoso: B. Os Órgãos
Especiais dos Sentidos
RESUMO DA UNIDADE
CAPÍTULO 50 - O Olho: I. Óptica da Visão
Princípios Físicos da Óptica
Óptica do Olho
Sistema de Líquidos do Olho — Líquido Intraocular
CAPÍTULO 51 - O Olho: II. Funções Receptora e Neural
da Retina
Anatomia e Função dos Elementos Estruturais da Retina
Fotoquímica da Visão
Visão em Cores
Função Neural da Retina
CAPÍTULO 52 - O Olho: III. Neurofisiologia Central da
Visão
Vias Visuais
Organização e Função do Córtex Visual
Padrões Neuronais de Estimulação durante Análise da
Imagem Visual
Movimentos Oculares e seu Controle
Crontrole Autônomo da Acomodação e da Abertura Pupilar
CAPÍTULO 53 - O Sentido da Audição
Membrana Timpânica e o Sistema Ossicular
Cóclea
Mecanismos Auditivos Centrais
CAPÍTULO 54 - Os Sentidos Químicos — Gustação e
Olfação
Sentido da Gustação
Sentido da Olfação
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