Tratado de Fisiologia Médica
Estrutura Química Básica dos Triglicerídeos (Gordura Neutra)
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
do metabolismo lipídico, é utilizada, como explicado nos Capítulos 68 e 69. Em
geral, a quantidade de trifosfato de adenosina formado por grama de proteína que
é oxidada, é ligeiramente menor do que a formada por grama de glicose que se
oxida.
Gliconeogênese e Cetogênese. Alguns aminoácidos desaminados são
semelhantes aos substratos utilizados normalmente pelas células, em especial os hepatócitos, para sintetizar glicose ou ácidos graxos. Por exemplo, a alanina desaminada é o ácido pirúvico. Este pode ser convertido em glicose ou em
glicogênio. Alternativamente, ele pode ser convertido em acetil-CoA, que pode
então ser polimerizada em ácidos graxos. De igual modo, duas moléculas de
acetil-CoA podem se condensar para formar o ácido acetoacético, que é um dos
corpos cetônicos, como explicado no Capítulo 69.
A conversão de aminoácidos em glicose ou glicogênio é denominada
gliconeogênese, e a conversão de aminoácidos em cetoácidos ou em ácidos
graxos é conhecida como cetogênese. Dos 20 aminoácidos desaminados, 18
possuem estruturas químicas que lhes permitem ser convertidos em glicose e 19
deles podem ser convertidos em ácidos graxos.
Degradação Obrigatória das Proteínas
Quando a pessoa não ingere proteínas, certa proporção das proteínas corporais
é degradada em aminoácidos e, então, desaminada e oxidada. Esse processo
envolve 20 a 30 gramas de proteína por dia, o que se denomina perda obrigatória
de proteínas. Portanto, a fim de prevenir a perda efetiva de proteínas corporais,
uma pessoa média deve ingerir o mínimo de 20 a 30 gramas de proteína a cada
dia; embora essa quantidade dependa de múltiplos fatores, entre eles a massa
muscular, a atividade e a idade; para permanecer na margem de segurança, um
mínimo de 60 a 75 gramas é em geral recomendado.
As proporções dos diferentes aminoácidos nas proteínas na dieta devem ser
aproximadamente as mesmas dos tecidos corporais, caso toda a proteína da dieta
se destine para completa utilização de modo a formar novas proteínas nos
tecidos. Se algum tipo particular de aminoácido essencial estiver em baixa
concentração, os outros se tornam inutilizáveis, uma vez que as células ou
sintetizam proteínas completas, ou nenhuma proteína, como explicado
no Capítulo 3 em relação à síntese proteica. Os aminoácidos inutilizáveis são
desaminados e oxidados. A proteína que tenha a proporção de aminoácidos
diferente da média das proteínas corporais é denominada proteína parcial ou
proteína incompleta, e essa proteína é menos valiosa para a nutrição do que uma
proteína completa.
O Efeito do Jejum Extremo sobre a Degradação Proteica. Exceto pelos 20 a
30 gramas de degradação proteica obrigatória diária, o corpo usa quase
inteiramente carboidratos ou gorduras como fonte energética, enquanto estiverem
disponíveis. Todavia, após várias semanas de jejum, quando as quantidades de
carboidratos e gorduras armazenados começam a se esgotar, os aminoácidos do
sangue são rapidamente desami nados e oxidados para geração de energia.
Desse ponto em diante, as proteínas dos tecidos se degradam rapidamente — em
torno de 125 gramas a cada dia — e, como resultado, as funções celulares se
deterioram de forma precipitada. Uma vez que a utilização dos carboidratos e das gorduras como matriz energética ocorre normalmente em preferência à utili zação
das proteínas, eles são denominados poupadores de proteína.
Regulação Hormonal do Metabolismo Proteico
O Hormônio do Crescimento Aumenta a Síntese das Proteínas Celulares. O
hormônio do crescimento provoca aumento das proteínas teciduais. O mecanismo
preciso pelo qual isso ocorre não é conhecido, mas acredita-se que resulte em
sua maior parte de transporte aumentado de aminoácidos, através das membranas celulares, da aceleração da transcrição do DNA e do RNA e dos processos de tradução para a síntese proteica, ou da diminuição da oxidação de
proteínas teciduais.
A Insulina É Necessária para a Síntese Proteica. A completa falta de insulina
reduz a síntese proteica a quase zero. A insulina acelera o transporte de alguns
aminoácidos para as células, o que poderia se constituir no estímulo à síntese
proteica. Além disso, a insulina reduz a degradação de proteínas e aumenta a disponibilidade de glicose para as células, de modo que a necessidade de
aminoácidos como fonte energética seja correspondentemente reduzida.
Os Glicocorticoides Aumentam a Degradação da Maior Parte das Proteínas
Teciduais. Os glicocorticoides secretados pelo córtex adrenal reduzem a
quantidade de proteínas, na maior parte dos tecidos, enquanto aumentam a
concentração dos aminoácidos no plasma, assim como aumentam as proteínas hepáticas e as plasmáticas. Acredita-se que os glicocorticoides atuem
aumentando a degradação das proteínas extra-hepáticas, gerando assim
quantidades aumentadas de aminoácidos disponíveis nos fluidos corporais. Isso
supostamente permite ao fígado sintetizar maior quantidade de proteínas celulares hepáticas e plasmáticas.
A Testosterona Aumenta a Deposição Proteica nos Tecidos. A testosterona,
o hormônio sexual masculino, provoca deposição proteica aumentada nos tecidos por todo o organismo, em especial as proteínas contráteis dos músculos (30% a
50% de aumento). O mecanismo desse efeito é desconhecido, mas é
definitivamente diferente daquele do hormônio do crescimento do seguinte modo: o hormônio do crescimento faz com que os tecidos continuem a crescer, quase indefinidamente, enquanto a testosterona faz com que os músculos e, em grau
muito menor, alguns tecidos proteicos aumentem apenas por alguns meses. Uma
vez que os músculos e outros tecidos proteicos tiverem alcançado um máximo, a despeito da administração continuada de testosterona, a deposição adicional de
proteína cessa.
Estrogênio. O estrogênio, o principal hormônio sexual feminino, também
provoca alguma deposição proteica, embora o efeito do estrogênio seja muito
menor que o da testosterona.
A Tiroxina Aumenta o Metabolismo das Células. A tiroxina afeta
indiretamente o metabolismo proteico ao aumentar o metabolismo das células. Se
os carboidratos e as gorduras forem insuficientemente disponíveis para a
produção de energia, a tiroxina provoca rápida degradação das proteínas e as
utiliza como energia. Contrariamente, se quantidades adequadas de carboidratos
e gorduras estiverem disponíveis, e aminoácidos em excesso também forem
encontrados no líquido extracelular, a tiroxina pode de fato aumentar a síntese
proteica. Nos animais ou em seres humanos em crescimento, a deficiência de
tiroxina provoca grande inibição do crescimento devido à falha da síntese proteica.
Essencialmente, acredita-se que a tiroxina tenha poucos efeitos específicos sobre
o metabolismo proteico, mas tenha importante efeito geral pelo aumento da
intensidade das reações proteicas normais, tanto anabólicas quanto catabólicas.
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CAPÍTULO 71
O Fígado como Órgão
Embora seja órgão discreto, o fígado desempenha muitas funções inter-
relacionadas. Isso se torna especialmente evidente nas anomalias hepáticas,
uma vez que muitas de suas funções são perturbadas de forma simultânea.
Este Capítulo resume as diferentes funções hepáticas, incluindo (1) filtração
e armazenagem de sangue; (2) metabolismo dos carboidratos, proteínas,
gorduras, hormônios e produtos químicos estranhos; (3) formação de bile;
(4) armazenamento de vitaminas e de ferro; (5) formação de fatores de
coagulação.
Anatomia e Fisiologia do Fígado
O fígado é o maior órgão do corpo, contribuindo com cerca de 2% do peso
corporal total, ou algo em torno de 1,5 kg na pessoa adulta. Sua unidade funcional
básica é o lóbulo hepático, que é uma estrutura cilíndrica com alguns milímetros
de comprimento e 0,8 a 2 milímetros de diâmetro. O fígado humano contém
50.000 a 100.000 lóbulos individuais.
O lóbulo hepático, mostrado em corte na Figura 71-1, é construído em torno de
uma veia central que drena para as veias hepáticas e, daí, para a veia cava. O
próprio lóbulo é composto principalmente por diversas placas celulares (duas das
quais são mostradas na Figura 71-1) que se irradiam a partir da veia central como
os raios de uma roda. Cada placa hepática, em geral, tem a espessura de duas células e, entre as células adjacentes, situam-se os pequenos canalículos biliares,
que drenam para os ductos biliares, nos septos fibrosos os quais separam os lóbulos hepáticos adjacentes.
Nos septos existem pequenas vênulas portais que recebem seu sangue,
principalmente do efluxo do trato gastrointestinal, por meio da veia porta. A partir
dessas vênulas, o sangue flui para os sinusoides hepáticos, lisos e ramificados,
que existem entre as placas hepáticas, e daí para a veia central. Desse modo, as células hepáticas estão continuamente expostas ao fluxo venoso porta.
As arteríolas hepáticas estão igualmente presentes no septo interlobular. Essas
arteríolas fornecem sangue arterial para os tecidos septais, entre os lóbulos adjacentes, e muitas das pequenas arteríolas também drenam, diretamente, para
os sinusoides hepáticos, mais frequentemente, drenando para os localizados a
cerca de um terço da distância do septo interlobular, conforme mostrado na Figura
71-1.
Além dos hepatócitos, os sinusoides venosos são revestidos por dois outros
tipos de células: (1) as células endoteliais típicas; e (2) as grandes células de Kupffer (também denominadas células reticuloendoteliais), que são macrófagos residentes que revestem os sinusoides e são capazes de fagocitar bactérias e
outras matérias estranhas no sangue dos sinusoides hepáticos.
O revestimento endotelial dos sinusoides tem poros extremamente grandes,
alguns deles com quase 1 micrômetro de diâmetro. Abaixo desse revestimento,
situados entre as células endoteliais e as hepáticas, existem estreitos espaços teciduais denominados espaços de Disse, também conhecidos como espaços
perissinusoidais. Os milhões de espaços de Disse se conectam aos vasos linfáticos nos septos interlobulares. Por isso, o excesso de líquido, nesses
espaços é removido pelos linfáticos. Devido aos grandes poros no endotélio, as substâncias do plasma se movimentam, livremente, para os espaços de Disse. Da mesma forma, grandes porções de proteína plasmática se difundem livremente
para esses espaços.
Figura 71-1. Estrutura básica do lóbulo hepático mostrando as placas celulares, os vasos sanguíneos, o sistema coletor da bile e o sistema do fluxo linfático, composto pelos espaços de Disse e pelos linfáticos interlobulares. (Modificada de Guyton AC, Taylor AE, Granger HJ: Circulatory Physiology. Vol 2: Dynamics and Control of the Body Fluids. Philadelphia: WB Saunders, 1975.)
Os Sistemas Vascular e Linfático do Fígado
A função do sistema vascular hepático é discutida no Capítulo 15 em conexão
com as veias portas, podendo ser resumida como se segue.
O Fluxo Sanguíneo Através do Fígado a Partir da Veia Porta e da Artéria
Hepática
O Fígado Apresenta Elevado Fluxo Sanguíneo e Baixa Resistência
Vascular. Cerca de 1.050 mililitros de sangue fluem da veia porta para os
sinusoides hepáticos a cada minuto, e 300 mililitros adicionais fluem para os
sinusoides da artéria hepática, a média total variando em torno de 1.350 mL/min, o que equivale a 27% do débito cardíaco de repouso.
A pressão na veia porta, na sua entrada no fígado, varia em torno de 9 mmHg, e
a pressão na veia hepática do fígado para a veia cava normalmente tem como
média aproximada 0 mmHg. Essa pequena diferença de pressão de apenas 9 mmHg, mostra que a resistência ao fluxo sanguíneo pelos sinusoides hepáticos
costuma ser muito baixa, especialmente quando se considera que cerca de 1.350
mililitros de sangue fluem por essa via a cada minuto.
A Cirrose Hepática Aumenta Bastante a Resistência ao Fluxo Sanguíneo.
Quando as células parenquimatosas hepáticas são destruídas, elas são
substituídas por tecido fibroso, que eventualmente, se contrai em torno dos vasos sanguíneos, impedindo, assim, de forma muito intensa, o fluxo de sangue porta
pelo fígado. Esse processo patológico é conhecido como cirrose hepática. Ele
resulta mais comumente do alcoolismo crônico ou por excesso de acúmulo de
gordura no fígado e subsequente inflamação hepática, condição chamada esteato- hepatite não alcoólica ou NASH. Forma menos grave de acúmulo de
gordura e inflamação do fígado, a doença hepática gordurosa não alcoólica
(NAFLD) é a causa mais comum de distúrbio hepático em muitos países
industrializados, incluindo os Estados Unidos, e está, em geral, associada à obesidade e ao diabetes tipo II.
A cirrose pode também ser consequente à ingestão de venenos, tal como o
tetracloreto de carbono; as doenças virais, tais como a hepatite infecciosa, obstrução e processos infecciosos nos ductos biliares.
O sistema porta também é ocasionalmente bloqueado por grande coágulo que
se desenvolva na veia porta ou em seus ramos principais. Quando o sistema é repentinamente bloqueado, o retorno do sangue dos intestinos e do baço pelo
sistema de fluxo sanguíneo hepatoporta para a circulação sistêmica é muito impedido, gerando hipertensão porta e elevando a pressão capilar na parede
intestinal para 15 a 20 mmHg acima do normal. O paciente pode falecer em poucas horas, devido à excessiva perda de líquidos dos capilares para o interior
do lúmen e paredes dos intestinos.
O Fígado Funciona como Reservatório de Sangue
Uma vez que o fígado é órgão expansível, grande quantidade de sangue pode
ser armazenada em seus vasos sanguíneos. Seu volume sanguíneo normal,
incluindo o das veias e o dos sinusoides hepáticos, é de cerca de 450 mililitros ou quase 10% do volume sanguíneo corporal total. Quando a alta pressão no átrio
provoca pressão retrógrada sobre o fígado, este se expande e 0,5 a 1 litro de
sangue extra é ocasionalmente armazenado nas veias e sinusoides hepáticos.
Esse armazenamento de sangue adicional ocorre em particular nos casos de
insuficiência cardíaca com congestão periférica, discutida no Capítulo 22.
Portanto, o fígado é, na realidade, grande órgão venoso expansível, capaz de
atuar como importante reservatório de sangue, nos momentos de excesso de
volume sanguíneo, e apto a fornecer sangue extra, em tempos de volume
sanguíneo diminuído.
O Fígado Tem Fluxo Linfático Muito Alto
Uma vez que os poros nos sinusoides hepáticos são muito permeáveis em
comparação aos capilares em outros tecidos, permitindo a fácil passagem de
líquidos e de proteínas para os espaços de Disse, a drenagem linfática do fígado,
normalmente, tem concentração proteica de cerca de 6 g/dL, que é pouco menor
se comparada à concentração proteica do plasma. De igual modo, a alta
permeabilidade do epitélio dos sinusoides hepáticos permite a formação de
grande quantidade de linfa. Assim, cerca da metade de toda a linfa formada no
corpo em condições de repouso é proveniente do fígado.
Elevadas Pressões Vasculares Hepáticas Podem Provocar a Transudação
de Líquidos para a Cavidade Abdominal a Partir dos Capilares Hepáticos e
Portais — Ascite. Quando a pressão nas veias hepáticas se eleva por apenas 3
a 7 mmHg acima do normal, um volume excessivo de líquido começa a transudar
para a linfa e a extravasar através da superfície exterior da cápsula hepática
diretamente para a cavidade abdominal. Esse líquido é quase plasma puro,
contendo cerca de 80% a 90% da quantidade de proteínas do plasma normal.
Pressões na veia cava de 10 a 15 mmHg aumentam o fluxo linfático hepático por
até 20 vezes o normal, e o “suor” da superfície do fígado pode ser tão grande que
origina grande quantidade de líquido livre na cavidade abdominal, o que se
denomina ascite. O bloqueio do fluxo porta pelo fígado, também provoca altas
pressões capilares em todo o sistema vascular porta do trato gastrointestinal,
resultando em edema da parede do intestino e transudação de líquido, por meio
da serosa intestinal, para a cavidade abdominal. Isso também pode provocar
ascite.
Regulação da Massa Hepática — Regeneração
O fígado tem extraordinária capacidade de se restaurar após perda significativa
de tecido hepático tanto por hepatectomia parcial, como por lesão hepática aguda,
desde que a lesão não seja complicada por infecção virótica ou inflamatória. A
hepatectomia parcial, na qual até 70% do fígado são removidos, faz com que os
lobos remanescentes aumentem e restituam o fígado a seu tamanho original.
Essa regeneração é extraordinariamente rápida, requerendo apenas 5 a 7 dias em ratos. Estima-se que, durante a regeneração hepática, os hepatócitos se
repliquem uma ou duas vezes e que, depois que o tamanho e volume hepáticos normais tenham sido atingidos, os hepatócitos revertam a seu estado de repouso.
O controle dessa rápida regeneração hepática ainda é mal compreendido, mas o
fator de crescimento dos hepatócitos (HGF) parece constituir fator importante
causador da divisão e crescimento das células hepáticas. O HGF é produzido
pelas células mesenquimais no fígado e em outros tecidos, mas não pelos hepatócitos. Os níveis sanguíneos de HGF se elevam por mais de 20 vezes, após hepatectomia parcial, mas normalmente as respostas mitogênicas só são
encontradas no fígado após essas cirurgias, sugerindo que o HGF só possa ser
ativado no órgão afetado. Outros fatores de crescimento, especialmente o fator de crescimento epidérmico e as citocinas, tais como o fator de necrose tumoral e a interleucina-6, também podem estar envolvidos na estimulação da regeneração
das células hepáticas.
Depois que o fígado volta a seu tamanho original, o processo de divisão celular
hepática é terminado. Novamente, os fatores envolvidos não são bem
compreendidos, conquanto o fator de crescimento transformante b, citocina
secretada pelas células hepáticas, seja potente inibidor da proliferação celular hepática e tenha sido sugerido como o principal terminador da regeneração
hepática.
Experimentos fisiológicos indicam que o crescimento hepático é intimamente
regulado por algum sinal desconhecido relacionado ao tamanho corporal, de
modo a ser mantida proporção ideal para o funcionamento metabólico entre o
peso corporal e o hepático. Todavia, nas doenças hepáticas com fibrose, inflamação ou infecções viróticas, o processo regenerativo do fígado fica
seriamente comprometido e a função hepática se deteriora.
O Sistema Macrofágico Hepático Cumpre uma Função de Depuração do
Sangue
O sangue que flui pelos capilares intestinais recolhe muitas bactérias dos
intestinos. De fato, amostra de sangue colhida das veias porta antes de sua entrada no fígado, quando cultivada, quase sempre apresentará crescimento de bacilos colônicos, enquanto o crescimento de bacilos do cólon a partir do sangue
da circulação sistêmica é extremamente raro.
Filmagens especiais com alta velocidade da ação das células de Kupffer, os
grandes macrófagos fagocíticos que revestem os sinusoides venosos hepáticos,
demonstraram que essas células limpam eficientemente o sangue, à medida que
ele passa pelos sinusoides; quando a bactéria entra em contato momentâneo com
a célula de Kupffer, em menos de 0,01 segundo ela passa para o seu interior
através da membrana celular, permanecendo aí alojada até que seja digerida.
Provavelmente, menos de 1% das bactérias que entram no sangue porta, vindo
dos intestinos, consegue passar através do fígado para a circulação sistêmica.
Funções Metabólicas do Fígado
O fígado é grande grupamento celular quimicamente reativo, com elevado
metabolismo. Essas células compartilham substratos e energia, processam e
sintetizam múltiplas substâncias que são transportadas para outras áreas do
corpo e realizam miríade de outras funções metabólicas. Por essas razões, parte
importante da disciplina de bioquímica é dedicada às reações metabólicas do
fígado. Neste Capítulo, resumiremos as funções metabólicas que são
especialmente importantes para a compreensão da fisiologia integrada do corpo.
Metabolismo dos Carboidratos
No metabolismo dos carboidratos, o fígado desempenha as seguintes funções,
como resumido no Capítulo 68:
1. Armazenamento de grandes quantidades de glicogênio .
2. Conversão da galactose e da frutose em glicose.
3. Gliconeogênese.
4. Formação de muitos compostos químicos, a partir de produtos intermediários
do metabolismo dos carboidratos .
O fígado é especialmente importante na manutenção da concentração normal
da glicose sanguínea. O armazenamento do glicogênio permite ao fígado remover
o excesso de glicose do sangue, armazená-la e então, devolvê-la ao sangue,
quando a concentração da glicose sanguínea começar a baixar muito, processo
conhecido como função de tampão da glicose do fígado. Em pessoas com função
hepática precária, a concentração da glicose sanguínea, após refeição rica em
carboidratos, pode aumentar por duas a três vezes a mais do que em pessoas
com a função hepática normal.
A gliconeogênese hepática é igualmente importante na manutenção da
concentração normal da glicose sanguínea, porque a gliconeogênese só ocorre de
modo considerável quando a concentração de glicose cai abaixo da normal.
Nesse caso, grande quantidade de aminoácidos e de glicerol dos triglicerídeos é
convertida em glicose, auxiliando, desse modo, a manter a concentração
glicêmica relativamente normal.
Metabolismo de Gorduras
Embora a maioria das células corporais metabolize gordura, certos aspectos do
metabolismo lipídico ocorrem, em sua maior parte, no fígado. No metabolismo
lipídico, o fígado realiza as seguintes funções específicas, resumidas do Capítulo
69:
1. Oxidação dos ácidos graxos para suprir energia para outras funções corporais.
2. Síntese de grandes quantidades de colesterol, fosfolipídios e da maior parte
das lipoproteínas.
3. Síntese de gordura, a partir das proteínas e carboidratos .
Para obter energia dos lipídios neutros, a gordura é primeiramente dividida em
glicerol e ácidos graxos; então os ácidos graxos são divididos por b-oxidação, em radicais acetil de dois carbonos que formam a acetilcoenzima A (acetil-CoA). Esta
pode entrar no ciclo do ácido cítrico e ser oxidada para liberar tremendas quantidades de energia. A b-oxidação pode ocorrer em todas as células do corpo, mas acontece com rapidez especial nas células hepáticas. O próprio fígado não
pode utilizar toda a acetil-CoA que é formada; em vez disso, ela é convertida pela
condensação de duas moléculas de acetil-CoA, em ácido acetoacético, ácido muito solúvel que passa das células hepáticas para o líquido extracelular, sendo então transportado para o corpo para ser absorvido por outros tecidos. Esses
tecidos reconvertem o ácido acetoacético a acetil-CoA e, então, oxidam-na do
modo usual. Desse modo, o fígado é responsável pela maior parte do metabolismo lipídico.
Cerca de 80% do colesterol sintetizado no fígado é convertido em sais biliares,
que são secretados na bile; o restante é transportado nas lipoproteínas e carreado
pelo sangue para as células dos tecidos por todo o corpo. Os fosfolipídios também são sintetizados no fígado e transportados, na maior parte, nas lipoproteínas.
Tanto o colesterol quanto os fosfolipídios são utilizados pelas células para formar membranas, estruturas intracelulares e múltiplas substâncias químicas, importantes para a função celular.
Quase toda a síntese corporal de lipídios dos carboidratos e das proteínas
também ocorre no fígado. Depois que a gordura é sintetizada no fígado, ela é
transportada nas lipoproteínas para o tecido adiposo de modo a ser armazenada.
Metabolismo de Proteínas
O corpo não pode dispensar a contribuição hepática ao metabolismo proteico,
por mais do que uns poucos dias, sem que lhe sobrevenha a morte. As funções
hepáticas mais importantes, no metabolismo proteico, resumidas no Capítulo 70,
são as seguintes:
1. Desaminação dos aminoácidos.
2. Formação de ureia para remoção da amônia dos líquidos corporais.
3. Formação das proteínas plasmáticas.
4. Interconversões entre os diversos aminoácidos e síntese de outros compostos
a partir deles.
A desaminação dos aminoácidos é necessária antes que possam ser usados
como energia ou convertidos em carboidratos ou lipídios. Pequena parcela da
desaminação pode ocorrer em outros tecidos corporais, especialmente nos rins,
mas essa é muito menos importante do que a desaminação dos aminoácidos pelo
fígado.
A formação hepática de ureia remove a amônia dos líquidos corporais. Grande
quantidade de amônia é formada pelo processo de desaminação e quantidades
adicionais são continuamente formadas nos intestinos por bactérias, sendo então
absorvidas para o sangue. Por conseguinte, se o fígado não formar a ureia, a
concentração plasmática da amônia se elevará rapidamente, resultando em coma
hepático e morte. De fato, mesmo grande diminuição do fluxo sanguíneo pelo
fígado — como ocorre ocasionalmente, quando uma derivação (shunt) se
desenvolve entre as veias porta e cava — pode provocar excesso de amônia no
sangue, condição extremamente tóxica.
Essencialmente, todas as proteínas plasmáticas, com exceção de parte das
gamaglobulinas, são formadas pelas células hepáticas, o que representa cerca de
90% de todas as proteínas plasmáticas. As gamaglobulinas restantes são
anticorpos formados principalmente pelos plasmócitos no tecido linfático do corpo.
O fígado pode formar proteínas plasmáticas na intensidade máxima de 15 a 50
g/dia. Portanto, mesmo que cerca da metade das proteínas plasmáticas seja
perdida pelo organismo, elas podem ser repostas em 1 ou 2 semanas.
A depleção das proteínas do plasma provoca rápida mitose dos hepatócitos e
crescimento do fígado para maior tamanho; esses efeitos estão associados à
rápida produção de proteínas plasmáticas, até que sua concentração no plasma
retorne ao normal. Na doença hepática crônica (p. ex., cirrose), as proteínas do
plasma, tais como a albumina, podem cair a níveis muito baixos, produzindo
edema generalizado e ascite, conforme explicado no Capítulo 30.
Dentre as funções mais importantes do fígado, encontra-se a capacidade de
sintetizar certos aminoácidos, assim como outros compostos químicos
importantes a partir dos aminoácidos. Por exemplo, os denominados aminoácidos não essenciais podem ser sintetizados pelo fígado. Para realizar esta função,
primeiro um cetoácido com a mesma composição química (exceto pelo oxigênio ceto) do aminoácido a ser formado é sintetizado. Então, o radical amina é
transferido por meio de diversos estágios de transaminação, de aminoácido disponível ao cetoácido, para tomar o lugar do oxigênio ceto.
Outras Funções Metabólicas do Fígado
O Fígado É um Local de Armazenamento de Vitaminas. O fígado tem
propensão particular para armazenar vitaminas, tendo sido por muito tempo reconhecido como excelente fonte de determinadas vitaminas no tratamento de
pacientes. A vitamina armazenada no fígado em maior quantidade é a vitamina A,
mas grande quantidade das vitaminas D e B normalmente também são 12 armazenadas. Podem ser estocadas quantidades de vitamina A suficientes para
impedir a sua deficiência por período de até 10 meses. A vitamina D pode ser
armazenada em quantidade suficiente para prevenir sua deficiência por 3 a 4
meses, e a vitamina B pode ser acumulada para durar pelo menos 1 ano e, 12
possivelmente, vários anos.
O Fígado Armazena Ferro na forma de Ferritina. Excetuando-se o ferro da
hemoglobina sanguínea, sem dúvida, a maior proporção de ferro no corpo é
armazenada no fígado sob a forma de ferritina. As células hepáticas contêm grande quantidade da proteína denominada apoferritina, que é capaz de se
combinar, reversivelmente, com o ferro. Como comsequência, quando o ferro se encontra disponível nos líquidos corporais em quantidades extras, ele se combina com a apoferritina para formar ferritina armazenada sob essa forma nas células
hepáticas, até que se torne necessária em alguma outra parte. Quando o ferro nos
líquidos corporais circulantes atinge nível baixo, a ferritina libera o seu ferro. Consequentemente, o sistema hepático da apoferritina atua como tampão do ferro sanguíneo, assim como meio de armazenamento de ferro. Outras funções do
fígado relacionadas com o metabolismo do ferro e com a formação das hemácias
são consideradas no Capítulo 33.
O Fígado Forma Substâncias Sanguíneas Utilizadas na Coagulação. As
substâncias usadas no processo de coagulação, formadas no fígado, incluem fibrinogênio, protrombina, globulina aceleradora, Fator VII e vários outros fatores
importantes. A vitamina K é exigida pelo processo metabólico hepático para a formação de algumas dessas substâncias, especialmente a protrombina e os
Fatores VII, IX e X. Na ausência de vitamina K, as concentrações de todas essas substâncias ficam muito reduzidas, quase impedindo a coagulação sanguínea.
O Fígado Remove ou Excreta Fármacos, Hormônios e Outras Substâncias.
O meio químico ativo do fígado é bem conhecido por sua capacidade de
destoxificar ou excretar na bile diversos fármacos, incluindo sulfonamidas,
penicilina, ampicilina e eritromicina.
De modo semelhante, diversos hormônios secretados pelas glândulas
endócrinas, são quimicamente alterados ou excretados pelo fígado, incluindo a
tiroxina e essencialmente todos os hormônios esteroides, tais como estrogênio,
cortisol e aldosterona. A lesão hepática pode levar ao excesso de acúmulo de um
ou mais desses hormônios nos líquidos corporais, provocando então,
hiperatividade dos sistemas hormonais.
Por fim, uma das principais vias de excreção do cálcio do corpo é a secreção
pelo fígado pela bile, que então passa para o intestino, sendo perdido nas fezes.
Dosagem da Bilirrubina Biliar como uma Ferramenta de
Diagnóstico Clínico
A formação da bile pelo fígado e a função dos sais biliares nos processos
absortivos do trato intestinal são discutidas nos Capítulos 65 e 66. Além disso,
muitas substâncias são excretadas na bile e, então, eliminadas nas fezes. Uma
dessas substâncias é o pigmento verde-amarelado bilirrubina. Ela é importante
produto final da degradação da hemoglobina, como assinalado no Capítulo 33.
Todavia, ela também representa instrumento extremamente valioso, para
diagnosticar as doenças hemolíticas e diversos tipos de doenças hepáticas.
Portanto, tendo como referência a Figura 71-2, passamos à explicação.
Resumidamente, quando as hemácias tiverem completado seu tempo de vida
(em média, 120 dias), ficando muito frágeis para existirem no sistema circulatório,
suas membranas celulares se rompem e a hemoglobina liberada é fagocitada
pelos macrófagos teciduais (também denominado sistema reticuloendotelial) por
todo o corpo. A hemoglobina é primeiro cindida em globina e heme, sendo o anel
do grupo heme aberto para fornecer (1) ferro livre que é transportado no sangue
pela ferritina; e (2) cadeia reta de quatro núcleos pirrólicos, que constituem o
substrato, a partir do qual a bilirrubina será eventualmente formada. A primeira
substância formada é a biliverdina, mas esta substância é rapidamente reduzida à
bilirrubina livre, também chamada bilirrubina não conjugada que é gradualmente
liberada dos macrófagos para o plasma. A bilirrubina livre se liga de imediato e
fortemente à albumina plasmática, sendo transportada nessa combinação por
todo o sangue e líquidos intersticiais.
Em questão de horas, a bilirrubina não conjugada é absorvida através das
membranas celulares dos hepatócitos. Ao passar para seu interior, ela é liberada
da albumina plasmática e, logo depois, cerca de 80% serão conjugados ao ácido glicurônico para formar glicuronídeo de bilirrubina, cerca de 10% se unirão ao
sulfato para formar sulfato de bilirrubina, e em torno de 10% se associarão à diversidade de outras substâncias. Sob essas formas, a bilirrubina é excretada
dos hepatócitos, processo de transporte ativo, para os canalículos biliares e daí para os intestinos.
Figura 71-2. Formação e excreção da bilirrubina.
Formação e Destino do Urobilinogênio. Uma vez no intestino, cerca da
metade da bilirrubina “conjugada” é convertida por ação bacteriana na substância
urobilinogênio, que é muito solúvel. Certa quantidade do urobilinogênio é
reabsorvida através da mucosa intestinal de volta para o sangue. Sua maior parte é reexcretada pelo fígado novamente para o intestino, mas cerca de 5% são
excretados na urina, pelos rins. Após a exposição ao ar, na urina, o urobilinogênio é oxidado em urobilina; alternativamente nas fezes é alterado e oxidado para
formar estercobilina. Essas inter-relações entre a bilirrubina e outros de seus
produtos são mostradas na Figura 71-2.
Icterícia — Excesso de Bilirrubina no Líquido Extracelular
Icterícia refere-se à tonalidade amarelada dos tecidos corporais, incluindo a
coloração amarela da pele e dos tecidos profundos. A causa usual de icterícia é a grande quantidade de bilirrubina nos líquidos extracelulares, tanto em sua forma
não conjugada como na conjugada. A concentração normal de bilirrubina no plasma, que é quase inteiramente da forma não conjugada é, em média, de 0,5
mg/dL de plasma. Em certas condições anormais, essa quantidade pode se elevar a níveis tão altos quanto 40 mg/dL e grande parte dela pode ser do tipo
conjugado. A pele geralmente começa a parecer ictérica, quando a concentração se eleva por cerca de três vezes o normal — isto é, acima de 1,5 mg/dL.
As causas comuns de icterícia são (1) destruição aumentada de hemácias, com
rápida liberação da bilirrubina no sangue; e (2) obstrução dos ductos biliares ou lesão das células hepáticas, de modo que, mesmo as quantidades normais de bilirrubina, não possam ser excretadas pelo trato gastrointestinal. Esses dois tipos
de icterícia são denominados respectivamente icterícia hemolítica e icterícia
obstrutiva.
A Icterícia Hemolítica É Provocada por Hemólise das Hemácias. Na icterícia
hemolítica, a função excretora do fígado não está comprometida, mas as
hemácias são hemolisadas tão rápido que as células hepáticas simplesmente não podem excretar a bilirrubina com a mesma intensidade que é formada.
Consequentemente, a concentração plasmática de bilirrubina livre se eleva acima
dos níveis normais. Outrossim, a formação de urobilinogênio no intestino fica
bastante aumentada; muito dele é absorvido pelo sangue e posteriormente excretado na urina.
A Icterícia Obstrutiva É Provocada pela Obstrução dos Ductos Biliares ou
por Doença Hepática. Na icterícia obstrutiva, provocada pela obstrução dos ductos biliares (o que ocorre com maior frequência quando cálculo biliar ou câncer
bloqueiam o ducto biliar comum) ou pela lesão dos hepatócitos (que ocorre na
hepatite), a formação da bilirrubina é normal, mas a bilirrubina formada não pode passar do sangue para os intestinos. A bilirrubina não conjugada ainda adentra os
hepatócitos, sendo conjugada do modo usual. Essa bilirrubina conjugada é então
devolvida ao sangue, provavelmente pela ruptura dos canalículos hepáticos
congestionados, drenando de forma direta a bile para a linfa que deixa o fígado.
Consequentemente, a maior parte da bilirrubina no plasma é do tipo conjugado,
em vez do tipo não conjugado.
Diferenças Diagnósticas Entre Icterícia Hemolítica e Obstrutiva. Os exames
químicos laboratoriais podem ser usados para diferenciar a bilirrubina não
conjugada da conjugada no plasma. Na icterícia hemolítica, quase toda a
bilirrubina está na forma “não conjugada”; na icterícia obstrutiva, ela é
principalmente da forma “conjugada”. O teste denominado reação de van den
Bergh pode ser empregado para diferenciar entre as duas.
Quando ocorre obstrução total do fluxo da bile, nenhuma bilirrubina pode chegar
aos intestinos para ser convertida em urobilinogênio pelas bactérias. Portanto,
nenhum urobilinogênio é reabsorvido pelo sangue e nenhum pode ser excretado
pelos rins na urina. Consequentemente, na icterícia obstrutiva total, os testes para
o urobilinogênio urinário são completamente negativos. Além disso, as fezes ficam
com cor de argila, devido à ausência de estercobilina e outros pigmentos biliares.
Outra diferença importante entre a bilirrubina não conjugada e a conjugada, é
que os rins podem excretar pequenas quantidades da muito solúvel bilirrubina
conjugada, mas não da bilirrubina não conjugada ligada à albumina. Por
conseguinte, na icterícia obstrutiva grave, quantidade significativa de bilirrubina
conjugada aparece na urina. Isso pode ser demonstrado de modo simples,
agitando-se a urina e observando a espuma, que fica intensamente amarela.
Assim, pela compreensão da fisiologia da excreção da bilirrubina pelo fígado e do
emprego de poucos testes simples, muitas vezes, é possível diferenciar entre
múltiplos tipos de doenças hemolíticas e hepáticas, bem como determinar a
gravidade da doença.
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