A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Ficou olhando por um bom tempo, extasiado, obrigando-se a ver
aquilo, temporariamente esquecendo a dor em seu assombro.
Mas era de manhã e ainda havia coisas a fazer.
Procurou sentir o maxilar no bolso de trás. Tomou cuidado para
apalpar com a palma da mão direita, não querendo que os cotos dos dedos o encontrassem se ele ainda estivesse lá. Isso transformaria em gritos o
incessante palpitar daquela mão.
Estava lá.
Tudo bem.
Próxima.
Desatou desajeitadamente os cinturões e estendeu-os numa pedra
ensolarada. Pegou os revólveres, puxou os tambores e removeu as balas
inutilizadas. Atirou-as longe. Um pássaro pousou sobre o brilho cintilante
lançado por uma delas; pegou-a no bico, depois a deixou cair e saiu voando.
Os revólveres precisavam ser limpos, já deveriam ter sido limpos,
mas como naquele mundo, ou em qualquer outro, um revólver sem mu-
nição não passava de um porrete, ele pôs os cinturões no colo antes de fazer qualquer outra coisa e ficou parado, passando cuidadosamente a mão
esquerda no couro.
Cada cinturão estava úmido desde o fecho e a fivela até o lugar onde o
couro cruzava seus quadris; daí para baixo pareciam secos. Tirou devagar
cada bala das áreas secas dos cinturões. A mão direita continuava tentando
fazer seu trabalho, insistia em esquecer sua redução a despeito da dor, e ele se viu levando-a repetidas vezes ao joelho, como um cachorro estúpido ou
rebelde demais para se sentar quando mandado. Distraído pela dor, ele
quase chegou a dar-lhe um tapa uma ou duas vezes.
Vejo sérios problemas à frente, tornou a pensar.
Pôs as balas secas, quem sabe ainda não estariam boas, numa pilha
desanimadoramente pequena. Vinte. Dessas, era quase certo que algumas
iriam falhar. Não podia confiar em nenhuma. Removeu as outras e fez
uma nova pilha. Trinta e sete.
Bem, você não andava mesmo com muita munição, pensou ele,
mas admitindo a diferença entre 57 balas em bom estado e o que talvez
não passasse agora de vinte utilizáveis. Ou dez. Ou cinco. Ou uma. Ou nenhuma.