A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— O que é tão engraçado? —…
— O que é tão engraçado? — disse o mesmo agente da alfândega que
queria saber se ele estava vendo insetos.
— Toda esta situação — respondera Eddie. — Só no sentido de
curiosa, não hilariante. Quero dizer, se isto fosse um filme seria mais tipo Fellini do que Woody Allen, se entende o que estou dizendo.
Você vai ficar bem?, perguntou Roland. Claro, muito bem. VCN, homem.
Não entendo.
Vá cuidar de seus negócios.
Ah. Tudo bem. Não vou demorar.
E de repente aquele outro tinha ido embora. Simplesmente ido.
Como um farrapo de fumaça tão fino que o menor capricho do vento poderia dispersar. Eddie olhou de novo ao redor, não viu nada além dos
compensados brancos com furos, nenhuma porta, nenhum oceano, ne-nhuma estranha monstruosidade, e sentiu a barriga começando a dar um nó. Sem dúvida não era mais possível acreditar que tudo não passasse
de alucinação; a droga havia sumido e isso era toda a prova de que pre-cisava. E Roland havia... ajudado, de alguma forma. Tornado as coisas mais fáceis.
— Quer que eu pendure um quadro ali? — perguntou um dos caras
da alfândega.
— Não — disse Eddie, deixando escapar um suspiro. — Quero que
me deixe sair daqui.
— Assim que nos contar o que fez com a heroína... — disse outro.
— Ou seria coca? — E daí a coisa começou de novo: uma vez e outra e só
Deus sabia onde ia parar.
Dez minutos mais tarde — dez minutos muito longos — Roland vol-
tou de repente à sua cabeça. De um instante para o outro havia entrado em sua mente. Eddie sentiu que ele estava profundamente exausto.
Fez o que tinha de fazer?, perguntou.
Sim. Desculpe se demorou tanto tempo. Uma pausa. Tive de me arrastar. Eddie olhou de novo ao redor. A porta tinha voltado, mas agora oferecia
uma vista ligeiramente diferente daquele mundo e ele percebeu que, ao mesmo
tempo em que se movia com ele aqui, a porta se movia com Roland lá. A idéia o fez estremecer um pouco. Era como ter sido amarrado àquele outro por algum estranho cordão umbilical. O corpo do pistoleiro estava caído na frente da porta
como antes, mas agora ele podia ver uma longa extensão de praia até a linha recortada da maré alta, por onde os monstros perambulavam, rosnando e zumbindo. Cada vez que uma onda quebrava, todos levantavam as garras.
Lembravam as massas humanas naqueles velhos documentários onde Hitler falava e todos faziam a célebre saudação do seig heil!, como se suas vidas dependessem disso... o que provavelmente era verdade, se pensarmos melhor
no assunto. Eddie pôde ver as torturadas marcas do avanço do pistoleiro na areia
.
Enquanto Eddie observava, um dos horrores se empinou, rápido como
relâmpago, e agarrou um pássaro marinho que esvoaçara perto demais da
praia. O corpo caiu na areia em dois pedaços, pulverizando sangue. As partes foram cobertas pelos horrores de carapaça antes mesmo que tives-
sem parado de se contorcer. Uma única pena branca subiu no ar. Uma garra puxou-a para baixo.
Pelo amor de Deus, Eddie pensou atônito. Olhe esses bichos. — Por que continua olhando para trás? — havia perguntado o cara
que chefiava a turma.
— De vez em quando preciso de um antídoto — disse Eddie. — Contra o quê?
— A sua cara.
O motorista deixou Eddie no prédio em Co-Op City, agradeceu pela gor-
jeta de um dólar e foi embora. Eddie ficou um instante parado, a sacola com zíper numa das mãos, o paletó enganchado num dedo da outra e jogado sobre o ombro. Ali dividia um apartamento de dois quartos com
o irmão. Ficou parado olhando para o prédio, um monolito com todo o gosto e estilo de um muro de concreto. Eddie achava que as muitas janelas o deixavam parecido com o pavilhão de uma prisão e julgou a visão tão
deprimente quanto Roland — o outro — a julgou impressionante.
Nunca, mesmo quando criança, achei que um prédio pudesse chegar tão
alto, disse Roland. E há tantos como ele!