A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 20 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

deviam ter ocorrido mais de 16 meses…

deviam ter ocorrido mais de 16 meses atrás, eles haviam jurado solene-mente jamais se transformar) levava um calor.

Você diz que o cara foi fissurado, Henry respondera prontamente, e

logo ficara com cara de espanto, como fica uma pessoa quando o que disse foi muito mais engraçado do que achou que iria ser. Eles se olharam e de

repente estavam urrando de rir e agarrando o braço um do outro. Fissurado, muito engraçado, não tão engraçado agora.

Eddie subiu o corredor, passou pela cozinha em direção à frente do

avião, verificou o sinal — LIVRE — e abriu a porta.

Ei Henry, ó tremendo sábio & eminente grande irmão viciado, já que

estamos falando de duplo sentido, quer saber minha definição de pato frito? Pato é quando o cara da alfândega do aeroporto J.F. Kennedy chega à conclu-são de que tem alguma coisa meio gozada na sua cara ou quando é um daque-

les dias em que levam para lá e não para o porto os cachorros com nariz de doutor e todos começam a latir e a mijar no chão e ficam quase se estrangulan-do nas coleiras porque não conseguem alcançar você e depois dos caras da al-

fândega mexerem em toda a sua bagagem eles levam você para a salinha e perguntam se você não se importa de tirar a camisa e você diz claro, claro que sim, eu me importo pra cacete porque peguei um pequeno resfriado nas Bahamas

e o ar condicionado aqui dentro está forte demais e tenho medo que isso vire pneumonia e eles dizem ah mas que incrível, e o senhor sempre sua desse jeito quando o ar condicionado está alto demais, Sr. Dean, é mesmo, bem, desculpe

pra cacete e agora tire, e você tira e eles dizem que talvez fosse melhor tirar também a camiseta, porque está parecendo que você tem um problema médico

qualquer, amigão, esses inchaços embaixo dos sovacos quem sabe não são uma variedade dos tumores linfáticos ou coisa assim, e você nem esquenta em dizer mais nada, é como um meio-de-campo que já nem esquenta em pegar a bola

quando ela chega de um certo jeito, ele só vira pra trás e fica vendo a bola sumir, porque o que está feito, está feito, aí você tira a camiseta e ei, olhe aqui, você está com sorte garoto, não são tumores, a não ser que sejam o que podería-

mos chamar de tumores no corpus da sociedade, he he, essas coisas parecem mais um par de saquinhos colados aí com fita adesiva, e aliás não se preocupe com o cheiro, filho, é só cheiro de pato. Pato frito.

Ele pôs a mão para trás e puxou a tranca. A luz se acendeu sobre a

privada. O barulho dos motores era um zumbido baixo. Virou-se para o espelho, querendo ver até que ponto sua aparência estava ruim e de repente

uma sensação terrível, difusa, passou sobre ele: a sensação de estar sendo vigiado.

Ei, vamos lá, esqueça isso, pensou, um tanto nervoso. Acham que é o

sujeito menos paranóico do mundo. Foi por isso que o mandaram. Foi por isso...

Mas então pareceu que aqueles olhos no espelho não eram os seus,

não os olhos castanho-claros, quase verdes de Eddie Dean, os mesmos que derreteram tantos corações e lhe permitiram separar tantos lindos pares de

pernas durante a última terça parte de seus 21 anos, não os seus olhos, mas os olhos de um estranho. Não castanhos mas com um azul da cor de uma

calça Levis desbotada. Olhos frios, precisos, inesperados prodígios de mira. Olhos de artilheiro.

Refletida neles ele viu — viu claramente — uma gaivota mergulhan-

do sobre uma onda que rolava, pescando alguma coisa.

Teve tempo de pensar pelo amor de Deus o que é esta porra? e então

soube que o enjôo não ia passar; ele ia vomitar mesmo.

No meio segundo antes de fazê-lo, no meio segundo em que conti-

nuou a se olhar no espelho, viu aqueles olhos azuis desaparecerem... mas

antes disso acontecer teve a sensação de ser duas pessoas... de estar sendo possuído, como a menininha em O Exorcista.

Sentiu com clareza outra mente dentro da sua própria mente e ou-

viu um pensamento não como seu próprio pensamento, mas como a voz de um rádio: Atravessei. Estou na carruagem celeste.

Havia mais alguma coisa, mas Eddie não ouviu. Estava ocupado de-

mais vomitando o mais silenciosamente possível no vaso.

Quando acabou, antes mesmo de ter limpado a boca, aconteceu uma

coisa que nunca lhe acontecera antes. Por um momento assustador, não houve nada — só um intervalo vazio. Como se uma linha numa coluna de

jornal tivesse sido cuidadosa e completamente apagada.

O que é isto?, pensou Eddie indefeso. Que diabo é esta merda?

Então teve de vomitar de novo e talvez isso tenha sido ótimo. Por

mais críticas que se possa fazer ao ato de vomitar, ele tem pelo menos esse ponto a seu favor: enquanto se está vomitando não se consegue pensar em mais nada.