A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 133 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

— Acho que sim — respondeu Andrew, também falando baixo.

— Só está cansada. Cansada até a raiz dos cabelos.

Howard assentiu, pegou as maltratadas valises e começou a entrar.

Só parou para inclinar o boné para Odetta Holmes — que estava quase invisível atrás das vidraças de vidro fumê — numa saudação breve e

respeitosa.

Quando Howard desapareceu, Andrew tirou a plataforma dobrada

de aço inox do fundo da mala e começou a abri-la. Era uma cadeira de rodas.

Desde 19 de agosto de 1959, uns cinco anos e meio antes, a parte de

Odetta Holmes dos joelhos para baixo estava tão perdida quanto aquelas horas e dias vazios.

 

4

 

Antes do incidente no metrô, Detta Walker só algumas vezes tivera cons-

ciência de algo estranho — ocasiões como ilhas de coral que pareciam isoladas a quem nelas estivesse mas que eram, de fato, meros elos na espi-

nha de um comprido arquipélago em sua maior parte submerso. Na reali-dade, Odetta não suspeitava absolutamente de Detta e Detta não fazia a menor idéia da existência de alguém como Odetta... mas Detta tinha pelo

menos uma clara compreensão de que alguma coisa estava errada, que al-guém estava fodendo com sua vida. A imaginação de Odetta encarava como fantasias o que acontecia quando Detta tomava conta de seu corpo;

Detta não era tão sutil. Achava que se lembrava de coisas, de algumas coisas, pelo menos, mas grandes períodos de tempo lhe escapavam.

Detta era pelo menos parcialmente consciente dos brancos.

Conseguia se lembrar do prato de porcelana. Conseguia se lembrar

disso. Conseguia se lembrar de enfiá-lo no bolso do vestido, dar uma olhada sobre os ombros para ter certeza de que a Mulher de Azul não

estava lá, espiando. Tinha de ter certeza porque o prato de porcelana pertencia à Mulher de Azul. O prato de porcelana era, Detta percebia de uma forma vaga, muito especial. Por isso é que Detta o havia pegado. Ela

se lembrava de levá-lo para um lugar que chamava (embora não soubesse por que chamava) de O Estreito, um enfumaçado buraco cheio de lixo

onde um dia vira um bebê com pele de plástico que pegava fogo. Lembrava-se de ter depositado cuidadosamente o prato no cascalho do solo e depois começado a pisar nele e parado, lembrava-se de ter tirado a

calcinha feia de algodão e a colocado no bolso onde o prato estivera e depois, cuidadosamente, de ter feito deslizar o primeiro dedo da mão esquerda cuidadosamente para dentro da fenda que tinha porque o Velho

Deus Estúpido tinha juntado a ela e a todas as outras moças e mulheres de forma imperfeita, ainda que alguma coisa envolvendo aquele lugar tivesse de estar certa porque ela se lembrava do tremor, se lembrava da

vontade de pressionar, se lembrava de não pressionar, se lembrava de como sua vagina ficara deliciosa nua, sem a calcinha de algodão no caminho entre ela e o mundo, e Detta não havia pressionado, não até o

sapato apertar, o sapato de couro preto, não até o sapato fazer pressão sobre o prato, então ela fez pressão na fenda com o dedo do modo como

seu pé estava pressionando o prato de porcelana muito especial da Mulher de Azul, ela se lembrava do modo como o sapato de couro preto cobriu o

delicado rendilhado azul na beirada do prato, ela se lembrava da pressão, sim, ela se lembrava de pressionar no Estreito, pressionar com dedo e pé, lembrava-se da deliciosa promessa de dedo e fenda, lembrava-se que,

quando o prato estalou com um estalo nervoso e triste, um prazer igualmente nervoso tinha subido como uma flecha, partindo daquele corte

em suas entranhas, e ela se lembrava do grito que irrompera de seus lábios, um desagradável grasnar, como o barulho de um corvo afugentado de um milharal, e ela se lembrava de ficar olhando estupidamente para os

cacos do prato e depois tirar devagarinho a feia calcinha de algodão branco do bolso do vestido e tornar a vesti-la, brincadeiras, assim ouvira chamarem essas coisas em algum momento desalojado de sua memória,

recordações rolando livres como torrões de terra e pedaços de mato numa enchente, brincadeiras, bom, porque primeiro você dá um passo para fora e faz o que tem de fazer e depois você volta, dá um passo para dentro,

primeiro com um sapato de couro brilhante e genuíno, depois com outro, bom, as calcinhas eram boas, ela podia se lembrar tão claramente de puxá-las pernas acima, fazendo-as passar pelos joelhos, uma casca de

ferida no joelho esquerdo quase pronta a cair e a deixar um rosado limpo, parecido com a pele nova de um bebê, sim, conseguia se lembrar tão claramente que poderia não ter sido há uma semana ou ontem, mas no

instante anterior, podia lembrar como a cintura da saia tinha se juntado à bainha do seu vestido de festa, o nítido contraste do algodão branco contra a pele escura, como creme, sim, como isso, como creme de uma jarra

sobre café, a textura, a calcinha desaparecendo sob o contorno do vestido, só que o vestido já era de um alaranjado ouro e a calcinha não estava

subindo mas descendo, embora ainda fosse branca, mas não de algodão, era de náilon, calcinhas baratas e transparentes de náilon, baratas em mais de um sentido, e ela se lembrava de tirá-las, se lembrava de como o

tecido cintilava sob a luz do teto do Dodge DeSoto 46, sim, como era branca, como era barata, não algo honrado com o título de lingerie, mas calcinhas baratas, a moça era barata e era bom ser barata, bom estar em

liquidação, estar à disposição não exatamente como uma puta, mas como uma boa leitoa; ela se lembrava não do redondo prato de porcelana, mas do rosto redondo e branco de um garoto, um universitário de porre com

cara de espanto, ele não era um prato de porcelana mas sua cara era tão redonda quanto fora o prato de porcelana da Mulher de Azul, e havia rendilhados no rosto dele, e o rendilhado parecia tão azul quanto fora o

rendilhado no prato de porcelana muito especial da Mulher de Azul, mas isso só acontecia porque o neon era vermelho, o neon era berrante, no escuro o neon do letreiro do bar na beira da estrada fazia o sangue nos

pontos da cara dele onde Detta o arranhara parecerem azuis, e ele tinha dito por que você fez isso por que você fez isso por que você fez isso, e

então abriu a janela para pôr a cara do lado de fora e vomitar e ela se lembrou de estar ouvindo Dodie Stevens no jukebox cantando sobre sapatos amarelos com laços cor-de-rosa e sobre um grande chapéu

Panamá com uma fita roxa, ela se lembrava que o barulho do vômito do rapaz era como brita num misturador de cimento, e seu pênis, que pouco

antes fora um lívido ponto de exclamação brotando do emaranhado de tufos de seus pêlos pubianos, estava desmoronado num débil e branco

ponto de interrogação; ela se lembrava dos ásperos ruídos de cascalho de seu vômito parando e depois começando de novo e ela pensou bem acho que ele ainda não fez o bastante para afetar os alicerces desta casa e

rindo e pressionando o dedo (que agora vinha equipado com uma unha comprida) em sua vagina que estava nua mas não de todo nua porque

bem coberta de um grosso e agreste emaranhado de pêlos, e então o mesmo estalo nervoso irrompera dentro dela, o que foi tão doloroso quanto gostoso (melhor, muito melhor que nada), e então ele estava

estendendo cegamente os braços para ela e dizendo num tom ferido e entrecortado ah sua maldita boceta negra e ela continuava rindo do mesmo jeito, esquivando-se facilmente dele e puxando a calcinha e

abrindo a porta do seu lado do carro, sentindo as últimas batidas cegas dos dedos dele nas costas de sua blusa e correndo para uma noite de maio perfumada das primeiras madressilvas, e a luz do neon rosa-

avermelhado salpicando o cascalho de algum estacionamento do pós-guerra, e ela socando a calcinha, a barata e lisa calcinha de náilon socada não no bolso do vestido mas numa bolsa coalhada de uma animada

coleção de cosméticos de adolescente, ela corria, a luz tremia, e então ela estava com 23 e não era uma calcinha mas um cachecol de raiom, e ela o foi introduzindo distraidamente na bolsa enquanto ultrapassava um balcão

em uma das seções da Macy's - um cachecol vendido na época por 1,99.Vagabundo.

Vagabunda como a calcinha branca de náilon.

Vagabunda.

Como ela.

O corpo que ela habitava era o de uma mulher que tinha herdado

milhões, mas ela não sabia disso e pouco importava — o cachecol era branco, a borda azul e aquela mesma pequena sensação de prazer irrompeu

quando ela se sentou no banco traseiro do táxi e, esquecida do motorista, segurou o cachecol numa das mãos, olhou-o fixamente e deixou a outra mão deslizar sob a saia de tweed, por baixo do elástico da calcinha branca

até aquele comprido dedo escuro cuidar do assunto que precisava ser cui-dado num movimento simples e decidido.

Então às vezes ela se perguntava, com um jeito meio distraído, onde

estava quando não estava ali, mas em geral suas necessidades eram dema-siado repentinas e urgentes para dar espaço a qualquer reflexão mais pro-funda; ela simplesmente preenchia o que precisava ser preenchido, fazia o

que precisava ser feito.

Roland teria compreendido.