A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Na verdade, é tu quem parece…
— Na verdade, é tu quem parece que tá cumpletamente liquidado
— Detta observou. — Tu parece doente, otário. Num acho que teje
pronto pruma viagem cumprida. Num acho que teje pronto pra nada desse tipo.
Eddie examinou os controles rudimentares da cadeira. Tinha um
freio de mão de emergência que brecava as duas rodas. Detta havia pousado
ali a mão direita, esperado pacientemente até Eddie ganhar velocidade e então puxara com força o freio, se derrubando junto com a cadeira. Por quê? Para retardar a marcha, só isso. Não havia razão para fazer uma
coisa dessas, mas uma mulher como Detta, pensou Eddie, não precisava de motivos. Uma mulher como Detta estava sempre perfeitamente disposta a fazer coisas por pura maldade.
Roland afrouxou um pouco os laços para o sangue fluir mais livre-
mente, depois amarrou-lhe a mão com firmeza, longe do freio.
— Não tem problema, Senhor Homem — disse Detta, mostrando
um sorriso brilhante com uma infinidade de dentes. — Mesmo assim não tem problema nenhum. Há outros meios de atrasar vocês. Todo tipo de meios.
— Vamos — disse o pistoleiro com uma voz sem entonação.
— Tudo bem com você, cara? — perguntou Eddie. O pistoleiro
parecia muito pálido.
— Tudo. Vamos.
Recomeçaram a caminhada praia acima.
10
O pistoleiro insistiu em empurrar por uma hora e Eddie cedeu com relu-
tância. Roland conseguiu fazer a cadeira atravessar bem a primeira fenda na areia, mas na segunda Eddie teve de interferir e ajudar a
puxar. O pistoleiro estava com falta de ar e o suor lhe corria pela testa
em gotas enormes.
Eddie deixou-o seguir um pouco mais e Roland contornava habilidosamente os pontos onde a areia, solta, poderia fazer as rodas
atolarem. Mesmo assim a cadeira acabou atolando de novo. Eddie não ficou muito tempo parado vendo Roland lutar para liberá-la, ofegante, o
peito ondulando, enquanto a bruxa (pois era como Eddie passara a pensar nela) uivava de rir e atirava o corpo para trás, tornando a tarefa bem mais difícil... Eddie, então, empurrou o pistoleiro com os ombros e
puxou a cadeira com um movimento irritado e brusco. A cadeira ainda oscilava e Eddie viu como Detta se deslocava para a frente o máximo que as cordas permitiam, o que fazia com estranha precisão, em cada
momento adequado, tentando novamente se derrubar.
Ajudado por Eddie, Roland atirou todo o seu peso nas costas da
cadeira e conseguiu equilibrá-la.
Detta olhou para o lado e deu-lhes uma piscadela. Aquilo sugeria
uma conspiração tão obscena que Eddie sentiu os braços ondularem com
um arrepio.
— Cês quasi mi derrubaram di novo, rapazes — disse ela. —
Esperava que me dessem mais atenção. Sou apenas uma velha senhora
inválida e cês mi devem um certo cuidado.
Ela riu... pareceu que ia explodir de rir.
Embora Eddie se importasse com a mulher que era a outra parte dela
— já estava quase apaixonado por Odetta, apesar do breve tempo em que
a vira e conversara com ela —, sentiu as mãos tentadas a se aproximarem
daquela traquéia para sufocar aquele riso, sufocar até que Detta ficasse
para sempre impossibilitada de rir.
Ela tornou a espreitar em volta, percebeu o que Eddie estava pensan-
do como se a coisa estivesse impressa na testa dele com tinha vermelha e
riu ainda mais alto. Seus olhos o desafiavam. Vá em frente, otário. Vá em
frente. Não quer fazer isso? Vá em frente e faça.
Em outras palavras, não fique apenas empurrando a cadeira; empurre a
mulher, pensou Eddie. Derrube-a para sempre. E o que ela quer. Ser morta
por um homem branco talvez seja o único objetivo real da vida de Detta.
— Vamos lá — disse ele, começando de novo a empurrar. —
Continuamos nosso tour pela beira-mar, doçura, quer você goste ou não.
— Vá se foder — cuspiu ela.
— Cale a boca, querida — respondeu Eddie num tom amável. O pistoleiro caminhava ao lado dele, de cabeça baixa.