A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Como está se sentindo? — perguntou…
— Como está se sentindo? — perguntou em voz baixa. A Dama
ainda dormia em sua teia de cordas, embora ocasionalmente estremecesse,
murmurando e gemendo.
— Bem.
Eddie lançou-lhe um olhar de avaliação.
— Não parece de todo bem.
— Obrigado pelo interesse, Eddie — disse secamente o pistoleiro. — Você está tremendo.
— Vai passar.
A Dama deu um tranco e tornou a murmurar... dessa vez com uma
palavra que foi quase compreensível. Talvez fosse Oxford.
— Meu Deus, acho terrível vê-la amarrada desse jeito — murmurou
Eddie. — Como um bezerro bravo num curral.
— Logo ela vai acordar. Talvez então possamos soltá-la. Era a maneira mais lógica de um ou outro manifestar em voz alta a
esperança de que, quando a mulher na cadeira abrisse os olhos, fossem agraci-ados pelo olhar calmo, mesmo que ligeiramente confuso, de Odetta Holmes.
Quinze minutos mais tarde, quando os primeiros raios do sol desce-
ram sobre as colinas, aqueles olhos de fato se abriram — mas o que os homens viram não foi o olhar calmo de Odetta Holmes, mas o esgazeado louco de Detta Walker.
— Quantas vez me estupraram enquanto eu tava apagada? —
perguntou ela. — Minha boceta parece toda lisa e sebosa, como se alguém
tivesse entrado lá cum as duas velinhas brancas que cês putos otários
chamam de paus.
Roland suspirou.
— Bem, vamos em frente — disse ele, ficando de pé com uma careta. — Não vou a lugar nenhum com tu, puto — cuspiu Detta. — Ah, vai sim — disse Eddie. — Sinto tremendamente, minha que-
rida, mas vai.
— Onde acha que eu vou?
Bem — disse Eddie —, o que estava atrás da Porta Número Um era
quase terrível e o que estava atrás da Porta Número Dois era ainda pior,
e agora, em vez de irmos embora como pessoas sensatas, vamos em
frente, dar uma olhada na Porta Número Três. Do jeito que estão as
coisas, é claro, podemos encontrar alguma coisa tipo Godzilla, ou Ghidra,
monstro das Três Cabeças, mas estou otimista. Ainda estou esperando
que a gente encontre janelas de aço inox.
— Eu não vou.
— É claro que vai — disse Eddie, indo para trás da cadeira. Ela
começou de novo a se debater, mas os nós que o pistoleiro fizera eram
resistentes e os movimentos só serviam para apertá-los ainda mais. Bem
depressa ela percebeu isso e parou. A Dama era cheia de veneno, mas
estava longe de ser estúpida. E olhou pelo ombro com um sorriso que fez
Eddie recuar um pouco. Ele considerou aquilo a mais maléfica expressão
que já vira num rosto humano.
— Bem, talvez eu vá, de uma certa maneira... — disse ela —, mas
não tão longe quanto tu acha, garoto branco. E claro, só Deus sabe, não
tão rápido quanto espera.
— O que está querendo dizer?
De novo aquele olhar malicioso, sobre os ombros.
— Tu vai descobrir, garoto branco. — Os olhos dela, loucos mas
convincentes, se deslocaram brevemente para o pistoleiro. — E tu aí vai
descobrir antes dele.
Eddie pôs as mãos em volta dos guidons de bicicleta que brotavam
de duas alças metálicas atrás da cadeira de rodas e começou de novo a
rumar para o norte, deixando agora para trás, enquanto subiam pela praia
aparentemente interminável, não apenas pegadas, mas os dois sulcos para-
lelos da cadeira da Dama.
O dia foi um pesadelo.
É difícil calcular a distância quando a pessoa viaja por uma paisagem
que varia muito pouco, mas Eddie sabia que o avanço deles estava agora
submetido à velocidade de um rastejar.
E sabia quem era o responsável por isso.
Ah, sabia.
Tu vai descobrir antes dele, dissera Detta para o pistoleiro, mas com
cerca de meia hora de avanço os dois descobriram ao mesmo tempo.