A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Queria que Eddie tivesse enfiado aquela faca…
Queria que Eddie tivesse enfiado aquela faca na garganta do Ho-
mem Realmente Mau! Melhor que ver a matança de um porco! Muito
melhor!
Ele não enfiara a faca, mas Odetta tinha visto como estava o corpo
do Homem Realmente Mau. Ainda respirava, mas corpo era um exagero; tratava-se apenas de uma coisa imprestável, como um saco de aniagem
jogado fora, um saco entupido de mato ou espigas de milho por algum idiota.
A mente de Detta podia ser feia como o cu de um rato, mas era
mais ágil e mais esperta que a de Eddie. O Homem Realmente Mau costu-mava tá sempre preparado pru bote. Agora já não. Sabe que tô cá em cima e num que fazer nada a num sê puxa o carro antes que eu desça e dê um tiro
no seu cu. Mas o parceirozinho... ele ainda se sente bastante forte e acha que ainda não deu as porradas que eu merecia. Qué subi té aqui e me obrigá a descer, num interessa se o Homem Realmente Mau qué ou num qué. Claro.
Ele pensa: uma rameira negra sem pernas não é páreo prum sujeito porreta e matreiro como eu. Num quero que ela fuja. Quero fazê aquela preta descer rapidinho. Dou-lhe um murro ou dois, depois faço o que o home tá
querendo. É isso que ele tá pensando e num pudia sê de outro jeito. Vai sê como você tá pedindo, puto. Tu acha que pode pegá Detta Walker, acha que é fácil subir aqui nesses Estreitos e dá um apertão nela. Tu vai
descobrir quando estivé fodendo comigo, vai tá fodendo com o melhor, ô pote de merda! Tu vai descobrir...
Mas ela foi sacudida do caminho de rato daqueles pensamentos por
um barulho que ouviu nitidamente, apesar da quebrada das ondas e do
vento: era o forte estampido de um tiro de revólver.
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— Acho que você entende melhor do que quer me fazer acreditar — disse Eddie. — Realmente muitíssimo melhor. Quer que eu chegue mais perto para poder me agarrar, é o que eu penso. — Sacudiu a cabeça para a porta
sem tirar os olhos do rosto de Roland. Inconsciente de que não longe dali alguém estava tendo pensamentos semelhantes, acrescentou: — Sei que está doente, tudo bem, mas pode estar fingindo estar muito mais fraco do
que realmente está. Quem sabe não está pronto para a qualquer momento saltar do meio da moita.
— Quem sabe... — disse Roland, sem sorrir, e continuou: — Mas
não estou.
Mas estava... um pouco.
— Acho que sou capaz pelo menos de dar alguns passos, percebe? —
disse Roland. — O que não vou conseguir é continuar gritando. — A última sílaba se converteu num grasnido de rã como para comprovar o
que ele estava dizendo. — E preciso fazê-lo pensar no que está fazendo... ou planejando fazer. Se não puder convencê-lo a seguir comigo, talvez possa pelo menos colocá-lo novamente... de guarda.
— Em nome de sua preciosa Torre — zombou Eddie, mas desceu
uns metros da encosta que havia subido, os tênis rasgados chutando monótonas nuvens de poeira vermelha.
— Em nome de minha preciosa Torre e de sua preciosa saúde —
disse o pistoleiro. — Para não mencionar sua preciosa vida.
Tirou do coldre esquerdo o revólver que sobrava. Contemplou a arma
com uma expressão ao mesmo tempo triste e estranha.
— Se acha que pode me assustar com isso...
— Não acho. Você sabe que eu não atiraria em você, Eddie. Mas
acho que realmente precisa de uma lição objetiva para perceber que as
coisas mudaram. Para perceber o quanto mudaram.
Roland ergueu o revólver, a boca da arma apontando não para Eddie,
mas para a vastidão do oceano encapelado, e puxou o gatilho. Eddie ficou
paralisado com o forte estampido.
Não, nenhum estampido. Só um clique surdo.
Roland tornou a engatilhar. O cilindro girou. Apertou o gatilho e de
novo houve somente um clique surdo.
— Não insista — disse Eddie. — No lugar de onde eu vim, não iriam
contratá-lo para trabalhar no Ministério da Defesa. Se bem que você
poderia...
Mas o pesado KA-BLAM do revólver cortou o final da frase tão
vigorosamente quanto Roland cortava pequenos galhos de árvores
como exercício de tiro nos tempos de estudante. Eddie deu um pulo. O disparo abafou por um momento o constante ríiiiii dos insetos nas
colinas. Eles só recuperaram a afinação aos poucos, de forma cautelosa, e após Roland ter pousado o revólver no colo.
— Que diabo está querendo provar com isso? — perguntou
Eddie.
— Acho que tudo depende do que você ouve e do que se
recusa a ouvir — disse Roland um tanto asperamente. — Tentei
provar que nem todas as balas falham. Por conseguinte, isso sugere... sugere enfaticamente... que algumas, talvez todas as
balas no revólver que você deu a Odetta
— Podem estar boas. Besteira! — Eddie fez uma pausa. —
Por que está me dizendo
isso?
— Porque carreguei o revólver que acabei de usar com balas
retiradas da parte de trás da cartucheira... isto é, as que ficaram mais molhadas. Fiz isso para passar o tempo enquanto estava sozinho.
Claro que carregar um revólver não ocupa muito tempo, mesmo sem um par de dedos! — Roland deu uma risada curta e o riso se
converteu numa tosse que ele amordaçou com a ponta do punho fechado. Quando a tosse cedeu, ele continuou: — Só que depois de tentar atirar com as molhadas, você tem de dar uma parada e
limpar a arma. Façam uma pausa, limpem a arma, seus vermes... era a primeira coisa que Cort, nosso mestre, martelava nas nossas cabeças. Eu não sabia quanto tempo iria levar para desmontar meu revólver, limpar e
tornar a montar com apenas uma mão e meia, mas achei que se pretendes se continuar vivo... e pretendo, Eddie, pretendo... teria de fazer isso. Aprender a fazer e depois aprender a fazer mais rápido, não está
entendendo? Chegue um pouco mais perto, Eddie! Chegue um pouco
mais perto pelo amor que teve a seu pai!
— Mais perto, minha filha, para eu poder enxergá-la melhor — disse
Eddie, mas deu alguns passos em direção a Roland. Só alguns.
— Quando puxei o gatilho e a primeira bala utilizável detonou, quase
molhei a calça — disse o pistoleiro. Ele riu de novo. Chocado, Eddie
achou que o pistoleiro havia atingido a beira do delírio. — A primeira, mas acredite, era a última coisa que eu achei que pudesse acontecer.
Eddie tentava avaliar se o pistoleiro estava mentindo, mentindo
sobre as balas, a limpeza da arma ou sobre seu verdadeiro estado de
saúde. Estava mal, claro. Mas estaria realmente assim tão mal? Eddie
não sabia. Se Roland estava fingindo sem dúvida fazia um ótimo
trabalho; quanto ao revólver e às balas, Eddie não podia dizer nada
porque não tinha experiência com eles. Tinha detonado um revólver
talvez três vezes em toda a sua vida antes de se ver no meio daquele
tiroteio no estabelecimento de Balazar. Henry poderia dizer alguma coisa
a respeito, mas Henry estava morto — um pensamento que de vez em
quando ainda assaltava sua cabeça e o mergulhava na tristeza.
— Nenhuma das outras balas disparou — disse o pistoleiro. —
Então limpei a arma, recarreguei e disparei de novo todo o tambor. E
dessa vez usei as balas que estavam um pouco mais perto da fivela do
cinturão. Balas que não tinham chegado a levar um banho completo.
Parte da munição que usamos para caçar nossa comida, a munição que
parecia seca e que estava, como eu disse, mais perto da área da fivela.
Deu uma parada para abafar a tosse com a mão, depois continuou.
— Nessa segunda virada do tambor consegui disparar duas balas.
Abri de novo o revólver, limpei-o e carreguei uma terceira vez. Você
acabou de me ver apertar o gatilho nas primeiras três balas dessa
terceira carga. — Sorriu com um ar de desânimo. — Você sabe, depois
dos primeiros dois cliques achei que tivesse exagerado em encher o
tambor apenas com balas molhadas. Nenhuma delas detonaria e eu não
lhe provaria nada. Não pode chegar um pouco mais perto, Eddie?
— Não me provaria nada... — disse Eddie. — Bem, acho que cheguei
o mais perto que dava para chegar, certo? Que lição acha que eu deveria tirar
de tudo isso, Roland?
Roland se virou para ele como se estivesse olhando para um imbecil.
— Eu não trouxe você até aqui para morrer, você sabe disso. Não
trouxe nenhum dos dois para morrer. Pelos deuses, Eddie, onde estão seus
miolos? Ela está nos esperando como uma bola de fogo Mesmo balas
molhadas podem disparar! — Os olhos se estreitaram sobre Eddie. —
Ela está em algum lugar lá em cima, naquela colinas. Talvez você esteja
pensando em seguir as pegadas dela, mas não vai haver absolutamente
nenhuma pegada se o terreno for tão pedregoso quanto está parecendo
daqui. Ela está de tocaia lá em cima, Eddie, não Odetta mas Detta, de
tocaia como uma bola de fogo. E se eu deixar você ir atrás dela, Detta vai
detonar suas tripas e puxá-las pelo seu cu.
Outro acesso de tosse tomou conta dele.
Eddie contemplou aquele homem tossindo na cadeira de rodas en-
quanto as ondas rugiam e o vento, como um idiota, soprava sua única
nota. Por fim ouviu a própria voz dizendo:
— Você poderia ter guardado uma bala que soubesse que estava boa.
Não ponho a mão no fogo por você. — E Eddie percebeu que estava
dizendo a verdade: não poria a mão no fogo por Roland com relação a
absolutamente nada.
Sua Torre.
Sua amaldiçoada Torre.
E a astúcia de encaixar uma bala utilizável no terceiro cilindro! Ela
fornecia o toque exato de realismo, não é? Tornava difícil não acreditar.
— Temos um ditado no meu mundo — disse Eddie. — Diz assim:
"Há gente capaz de vender geladeiras aos esquimós."
— O que isso significa exatamente?
— Significa ser capaz de armar qualquer coisa.
O pistoleiro ficou um bom tempo a olhá-lo e então aquiesceu.
— Você quer ficar. Tudo bem. Como Detta, ela está mais protegida
de... de qualquer vida selvagem que possa haver por essas bandas... Mais
protegida do que na pele de Odetta e você, sem dúvida, fica mais protegi-
do longe dela... pelo menos por enquanto... Bem, sei como são as coisas;
acho terrível, mas não se deve discutir com um maluco.
— Está me dizendo — disse Eddie num tom polido — que ninguém
jamais tentou discutir com você o caso dessa Torre Negra que parece tão
determinado a alcançar?
Roland sorriu com ar cansado.
— Na realidade muitos já tentaram. Por isso mesmo estou achando
que não vou conseguir fazê-lo mudar de idéia. Um maluco reconhece
outro. Seja como for, estou fraco demais para impedi-lo de fazer qualquer
coisa e você, obviamente, está desconfiado demais para chegar mais perto
de mim, onde eu poderia agarrá-lo. Acho que nem temos tempo de
continuar nesta discussão. Tudo que posso fazer é torcer para que
nada lhe
aconteça. Mas vou recomendar pela última vez antes de lhe virar as costas,
Eddie, e quero que me escute: fique sempre de olho.