A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Podia não ver mas mesmo assim sentiu…
Podia não ver mas mesmo assim sentiu a brancura dele. As pessoas olhavam em volta. A gerente viu a mulher gritando na
cadeira de rodas com a bolsa aberta, viu a mão imobilizada no ato de enfiar a bijuteria numa bolsa que parecia (mesmo de uma distância de dez metros) valer três vezes a coisa que estava sendo roubada.
A gerente gritou "Ei, Jimmy!" e Jimmy Halvorsen, um dos seguranças da
Macy's, virou a cabeça e viu o que estava acontecendo. Começou a se dirigir
para a mulher negra na cadeira de rodas numa corrida desnecessária. Não pôde deixar de correr — fora policial urbano durante 18 anos e estava condi-cionado pelo sistema —, mas tinha certeza que aquilo daria numa bela merda.
Crianças pequenas, deficientes, freiras... tudo isso dava numa bela e completa merda. Mexer com eles era como tocar um tambor. Elas gritavam um pouco na frente do juiz e depois saíam. Era difícil convencer os jurados que deficien-
tes físicos também podiam agir de maneira suja.
Mas mesmo assim ele correu.
Roland ficou momentaneamente horrorizado pela cova brutal de raiva e revulsão em que estava mergulhado... e então ouviu a mulher gritando, viu o sujeito grande com a barriga de saco de batata correndo em sua
direção, reparou como as pessoas olhavam e assumiu o controle.
De repente ele era a mulher com as mãos escuras. Sentiu uma estra-
nha dualidade, mas não pôde refletir sobre isso naquele momento.
Virou a cadeira e começou a empurrá-la para a frente. O corredor
passava correndo por ele/ela. As pessoas se desviavam para um lado ou
para o outro. A bolsa foi perdida, derramando os documentos de Detta e o tesouro roubado, fazendo com eles uma longa trilha pelo chão. O ho-mem com a grande barriga escorregou em falsas correntes de ouro, tubos
de batom e caiu de bunda no chão.
7
Merda!, pensou Halvorsen furioso e, por um momento, sua mão entrou sob o casaco esporte, onde havia um 38 num coldre preso ao ombro.