A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 245 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

— Para portar escondida?

— É.

— É uma arma registrada? — perguntou O'Mearah. — É, não é? — Bem... De repente esqueci.

— Talvez já tenha sido de um cara pesado, e você esqueceu isso também.

— Vá se foder. Vou ligar para o meu advogado.

Johnny Gordo começou a se virar. Delevan o agarrou.

— E vai sobrar sempre a questão de saber se está ou não autorizado a

ocultar uma arma mortal num clipe de mola — disse ele no mesmo tom

suave, ronronante. — É uma questão interessante porque pelo que sei a

prefeitura de Nova York não emite esse tipo de autorização.

Os tiras olhavam para Johnny Gordo; Johnny Gordo também os

olhava. Assim, ninguém reparou quando Roland virou a tabuleta pendu-

rada na porta de ABERTO para FECHADO.

— Talvez possamos dar um jeito na coisa se conseguirmos achar a

carteira do cavalheiro — disse O'Mearah. O próprio Satã não teria

mentido com tão genial poder de persuasão. — Talvez ele apenas a

tenha deixado cair, sabe como é.

— Eu já disse! Não sei nada sobre a carteira do cara! Parem de pensar

com a cabeça dele!

Roland se abaixou.

— Está aqui — avisou ele. — Acabei de ver. Ele está com o pé em cima.

Não era verdade, mas Delevan, cuja mão ainda estava no ombro de

Johnny Gordo, empurrou o homem tão rapidamente que ficou impossí-

vel dizer se o pé dele tinha ou não estado lá.

Só podia ser naquele momento. Roland avançou furtivamente quan-

do os dois pistoleiros se curvaram para olhar debaixo do balcão. Como

um estava ao lado do outro, os dois abaixaram as cabeças ao mesmo tempo.

A mão direita de O'Mearah continuava segurando com a mão direita o

revólver que o balconista guardava debaixo do balcão.

— Porra, está aqui! — disse Delevan num tom agitado. — Estou

vendo!

Roland olhou de relance para o homem que chamavam de Johnny

Gordo. Queria se certificar de que ele não criaria problemas. Mas

Johnny estava imóvel, encostado na parede — na realidade empurrando

o corpo para trás, como se quisesse empurrar a si mesmo através da

parede. As mãos pendiam inertes do lado do corpo e os olhos se

arregalavam como grandes Ahs de exclamação. Parecia um homem se

perguntando por que seu horóscopo não o mandara tomar cuidado com

aquele dia. Nenhum problema ali.

— Sim!— disse 0'Mearah num tom de vitória. Com as mãos nos

joelhos, os dois espiavam embaixo do balcão. Agora a mão de O'Mearah

deixava o joelho e se estendia para agarrar a carteira. — Estou vendo, es...

Roland deu um último passo para a frente. Agarrou a bochecha di-

reita de Delevan com uma das mãos, a bochecha esquerda de 0'Mearah

com a outra e, de repente, um dia que Johnny Gordo Holden acreditava

já ter sido arrasador ficou muito pior. A assombração de terno azul bateu as

cabeças dos policiais uma contra a outra com força suficiente para produ-zir o barulho de uma colisão de rochas enroladas em feltro.

Os policiais caíram formando um monte. O homem de óculos de

aro dourado ficou em pé. Apontava para Johnny Gordo o Magnum 357.

O tamanho do cano parecia suficiente para mandar um foguete à Lua.

— Não vamos ter mais nenhum problema, não é? — perguntou a

assombração com sua voz letal.

— Não senhor — disse de imediato Johnny Gordo —, absoluta

mente nenhum.

— Fique aí parado. Se seu cu perder contato com essa parede, você

vai perder contato com a vida que sempre conheceu. Está entendendo?

— Sim senhor — disse Johnny Gordo —, entendi muito bem.

— Bom.

Roland empurrou os dois tiras para o lado. Continuavam vivos, o

que era bom. Por mais molengas e desatentos que fossem, não deixavam

de ser pistoleiros, homens que haviam tentado ajudar um estranho em

apuros. Não sentia qualquer ímpeto de liquidar seus pares.

Mas já fizera isso, não é? Sim. Alain, um de seus irmãos de armas, não

tinha sido morto pelos revólveres fumegantes de Roland e Cuthbert?

Sem tirar os olhos do balconista, ele tateou embaixo do balcão com a

ponta do mocassim Gucci de Jack Mort. Sentiu a carteira. Chutou-a. Ela

saiu girando de baixo do balcão para o lado do balconista. Johnny Gordo

deu um salto e soltou um grito estridente, como uma menina tola vendo

um camundongo. Seu cu na realidade perdeu de fato contato com a

parede por um momento, mas o pistoleiro deixou passar. Não tinha

intenção de pôr uma bala naquele homem. Poderia no máximo usar a

coronha do revólver para deixá-lo desacordado, não atirar nele. Até porque

um revólver de tamanho tão absurdo provavelmente atrairia metade da

vizinhança.

— Pegue a carteira — disse o pistoleiro. — Devagar.

Johnny Gordo estendeu a mão e, quando agarrou a carteira, soltou

um peido alto e gritou. Com uma certa vontade de rir, o pistoleiro perce-

beu que acabara de confundir o som daquele peido com um tiro e, por um

segundo, achara que sua vez de morrer havia chegado.

Ao se levantar, Johnny Gordo estava tremendamente vermelho. Ti-

nha uma grande mancha molhada na frente das calças.

— Ponha a bolsa no balcão. Quero dizer, a carteira.

Johnny Gordo obedeceu.

— Agora as balas. Winchester 45. E quero ver suas mãos a cada

segundo.

— Vou ter de enfiar uma das mãos no bolso. Para pegar a chave.

Roland concordou com um movimento de cabeça.

Quando Johnny Gordo destrancou e puxou a porta de correr do

mostruário onde havia uma pilha de caixas de balas, Roland ficou um

instante pensativo.

— Me dê quatro caixas — disse por fim. Achava difícil que fosse

precisar de tantas balas, mas era impossível resistir à tentação de possuí-las.

Johnny Gordo pôs as caixas no balcão. Roland abriu uma delas, ain-

da achando difícil acreditar que aquilo não fosse uma piada, uma tapea-

ção. Mas eram balas, sem dúvida. Limpas, brilhantes, sem marcas, jamais

usadas, jamais disparadas, jamais colocadas num tambor. Suspendeu uma

contra a luz e tornou a colocá-la na caixa.

— Agora me dê um par desses aros para o pulso.

— Aros?

O pistoleiro consultou o arquivo Mort.

— Algemas.

— Não sei o que o senhor está querendo. A caixa registradora está...