A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Johnny Cash — Henry respondeu.
— Ai, meu Deus! — Tricks Postino gritou. — É a resposta que você
dá pra tudo! Johnny Cash, é a porra da resposta que você dá pra tudo!
— Johnny Cash é tudo — replicou Henry com gravidade e houve
um instante de silêncio palpável ante o inesperado da resposta... Depois
uma chocalhante explosão de riso, não apenas dos homens que estavam
ali, com Henry, mas dos outros dois "cavalheiros" sentados na despensa.
— Quer que eu feche a porta, Sr. Balazar? — perguntou Cimi em
voz baixa.
— Não, está bem assim — disse Balazar. Ele era da segunda geração
siciliana, mas não havia qualquer sotaque em sua fala, nem era ela a fala de
um homem cuja única educação tivesse vindo das ruas. Ao contrário
de muitos de seus contemporâneos no negócio, ele concluíra o segundo
grau. Na realidade, tinha feito mais: freqüentara dois anos do curso de
administração de empresas da New York University. Sua voz, como seu
estilo de negociar, era suave, educada e americana, o que tornava seu
aspecto físico tão decepcionante quanto o de Jack Andolini. Quem
ouvia pela primeira vez aquela voz americana, clara e sem sotaque, ficava
quase sempre meio atordoado, como se estivesse vendo uma
apresentação particularmente boa de um ventríloquo. Balazar lembrava um
sitiante, um dono de estalagem ou um pequeno mafioso que tivesse obtido
êxito por estar no lugar certo na hora certa, não por obra de qualquer massa
cinzenta. Balazar lembrava o tipo que os espertos de uma geração anterior
tinham chamado de "bigodudo". Era um homem gordo que se vestia
como um camponês. Naquela tarde, usava uma camisa de algodão toda
branca e aberta no pescoço (rodelas de suor se espalhavam debaixo dos
braços) e uma calça de brim toda cinza. Os pés gordos e sem meias
calçavam sapatos marrons, tipo mocassim, mas tão velhos que pareciam
antes chinelos que sapatos. Veias de varizes azuis e roxas serpenteavam
nos tornozelos.
Cimi e Cláudio o observavam, fascinados.
Nos velhos tempos ele era chamado de // Roche — A Rocha. Alguns
dos veteranos ainda o chamavam assim. Na primeira gaveta, do lado direi-
to de sua mesa, onde outros homens de negócios guardavam blocos, cane-
tas, clipes de papel, coisas do gênero, Enrico Balazar tinha sempre três
baralhos de cartas. Mas não jogava nada com eles.