A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Tentou mover no sentido horário; tentou no…
Tentou mover no sentido horário; tentou no sentido oposto. A maçaneta não se mexeu um só milímetro.
— Está bem. — A voz dela era calma, resignada. — A porta só está
aqui para ele. Acho que nós dois já sabíamos disso. Vá para perto dele,
Eddie. Agora.
— Primeiro tenho de cuidar de você.
— Vou ficar bem.
— Não, não vai. Está muito próxima da linha da maré alta. Se deixá-
la aqui, as lagostas vão aparecer quando ficar escuro e você vai virar jan...
No alto das colinas, o rosnado áspero de um felino seccionou o que
ele estava dizendo como faca cortando um fio fino. Fora a uma boa dis-
tância, embora mais próxima que a do outro rosnado.
Por um breve instante, os olhos de Odetta se moveram para o revól-
ver enfiado na cintura da calça de Eddie, depois se voltaram para os olhos
dele. Eddie sentiu um calor mortiço no rosto.
— Roland mandou que não me desse o revólver, não é? — disse ela
em voz baixa. — Não quer a arma comigo. Por alguma razão não quer a
arma comigo.
— As balas se molharam — disse ele meio sem jeito. —
Provavelmente não iriam nem disparar.
— Compreendo. Suba um pouco a encosta comigo, Eddie, está bem?
Sei como suas costas devem estar moídas; Andrew chamava isso de Má
Postura da Cadeira de Rodas, mas se subir um pouco comigo, ficarei a
salvo das lagostas. E duvido que alguma outra coisa, com elas por aqui, se
aproxime dessa região.
Eddie pensou: Sim, provavelmente é como ela diz... quando a maré
está alta... Mas o que pode acontecer quando a água começar de novo a
recuar?
— Me dê alguma coisa para comer e algumas pedras — disse ela, e
sua involuntária repetição das palavras do pistoleiro fez Eddie corar de
novo. Bochechas e testa ficaram como as paredes de um forno de tijolos.
Odetta olhou para ele, sorriu debilmente e balançou a cabeça como
se ele tivesse falado em voz alta.
— Não vamos ficar repisando o assunto — disse ela. — Sei qual é a
situação de Roland. Ele tem muito, muito pouco tempo. Não podemos
ficar aqui parados, discutindo. Suba um pouco comigo, me deixe comida e
algumas pedras, depois pegue a cadeira e vá.
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Eddie a acomodou o mais depressa que pôde, depois puxou o revólver do
pistoleiro e estendeu a coronha para ela. Mas Odetta balançou a cabeça.
— Ele ficaria furioso com nós dois. Furioso com você por me dar a
arma, comigo por aceitá-la.
— Merda! — gritou Eddie. — Por que essa preocupação na cabeça? — Sei como ia ser — disse ela, e o tom foi impenetrável. — Bem, mas suponha que haja o outro lado. Apenas suponha. Eu
vou ficar furioso com você se você não aceitar.
— Guarde isso. Não gosto de armas. Não sei usá-las. Se alguma coisa viesse do escuro em minha direção a primeira coisa que eu faria seria molhar as calças. A segunda seria apontar para o lado errado e atirar em mim
mesma. — Fez uma pausa, olhando solene para Eddie. — Há mais uma coisa e acho que deve saber. Não quero encostar a mão em nada que pertence a ele. Absolutamente nada. Para falar a verdade, acho que as
coisas de Roland podem ter o que minha mãe chamava de vodu. Gosto de me imaginar uma mulher moderna... mas não quero nada enfeitiçado
perto de mim quando você for embora e eu me vir cercada pela escuridão.
Os olhos de Eddie passavam da arma para Odetta e ainda revelavam
dúvida.
— Guarde isso — disse ela, severa como uma professora de crianças.
Eddie deu uma gargalhada e obedeceu.
— Por que está rindo?
— Porque você está parecendo a Sra.' Hathaway. Ela foi minha
professora no primário.
Ela sorriu um pouco, sem afastar os olhos luminosos de Eddie. Can-
tou em voz baixa, docemente: Camadas celestiais da noite estão caindo... é hora do crepúsculo... — A voz dela se extinguiu e os dois olharam para
oeste, mas a estrela a que tinham feito seus pedidos na noite anterior ainda
não aparecera, embora a sombra dos dois já estivesse bem comprida sob o
resto de sol.