A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 223 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Capitulo 2 · O Pote de Mel

 

 

Detta estava deitada numa fenda muito sombria, formada por rochas que se inclinavam umas para as outras como velhos convertidos em pedra en-

quanto compartilhavam algum estranho segredo. Contemplava Eddie percorrendo de cima a baixo as encostas cheias de pedregulhos daquelas colinas. Ele já estava ficando rouco de tanto gritar. A penugem em seu

rosto ia enfim se transformando em barba e Detta poderia até confundi-lo com um homem adulto se ele não tivesse passado três ou quatro vezes bem perto dela (numa dessas vezes, perto o bastante para ela pensar em dar um

bote com uma das mãos e lhe agarrar o tornozelo). Quando Eddie se aproximou, ela viu que ele ainda não passava de um garoto, e um garoto que estava cansado até a raiz dos cabelos.

Odetta teria sentido pena; Detta sentiu apenas a silenciosa, concen-

trada prontidão do predador natural.

Da primeira vez que rastejou para lá sentira coisas estalando sob suas

mãos. Como velhas folhas de outono no fundo de um bosque. Quando os

olhos se acostumaram, ela viu que não eram folhas, mas ossinhos de

pequenos animais. Algum predador que, se aqueles ossos velhos e amarelados contassem a verdade, há um bom tempo já se fora, tivera um

covil ali, talvez uma fuinha ou uma doninha. Talvez costumasse sair à noite,

no rastro de alguma presa, subindo direto para o Estreito, o lugar onde as árvores e o mato eram mais densos. Matava, comia uma parte e levava os

restos para lá, garantindo a refeição ligeira do dia seguinte, enquanto estivesse de tocaia, esperando novamente que a noite trouxesse a hora da

caça.

Agora havia um predador maior ali. A princípio Detta achou melhor

fazer exatamente o que o morador anterior tinha feito: esperar até Eddie

cair no sono, como era quase certo que aconteceria, depois matá-lo e ar-

rastar seu corpo até lá. Então, de posse dos dois revólveres, poderia se arrastar de novo para junto da porta e esperar pela volta do Homem Real-

mente Mau. Seu primeiro pensamento fora liquidar o corpo do Homem

Realmente Mau assim que tivesse cuidado de Eddie, mas não seria bom fazer isso, não é? Se o Homem Realmente Mau não tivesse corpo para

onde voltar, não haveria modo de Detta sair de lá, retornando a seu pró-

prio mundo.

Conseguiria fazer com que o Homem Realmente Mau a levasse de

volta?

Talvez não.

Mas talvez sim.

Se ele soubesse que Eddie ainda estava vivo, talvez sim.

E isso levava a uma idéia muito melhor.

 

Ela era profundamente astuta. Mas era também profundamente insegura,

mesmo que fosse capaz de rir estridentemente de qualquer um que ousasse sugerir isso. Por causa dessa segunda característica, atribuía a astúcia a qualquer um que tivesse um intelecto próximo do seu. Era a sensação que

tinha sobre o pistoleiro. Detta ouvira o tiro e vira a fumaça saindo da boca do revólver de Roland, o revólver que o pistoleiro havia carregado e que

jogara para Eddie pouco antes de atravessar a porta.

Detta sabia o que aquilo deveria significar para Eddie: que afinal nem

todas as balas estavam molhadas; o revólver poderia protegê-lo. Também

sabia o que deveria significar para ela (pois, é claro, o Homem Realmente Mau sabia que ela estava observando; mesmo se estivesse dormindo quan-do os dois começaram a tagarelar, o tiro a teria despertado): Fique longe

dele. Ele tem como se defender.

Mas os demônios sabiam ser sutis.