A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Deixe comigo, Eddie repetiu quando Cláudio abriu a porta.
Está bem, disse o pistoleiro, mas permanecendo alerta, pronto a
tomar a frente no instante em que isso se fizesse necessário.
Barulho de chaves. O pistoleiro estava muito consciente dos odores
— o suor rançoso de Col Vincent à sua direita, uma forte, quase irritante
loção pós-barba de Jack Andolini à esquerda e, quando penetraram na obscuridade, o aroma ácido da cerveja.
O cheiro da cerveja foi o único que ele realmente identificou. Mas
não estava num saloon arruinado com serragem no chão e um balcão de tábuas postas sobre um cavalete — o pistoleiro teve de admitir que aquilo
era um lugar completamente diferente do Sheb's, em Tull. O vidro bri-lhava suavemente por todo lado, havia mais vidro naquele único cômodo do que ele vira em todos os anos transcorridos desde sua infância, desde
que as linhas de suprimento começaram a ser rompidas, em parte devido aos severos ataques levados a cabo pelas forças rebeldes de Farson, o Ho-mem Bom, mas principalmente, ele admitiu, porque o mundo estava se-
guindo adiante. Farson fora um sintoma daquele grande movimento, não a causa.
Via seu reflexo e o de Eddie por toda parte — nas paredes, no reves-
timento do balcão e no comprido espelho que havia atrás; viu-se refletido com Eddie, como uma miniatura torta, nos delicados copos de vinho em forma de sino que estavam pendurados de cabeça para baixo sobre o bal-
cão... copos brilhantes e frágeis como enfeites de uma festa popular.
Num canto havia uma artística coleção de luzes que surgiam e muda-
vam de cor, surgiam e mudavam de cor, surgiam e mudavam. Dourado a
verde; verde a amarelo; amarelo ao vermelho; vermelho novamente ao dourado. Escrito sobre elas em Grandes Letras havia uma palavra que
conseguiu ler, mas que nada parecia significar: ROCKOLA.
Pouco importava. Havia uma tarefa a ser cumprida ali. Não era um
turista; não devia se dar ao luxo de se comportar como se fosse, por mais
estranhas ou maravilhosas que pudessem ser aquelas coisas.
O homem que os fizera entrar naquele lugar era obviamente o irmão
do homem que dirigia o que Eddie chamou de van (talvez abreviatura de vanguarda, Roland imaginou), embora fosse bem mais alto e talvez cinco
anos mais novo. Usava um revólver num suporte preso ao ombro. —
Cadê o Henry? — perguntou Eddie. — Quero falar com o Henry. — Ergueu a voz. — Henry! Ei, Henry!
Nenhuma resposta; só o silêncio no qual os copos que pendiam so-
bre o balcão pareceram estremecer com uma delicadeza que, sem dúvida, estava além do alcance de um ouvido humano.
— Primeiro o Sr. Balazar gostaria de falar com você.
— Ele está amarrado e amordaçado em algum lugar, não é? —
perguntou Eddie e, antes que Cláudio pudesse fazer mais do que abrir a
boca para responder, Eddie deu uma risada: — Ou melhor, sabe o que eu
acho... que vocês o drogaram, é isso. Por que se preocupariam com cordas e mordaças quando tudo que têm a fazer para manter o Henry quieto é
dar-lhe uma picada? Tudo bem. Quero falar com Balazar. Vamos
acabar logo
com isto.
O pistoleiro olhou para a torre de cartas na escrivaninha de Balazar e pensou: outro letreiro.
Balazar não ergueu a cabeça, pôde encará-lo sobre o topo da torre de
cartas, que já estava no nível do seu olhar. Foi uma expressão de prazer e entusiasmo.
— Eddie — disse ele. — Que bom ver você, meu filho. Soube que
teve problemas no Kennedy.
— Não sou seu filho — disse Eddie secamente.
Balazar fez um pequeno gesto ao mesmo tempo cômico, triste e in-
digno de confiança: Você me magoa, Eddie, o gesto dizia, me magoa quando
fala desse jeito.
— Para encurtar caminho... — disse Eddie. — Você sabe que das
duas uma: ou estou a serviço dos federais ou eles tiveram de me soltar.
Você sabe que não iriam tirar nada de mim em apenas duas horas. E sabe que se tivessem conseguido isso eu estaria agora na rua 43, respondendo a mais e mais perguntas entre ocasionais intervalos para vomitar com nojo
do que estava fazendo.