A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
outros mundos além desses, antes de mergulhar…
outros mundos além desses, antes de mergulhar no abismo. E sem a menor
dúvida, o garoto estava certo.
O garoto era Jake.
Com uma das mãos segurava um saco de papel marrom e com a
outra a correia de uma mochila de lona azul. Pelas arestas que apareciam
na lona, o pistoleiro percebeu que ele carregava livros.
O tráfego fluía na rua que o garoto iria atravessar — uma rua da mesma
cidade onde Roland pegara o Prisioneiro e a Dama, mas por ora isso não
vinha ao caso. Só importava o que iria ou não acontecer nos próximos
segundos.
Jake não fora levado para o mundo do pistoleiro por qualquer porta
mágica; havia atravessado um portal mais natural, mais compreensível: ele
nascera no mundo de Roland depois de morrer em seu próprio mundo.
Ele havia sido assassinado.
Mais especificamente, havia sido empurrado.
Empurrado para o meio da rua quando estava a caminho da escola;
atropelado por um carro, o saco de papel com a merenda numa das mãos
e a mochila com os livros na outra.
Ele havia sido empurrado pelo homem de preto.
Ele vai fazer isso! Vai fazer isso neste instante! Será meu castigo por ter
assassinado Jake em meu mundo — ver Jake ser assassinado neste sem nada
que eu possa fazer!
Mas a rejeição de um destino selvagem marcara toda a vida do
pistoleiro (fora seu ka, se preferirmos) e por isso ele tomou a frente sem
pensar duas vezes. Agia com reflexos cuja intensidade quase os transfor-
mava em instintos.
E quando fez isso, um pensamento simultaneamente horrível e irô-
nico lampejou em sua mente: E se o corpo em que ele havia entrado fosse o
próprio corpo do homem de preto? E se, ao se atirar para salvar o menino, ele
visse suas próprias mãos avançando para empurrar? E se aquele senso de
autocontrole não passasse de ilusão e na última piada engraçada de Walter ele
próprio, Roland, fosse quem assassinava o garoto?