A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 236 de 274

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

O primeiro tira engasgou com a boca…

O primeiro tira engasgou com a boca cheia de café morno. Num

jorro de riso, o café foi lançado de volta ao copo de papel.

 

Um balconista veio quase de imediato perguntar se podia ajudar.

— Será — respondeu o homem no terno azul de corte conservador

— que você teria um papel... — Fez uma pausa, parecendo pensar bem, e

voltou a erguer os olhos. — Quero dizer, um gráfico com ilustrações de munição de revólver?

— Quer um gráfico sobre os diferentes calibres? — perguntou o

balconista.

O freguês hesitou, depois respondeu:

— Sim. Meu irmão tem um revólver. Já atirei com ele, há um bom

número de anos. Mas acho que posso reconhecer as balas se as vir.

— Bem, o senhor pode achar que sim — respondeu o balconista —,

mas acredite que é difícil identificar. Era um 22? Um 38? Talvez...

— Se tiver o gráfico, vou identificar — disse Roland.

— Só um segundo. — Por um momento, o balconista olhou

desconfiado para o homem de terno azul, depois deu de ombros. Foda-

se, o cliente tinha sempre razão, mesmo quando estava errado... Se tinha grana para pagar, tanto fazia. Só a grana importava. — Tenho uma Bíblia do Atirador. Talvez devesse dar uma olhada.

— Sim. — O pistoleiro sorriu. Bíblia do Atirador. Um nome nobre

para um livro.

O homem remexeu embaixo do balcão e tirou de lá um volume já

bastante manuseado e mais grosso que todos os livros que o pistoleiro já tinha visto... O homem, no entanto, começou a folheá-lo como se não valesse mais que um punhado de pedras.

Abriu o livro sobre o balcão e virou-o para Roland.

— Dê uma olhada. Mas acho que, se já faz anos que mexeu no

revólver, é um tiro no escuro. — Ergueu a cabeça e sorriu. —

Desculpe o trocadilho. Roland nem ouvia. Estava curvado sobre o livro, examinando gravuras que pareciam quase tão reais quanto as próprias coisas que representavam, maravilhosas ilustrações que o arquivo Mort

identificou como Fotograffi.

Foi virando as páginas devagar. Não... não... não...

Estava quase perdendo as esperanças quando a viu. Levantou os olhos

com tão febril entusiasmo que o balconista sentiu um certo medo.

— Aqui! — disse. — Aqui! Bem aqui!

A foto para a qual apontava era de uma bala de pistola Winchester

45. Não era exatamente igual às suas próprias balas, pois não fora feita à mão para ser carregada isoladamente, mas Roland podia ver, mesmo sem

consultar os números do catálogo (números, sem dúvida, quase sem ne-nhum significado para ele), que caberia nos seus tambores e poderia ser disparada de seus revólveres.

— Bem, está ótimo, acho que encontrou — disse o balconista —,

mas não precisa gozar por causa disso, cara. Quero dizer, são apenas balas.

— Você as tem?

— Claro. Quantas caixas vai querer?

— Quantas há numa caixa?

— Cinqüenta. — O homem começou a olhar para o pistoleiro com

real desconfiança. Se o sujeito planejava comprar as balas, deveria saber que

teria de mostrar um Porte de Armas, com foto, mais a identidade. Sem

porte, sem munição, não para revólveres; era a lei na região de Manhattan.

E se esse cara tinha conseguido um porte de armas, como não sabia quantas

balas vinham numa caixa-padrão de munição?

— Cinqüenta!

Agora o freguês olhava para ele com o queixo caído de espanto. Meio

fora de órbita, não havia dúvida.

O balconista avançou um pouco para a esquerda, para um pouco

mais perto da caixa registradora... e, não por acaso, para um pouco mais

perto de seu próprio revólver, um Magnum 357, que mantinha sempre

carregado no fundo da gaveta da caixa registradora.

— Cinqüenta! — repetiu o pistoleiro. Tinha esperado cinco, dez,

talvez uma dúzia, mas aquilo... aquilo...

Quanto dinheiro você tem?, perguntou ao arquivo Mort. O arquivo

Mort não sabia, não exatamente, mas achou que deveria ter pelos menos

uns sessenta dólares na carteira.