A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
O primeiro tira engasgou com a boca…
O primeiro tira engasgou com a boca cheia de café morno. Num
jorro de riso, o café foi lançado de volta ao copo de papel.
Um balconista veio quase de imediato perguntar se podia ajudar.
— Será — respondeu o homem no terno azul de corte conservador
— que você teria um papel... — Fez uma pausa, parecendo pensar bem, e
voltou a erguer os olhos. — Quero dizer, um gráfico com ilustrações de munição de revólver?
— Quer um gráfico sobre os diferentes calibres? — perguntou o
balconista.
O freguês hesitou, depois respondeu:
— Sim. Meu irmão tem um revólver. Já atirei com ele, há um bom
número de anos. Mas acho que posso reconhecer as balas se as vir.
— Bem, o senhor pode achar que sim — respondeu o balconista —,
mas acredite que é difícil identificar. Era um 22? Um 38? Talvez...
— Se tiver o gráfico, vou identificar — disse Roland.
— Só um segundo. — Por um momento, o balconista olhou
desconfiado para o homem de terno azul, depois deu de ombros. Foda-
se, o cliente tinha sempre razão, mesmo quando estava errado... Se tinha grana para pagar, tanto fazia. Só a grana importava. — Tenho uma Bíblia do Atirador. Talvez devesse dar uma olhada.
— Sim. — O pistoleiro sorriu. Bíblia do Atirador. Um nome nobre
para um livro.
O homem remexeu embaixo do balcão e tirou de lá um volume já
bastante manuseado e mais grosso que todos os livros que o pistoleiro já tinha visto... O homem, no entanto, começou a folheá-lo como se não valesse mais que um punhado de pedras.
Abriu o livro sobre o balcão e virou-o para Roland.
— Dê uma olhada. Mas acho que, se já faz anos que mexeu no
revólver, é um tiro no escuro. — Ergueu a cabeça e sorriu. —
Desculpe o trocadilho. Roland nem ouvia. Estava curvado sobre o livro, examinando gravuras que pareciam quase tão reais quanto as próprias coisas que representavam, maravilhosas ilustrações que o arquivo Mort
identificou como Fotograffi.
Foi virando as páginas devagar. Não... não... não...
Estava quase perdendo as esperanças quando a viu. Levantou os olhos
com tão febril entusiasmo que o balconista sentiu um certo medo.
— Aqui! — disse. — Aqui! Bem aqui!
A foto para a qual apontava era de uma bala de pistola Winchester
45. Não era exatamente igual às suas próprias balas, pois não fora feita à mão para ser carregada isoladamente, mas Roland podia ver, mesmo sem
consultar os números do catálogo (números, sem dúvida, quase sem ne-nhum significado para ele), que caberia nos seus tambores e poderia ser disparada de seus revólveres.
— Bem, está ótimo, acho que encontrou — disse o balconista —,
mas não precisa gozar por causa disso, cara. Quero dizer, são apenas balas.
— Você as tem?
— Claro. Quantas caixas vai querer?
— Quantas há numa caixa?
— Cinqüenta. — O homem começou a olhar para o pistoleiro com
real desconfiança. Se o sujeito planejava comprar as balas, deveria saber que
teria de mostrar um Porte de Armas, com foto, mais a identidade. Sem
porte, sem munição, não para revólveres; era a lei na região de Manhattan.
E se esse cara tinha conseguido um porte de armas, como não sabia quantas
balas vinham numa caixa-padrão de munição?
— Cinqüenta!
Agora o freguês olhava para ele com o queixo caído de espanto. Meio
fora de órbita, não havia dúvida.
O balconista avançou um pouco para a esquerda, para um pouco
mais perto da caixa registradora... e, não por acaso, para um pouco mais
perto de seu próprio revólver, um Magnum 357, que mantinha sempre
carregado no fundo da gaveta da caixa registradora.
— Cinqüenta! — repetiu o pistoleiro. Tinha esperado cinco, dez,
talvez uma dúzia, mas aquilo... aquilo...
Quanto dinheiro você tem?, perguntou ao arquivo Mort. O arquivo
Mort não sabia, não exatamente, mas achou que deveria ter pelos menos
uns sessenta dólares na carteira.