A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Não — disse Eddie —, um…
— Não — disse Eddie —, um babaca foi o que você esperava
encontrar. Eu vim com minha antena de alerta. Você vai estar aqui antes
das 11 com alguma coisa que eu possa usar... não precisa ser nenhuma maravilha, só alguma coisa que eu possa usar... ou vai ser um inseto
morto.
7
A coisa amarela estava de volta bem antes das 11; chegou pelas nove e
meia. Eddie desconfiou que a outra parada estivera o tempo todo no carro dele.
Um pouco mais de pó dessa vez. Não era branco, mas pelo menos
tinha uma opaca cor de marfim que dava certa esperança.
Eddie provou. Parecia bom. Na realidade mais do que bom. Muito
bom. Enrolou uma nota e cheirou.
— Bem, então até domingo — disse a coisa amarela energicamente,
levantando-se.
— Espere — disse Eddie, como se ele é que tivesse o revólver. De
certa forma era ele. O revólver era Balazar. Emilio Balazar, um traficante de alto calibre no maravilhoso mundo das drogas de Nova York.
— Espere? — A coisa amarela se virou e olhou para Eddie como se
achasse que ele tinha ficado maluco. — Esperar o quê?.
— Bem, eu estava realmente pensando em você — disse Eddie. —
Se eu ficar realmente doente com o que vou pôr no meu corpo, você está
frito. Se morrer, é claro, você está frito. Estava só pensando que se eu só ficar um pouco mal, posso lhe dar outra chance. Você sabe, como aquela
história em que um garoto esfrega uma lâmpada e tem um desejo atendido.
— Isso não vai deixar você doente. É Branca da China.
— Se isso é Branca da China — disse Eddie —, eu sou campeão de
beisebol.
— O quê?
— Esqueça.
A coisa amarela se sentou. Eddie sentou-se em frente à escrivaninha do
quarto de motel com a pequena pilha de pó branco perto dele (o pó de merda, ou o que quer que fosse aquilo, fora privada abaixo muito tempo atrás). A televisão
transmitia uma partida de beisebol, cortesia de um canal por assinatura e da grande antena receptora de satélite no telhado do Hotel Aquinas. Eddie teve uma ligeira sensação de calma que pareceu vir dos fundos de sua mente... Só que ela
na verdade vinha - ele sabia pelo que lera nas revistas médicas - do aglomerado de tendões na base de sua espinha dorsal, aquele lugar onde a heroína, ao provocar um engrossamento não-natural da ramificação nervosa, cria a
dependência.
Quer uma rápida cura do vício?, perguntara ele um dia a Henry. Que-
bre sua espinha, Henry. Suas pernas param de trabalhar, assim como o seu pau, mas você também pára imediatamente de precisar do pico.
Henry não tinha achado isso engraçado.
Na realidade, Eddie também não tinha achado engraçado.
Quando o único meio rápido de se livrar do vício era romper sua medula acima daquele feixe de nervos, era um vício realmente pesado.
Pesado como um macaco empoleirado no seu ombro. Não um mico, não um macaquinho engraçadinho que servia de mascote; um grande,
velho e mau babuíno.
Eddie começou a cheirar.
— Tudo bem — disse por fim. — Dá para o gasto. Pode ir saltando
fora, ratão.
A coisa amarela se levantou.
— Tenho amigos — disse ele. — Eles podiam entrar aqui e fazer
alguma coisa com você. Você iria implorar para me dizer onde está essa chave.
— Eu não, campeão — disse Eddie. — Não este garoto aqui. — E
ele sorriu. Não sabia como o sorriso saíra, mas não deve ter saído exatamente simpático, pois a coisa amarela saltou fora, saltou fora
rápido, saltou sem olhar para trás.
Quando Eddie Dean teve certeza de que ele fora embora, pôs mãos à
obra.
Cheirou.
Dormiu.
Como estava
dormindo
agora.
O pistoleiro, alojado de alguma forma dentro da mente
daquele homem (um homem cujo nome ainda não sabia; sem
dúvida o sujeito a quem o prisioneiro se referira como "coisa amarela" também não fora informado do nome, porque jamais o pronunciara), acompanhou aquilo como assistia a jogos em seus
tempos de criança, antigamente, antes de o mundo seguir adiante... ou pelo menos achou que era assim que havia acompanhado a cena, pois nunca assistira a qualquer outra
coisa além de jogos. Se já tivesse visto um filme, teria pensado nisso primeiro. Fora capaz de arrancar da mente do prisioneiro as coisas que realmente não entendera, pois entre a sua mente
e a dele as associações eram próximas. Parecia estranha, no entanto, aquela história do nome. Ele sabia o nome do irmão do prisioneiro, mas não o nome do próprio prisioneiro. Mas
naturalmente nomes eram coisas secretas, cheias de poder.
E o nome do homem não estava entre as coisas que interessavam. Uma
delas era sua fraqueza, a dependência da droga. A outra era a fibra escondida
nessa fraqueza, como um bom revólver enterrado em areia movediça.
Aquele homem fazia o pistoleiro se recordar dolorosamente de
Cuthbert.
Alguém estava chegando. O prisioneiro, dormindo, não ouvia. O
pistoleiro, acordado, ouviu, e de novo tomou a frente.
Ótimo, Jane pensou. Ele diz que está morrendo de fome, eu preparo alguma coisa porque ele é bonitinho, e aí ele cai no sono.
Então o passageiro — um cara de uns vinte anos, alto, usando uma
calça jeans azul ligeiramente desbotada, mas limpa, e uma camisa de ma-lha estampada — abriu um pouco os olhos e sorriu.
— Obrigado sai — dísse ele, ou assim pareceu. Algo quase arcaico...
ou estrangeiro. Falando dormindo, só isso, Jane pensou.
— De nada. — Mostrou seu melhor sorriso de aeromoça, certa de
que ele cairia novamente no sono e o sanduíche ainda estaria lá, intacto, quando chegasse a hora do verdadeiro serviço de bordo.
Bem, foi isso que você foi ensinada a esperar, certo?
Ela voltou à cozinha para pegar um cigarro.
Riscou o fósforo, levou-o a meia distância do cigarro e o deixou para-
do ali, distraída, pois aquilo não fora tudo que a haviam ensinado a esperar.