A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
O impulso de olhar para trás, de…
O impulso de olhar para trás, de ver o que acontecia era quase
incontrolável. Mas ele teve coragem de dizer não. Não podia.
A voz de Cort interrompeu severamente o fluxo de seus pensamen-
tos: Controle as coisas que pode controlar, verme. Deixe tudo passar como a porra de um vento e, se tiver de cair, caia com os revólveres fumegando.
Sim.
Mas era difícil.
Às vezes muito difícil.
Teria compreendido por que as pessoas o encaravam, e depois se esqui-
vavam dele, se estivesse um pouco menos concentrado em concluir suas tarefas naquele mundo o mais depressa possível e sair de lá correndo. Com-preender isso, no entanto, não teria mudado nada. Ele caminhava muito
depressa para a placa azul, onde segundo o arquivo Mort poderia conseguir o tal Keflex de que seu corpo precisava. Caminhava tão depressa que o pale-tó de Mort batia atrás dele, apesar de todo o chumbo que pesava nos bolsos.
Os cinturões amarrados na cintura apareciam claramente. Ele não os usava como os antigos donos, bem colocados na cintura, mas como costumava usar seus próprios cinturões, muito baixos nos quadris e cruzados.
Para os comerciantes, músicos e camelôs da rua 49, Roland lembrava
exatamente o que tinha lembrado a Johnny Gordo: um bandido de faroeste.
Roland alcançou a Drogaria Katz e entrou.
13
Em sua época, o pistoleiro conhecera mágicos, encantadores e alquimis-
tas. Alguns eram hábeis charlatães, outros impostores estúpidos que só
conseguiam enganar pessoas ainda mais estúpidas que eles (mas como nunca
tinha faltado tolos no mundo, mesmo os impostores estúpidos sobrevivi-
am; a maioria, inclusive, prosperava). Ao lado desses havia um pequeno
número de pessoas realmente capaz de fazer aquelas coisas mágicas de que
se falava — esses poucos eram capazes de convocar demônios e mortos,
matar rogando uma praga ou curar com estranhas poções. Um desses
homens fora uma criatura que o pistoleiro acreditava ser um demônio, uma
criatura que fingia ser um homem e que se autodenominava Flagg. O
pistoleiro o vira apenas brevemente e já perto do fim, quando o caos e o
colapso final se aproximavam de sua terra. Logo atrás dele vinham dois
rapazes que tinham uma expressão sinistra e desesperada, Dennis e
Thomas. Os três não tinham atravessado mais que uma minúscula parte
de um tempo confuso e desorientador na vida do pistoleiro, mas ele jamais
esqueceu de ter visto Flagg transformar um homem que o irritara num
cachorro uivante. Lembrava-se muito bem disso. Depois tinha havido o
homem de preto.
E tinha havido Marten.
Marten que seduzira sua mãe enquanto o pai estava longe, Marten
que tentara provocar a morte de Roland mas que, em vez disso, acabara
provocando a chegada prematura de sua maturidade, Marten que, ele sus-
peitava, talvez tornasse a encontrar antes de alcançar a Torre... ou depois,
dentro dela.
Isto é só para dizer que a experiência de Roland com mágicos e magia
o levara a esperar algo bem diferente do que aquilo que viu na Drogaria
Katz.
Imaginara uma sala na obscuridade de luz de velas, cheia de fumaças
com cheiro acre, filtros, frascos com líquidos e pós desconhecidos, muitos
cobertos com uma grossa camada de poeira ou rodeados de seculares teias
de aranha. Esperava um homem de capuz, um homem que poderia ser
perigoso. Ao ver, através dos janelões de vidro transparente, pessoas cami-
nhando lá dentro, gente descontraída como numa loja, acreditou que só
podia estar vivendo alguma ilusão.
Não estava.
E então, por um momento, ficou parado na porta, primeiro espanta-
do, depois achando tudo ironicamente divertido. Ali estava ele num mun-
do que o deixava atônito com maravilhas reveladas quase a cada passo, um
mundo onde carruagens voavam pelos céus e o papel parecia barato como
areia. E o último prodígio era simplesmente que, para aquelas pessoas lá
dentro, nada fosse prodigioso: ali, numa praça de milagres, via apenas
rostos com expressão comum e corpos se movendo devagar.
Havia milhares de garrafas, sem dúvida. Eram poções, eram filtros,
mas o arquivo Mort identificou a maioria como charlatanice. Aqui uma
loção que deveria eliminar a queda de cabelos, mas não eliminava, ali um creme que prometia tirar manchas desagradáveis das mãos e dos braços, mas mentia, mais adiante promessas de cura para coisas que
não precisavam ser curadas, coisas para fazer os intestinos funcionarem ou pararem de funcionar, para deixar os dentes brancos e o cabelo preto, ou para melhorar o hálito (como se isso, por exemplo, não
pudesse ser conseguido com a pessoa mascando casca de amieiro). Nenhuma magia ali; só trivia-lidades - embora houvesse asmina e alguns outros remédios que talvez pudessem ser úteis. No fim das
contas, Roland ficou decepcionado com o lugar. Num lugar que prometia alquimia, mas lidava mais com perfumaria que com poções, era de
admirar que ninguém mais ficasse admirado?
Contudo, quando tornou a consultar o arquivo Mort, descobriu que
a verdade daquele lugar não estava apenas nas coisas para as quais olhava.
As poções que realmente funcionavam eram mantidas seguramente fora de vista. Só era possível obtê-las se você tivesse a ordem de um feiticeiro. Naquele mundo, tais feiticeiros eram chamados de MÉDIKOS e rabisca-
vam suas fórmulas mágicas em folhas de papel que o arquivo Mort deno-minava RECITAS. O pistoleiro não conhecia a palavra. Talvez pudesse ter aprofundado a consulta sobre o assunto, mas não estava muito interes-
sado. Ficou sabendo do que precisava e um rápido olhar no arquivo Mort lhe disse em que ponto da loja ele poderia obter o remédio.
Seguiu a passos largos por um dos corredores em direção a um balcão
com as palavras MEDICAMENTOS COM RECEITA escritas em cima.
14
O Katz que tinha aberto a Katz's Pharmacy & Soda Fountain (Aviamentos de Receitas e Artigos Diversos para Senhoras e Cavalheiros) na rua 49, em 1927, já morrera há muito tempo e seu único filho também parecia pron-
to para o túmulo. Embora não tivesse mais de 46 anos, parecia vinte anos mais velho. Estava cada vez mais calvo, de pele amarelada e fraco. Sabia que as pessoas diziam que ele parecia a imagem da morte, mas ninguém
entendia por quê.
Escute por exemplo essa conversa ao telefone. A Sra. Rathbun. Garan-
tindo que iria processá-lo se ele não mandasse seu maldito Valium naquele
instante, EXATAMENTE NAQUELE INSTANTE.