A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 216 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Por um momento, a flecha afiada e…

Por um momento, a flecha afiada e fina da concentração de Jack

Mort se desviou. Quando estava à beira de dar um salto e empurrar o

garoto para o meio do tráfego, Mort sentiu uma coisa que a mente traduziu incorretamente como um sinal que o corpo transmitia de sua

superfície para o cérebro.

Quando o pistoleiro tomou a frente, Jack achou que algum tipo de

inseto havia lhe pousado na nuca. Não uma vespa ou uma abelha, nada

que realmente picasse, mas uma coisa que mordia e coçava. Talvez um mosquito. Foi a isso que atribuiu a falha de sua concentração no momen-

to crucial. Mort deu uma palmada na nuca e voltou ao garoto.

Achou que tudo isso acontecera num abrir e fechar de olhos, mas na

realidade sete segundos haviam se passado. Não sentiu o rápido avanço do

pistoleiro nem seu retroceder igualmente rápido, e nenhuma das pessoas

ao redor de Jack (gente indo para o trabalho, em geral pessoas saídas da estação de metrô na quadra vizinha, rostos ainda inchados de sono, olhos

ainda sonhadores e meio vidrados) viu seus olhos, atrás de comportados

óculos de aro dourado, passarem do habitual tom azul-escuro para um azul mais claro. Ninguém observou aqueles olhos escurecerem de novo,

recuperando sua habitual tonalidade cobalto, mas quando isso aconteceu

e os olhos tornaram a se concentrar no garoto, Jack Mort teve de admitir, com uma raiva frustrada e afiada como espinho, que perdera sua chance.

O sinal já tinha aberto para os pedestres.

Quando viu o garoto começar a atravessar com o resto da multidão,

Jack deu meia-volta e começou a forçar caminho contra o terrível fluxo de

pessoas.

— Ei, o senhor! Veja por onde...

Era uma adolescente de cara amarrada para quem ele mal olhou. Jack

empurrou-a para o lado, com força, não dando atenção a seu resmungo de raiva quando o braço cheio de livros escolares foi jogado para o alto. Jack

continuou descendo a Quinta Avenida, afastando-se da rua 43, que era o

lugar destinado à morte do garoto naquele dia. A cabeça ia baixa, os lábios apertados com tanta força que ele já nem parecia ter uma boca, só a cicatriz

de alguma ferida mal curada em cima do queixo. Uma vez livre do gargalo

de gente na esquina, passou a andar ainda mais depressa, atravessando as ruas 42, 41, 40. E em algum ponto da quadra depois da 40, passou pelo

prédio onde o garoto morava. Olhou-o muito de relance, embora nas últimas

três semanas, a cada manhã, tivesse seguido Jake desde aquele prédio até uma esquina três quadras e meia mais à frente, subindo a Quinta Avenida,

a esquina que ele reconhecia simplesmente como o Local de Empurrar.

A garota em que ele esbarrara ficara gritando lá atrás, mas Jack Mort,

como um caçador amador de borboletas diante de um exemplar banal,

não dera a menor importância.

A seu próprio modo, Jack era muito parecido com um caçador ama-

dor de borboletas.

Por profissão, era um executivo bem-sucedido.

Empurrar era apenas seu hobby.

O pistoleiro voltou para os fundos da mente do homem e ali relaxou. Mas o único alívio, se havia, vinha simplesmente do fato de aquele homem não

ser o homem de preto, não ser Walter.

O resto era extremo horror... e extrema lucidez.

Divorciada do corpo, sua mente — seu ka — continuava saudável e

perspicaz, mas um repentino conhecimento o havia atingido como um gol-pe de formão na testa.

O conhecimento não veio quando ele tomou a frente mas quando,

se convencendo de que o garoto estava seguro, retrocedeu. Viu a cone-xão entre Jack Mort e Odetta, demasiado fantástica e, no entanto, de-

masiado coerente para ser mera coincidência. Compreendeu, então, o que a verdadeira escolha dos três poderia significar e quem eles poderiam representar.

O terceiro não era aquele homem, aquele Empurrador; o terceiro

mencionado por Walter fora a Morte.

A morte... mas não para você. Fora isso que Walter, astuto como

Satã, inclusive no seus momentos finais, dissera. Explicação de

advogado... algo tão próximo da verdade que a verdade continuava capaz de se esconder em sua sombra. A morte não era para ele; a

morte estava se transformando nele.

O Prisioneiro, a Dama.

A Morte era o terceiro.

De repente ele foi tomado pela certeza de que ele próprio era o terceiro.

 

5

 

Roland tomou a frente como uma espécie de míssil, um projétil não-inteligente programado para lançar o corpo em que se encontrava contra o homem de preto no instante em que o visse.

Idéias sobre o que poderia acontecer se ele impedisse o homem de

preto de assassinar Jake só lhe ocorreram mais tarde... o possível parado-xo, a fístula no tempo e na dimensão que poderia cancelar tudo que tinha

acontecido depois de sua chegada ao posto de parada... Porque, sem dúvida, se ele salvasse Jake naquela cidade, não haveria nenhum Jake para ser en-contrado lá, naquele outro mundo, e tudo que havia acontecido depois

seria alterado.

Em que sentido? Até especular sobre isso era impossível. Por exemplo,

não entrava na cabeça do pistoleiro que uma das alterações pudesse ser o

fim de sua busca. E sem dúvida tais especulações pareciam inúteis; se ele tivesse visto o homem de preto, nenhuma conseqüência, paradoxo ou curso ordeiro do destino o impediria de baixar a cabeça do corpo que habitava e

atirá-la como um martelo contra o peito de Walter. Roland teria sido tão incapaz de agir de modo diferente quanto um revólver era incapaz de se recusar a obedecer ao dedo que apertava o gatilho e fazia a bala sair voando.

Se tal gesto mandasse tudo para o inferno, ao diabo com tudo. Examinou rapidamente as pessoas amontoadas na esquina, obser-

vando cada rosto (examinava as mulheres tão detidamente quanto os homens, para se certificar de que não haveria alguém fingindo ser uma

mulher).

Walter não estava lá.

Gradualmente Roland relaxou, como um dedo curvado ao redor de

um gatilho é capaz de relaxar no último instante. Não, Walter não estava

cercando o garoto e o pistoleiro acabou se convencendo de que aquele não era o quando adequado. Não de todo. Tal quando estava próximo

— seria dali a duas semanas, uma, talvez até um único dia — mas sem

dúvida ainda não chegara.

Então voltou.

Mas no caminho viu...

 

... e ficou atordoado com o choque: o homem para cuja mente a terceira porta se abrira tinha um dia se sentado diante da janela de um quarto

vazio, num prédio cheio de cômodos abandonados — exceto pelos bêba-dos e viciados em crack que passavam a noite lá. Era possível saber dos bêbados porque dava para sentir o cheiro de seu suor desesperado e de sua

urina raivosa. Era possível saber dos viciados em crack porque dava para sentir o fedor dos pensamentos desarticulados. A única mobília do quarto eram duas cadeiras. Jack Mort estava usando ambas: uma para sentar,

outra como escora para manter fechada a porta que dava para o corredor. Não contava com interrupções repentinas, mas era melhor não arriscar. Estava perto o bastante da janela para espiar lá fora, mas suficientemente

atrás da orla oblíqua da sombra para ficar a salvo de qualquer observador casual.

Tinha um gasto tijolo vermelho na mão.

Ele o havia arrancado da parte de baixo do parapeito da janela, onde

havia muitos tijolos soltos. Estava velho, comido nas quinas, mas conti-

nuava pesado. Pedaços de velha argamassa ainda se prendiam nele como uma sarna.

O homem pretendia jogar o tijolo em alguém.

Não interessava em quem; quando se tratava de homicídio, Jack Mort

agia como um funcionário extremamente isento.

Após algum tempo, uma família de três pessoas avançou pela calçada

lá embaixo: homem, mulher, menina. A menina andava pelo lado de dentro da calçada, presumivelmente para se manter a salvo do tráfego. Havia,

aliás, bastante tráfego naqueles arredores da estação ferroviária, mas Jack

Mort não estava preocupado com o movimento dos carros. O que despertava sua atenção era a ausência de prédios logo na sua frente, do

outro lado da rua; ali as demolições já tinham sido feitas, transformando tudo

num árido terreno baldio, onde se misturavam tábuas lascadas, tijolos quebrados e reflexos em cacos de vidro.

Ele só se inclinou por alguns segundos; usava óculos escuros e um

antiquado gorro de tricô cobria seu cabelo louro. Era como a cadeira sob a maçaneta da porta. Mesmo quando você se julga a salvo de riscos previ-

síveis, não custa reduzir os riscos imprevisíveis que ainda possam restar.

Também estava usando um moletom grande demais para o seu ta-

manho — um moletom que lhe chegava quase ao meio da coxa. Aquela

roupa mal-ajambrada ajudaria a disfarçar seu verdadeiro tamanho e a ver-

dadeira forma do corpo (era bastante magro) se alguém o visse. Servia também a outro propósito: sempre que "pegava pesado" contra alguém

(pois era assim que pensava na coisa: como um "ataque pesado"), ele goza-va na calça. O moletom, então, também serviria para cobrir a mancha

úmida que invariavelmente se formava no jeans.

Agora estavam mais perto.

Não se precipite, espere, só espere...

Estremeceu na beirada da janela, levantou o tijolo, apertou-o um

instante contra a barriga, tornou a erguê-lo, recuou de novo com ele (mas dessa vez só metade do caminho) e então se inclinou para baixo, agora de

todo calmo. Sempre ficava assim no penúltimo instante.

Soltou o tijolo e viu-o cair.

Ele mergulhou, as quinas se revezando no ar. Jack viu claramente, no

sol, os torrões de argamassa ainda grudados. Era nesses momentos, e não

em outros, que tudo ficava claro, tudo se destacava com exata e geometri-camente perfeita substância; lá estava uma coisa que ele transformara em

realidade, como um escultor batendo numa talhadeira para alterar a pedra

e criar uma nova substância do magma bruto; ali estava a coisa mais incrí-vel do mundo: a lógica que era também êxtase.

 

Às vezes ele errava ou batia mal, como o escultor pode talhar

canhestramente ou no vazio, mas aquele fora um ato perfeito. A menina

com o vestido de riscado muito colorido foi atingida bem na cabeça. Ele viu o sangue (brilhando mais que o tijolo, mas que acabaria, ao secar,

ganhando a mesma cor marrom) borrifar. Ouviu o início do grito da

mãe. Então se pôs em movimento.