A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Você se mexe ou quem se…
— Você se mexe ou quem se mexe sou eu, puto — disse ela naquele
tom murmurante. — Só que se eu me mexer, você vai estar morto quando
eu acabar. Vou dar uma passada nos teus miolos até o lado de lá da
cabecinha. Depois disfarço o buraco com o teu cabelo. Roland vai achar
que tu tá drumindo! — Ela deu outra risada.
Eddie levantou os pés e ela rapidamente amarrou a terceira volta do
nó de correr ao redor dos tornozelos dele.
— Aí. Bem amarradinho como vitelo num rodeio.
Isso descrevia muito bem a coisa, pensou Eddie. Se tentasse baixar os
pés, saindo de uma posição que ia se tornar cada vez mais desconfortável,
apertaria ainda mais o nó em volta dos tornozelos. Isso diminuiria o com-
primento da corda entre os tornozelos e os pulsos, o que por sua vez aper-
taria todos os nós e a corda entre seus pulsos e o laço que ela passara ao
redor de seu pescoço, e...
Ela o estava arrastando, de alguma maneira estava conseguindo arrastá-
lo pela praia.
— Ei! O que...
Tentou recuar e sentiu tudo ficar menor — incluindo sua possibilidade
de levar o ar até os pulmões. Deixou-se então ficar da forma mais inerte pos-
sível (mantendo os pés levantados, não esqueça disso, seu asno, porque se
baixar os pés vai se estrangular) e deixou que ela o arrastasse pelo solo
irregular. Uma saliência de rocha raspou um pedaço da pele de sua boche-
cha e ele sentiu o sangue quente começar a correr. Detta arfava aspera-
mente. O barulho das ondas e o estrondo da arrebentação batendo no
túnel de rocha estavam mais altos.
Me afogar? Santo Deus, é isso que ela pretende fazer?
Não, é claro que não. Achou que sabia o que ela pretendia fazer antes
mesmo que seu rosto passasse pela retorcida faixa de algas marinhas que
marcavam o limite da maré alta, uma coisa morta fedendo a sal e fria
como os dedos de marinheiros afogados.
Lembrou-se de Henry dizendo: Às vezes matavam um dos nossos.
Quero dizer, um americano... sabiam que um vietnamita do sul não adiantava, porque nenhum de nós iria querer ir atrás de um amarelo no mato. Só se fosse um peixe fresco recém-chegado dos Estados Unidos.
Davam-lhe uma facada, deixavam o cara gritando, depois pegavam os caras que tentavam salvá-lo. Faziam isso até o cara morrer. Sabe como chamavam um cara assim, Eddie?Eddie havia balançado a cabeça,
chocado com a visão da coisa.
Chamavam de pote de mel, dissera Henry. Uma coisa doce. Uma coisa
para atrair as moscas. Ou quem sabe um urso.
Era o que Detta estava fazendo: usando-o como um pote de mel. Deixou-o uns dois metros abaixo do limite da maré alta, deixou-o
sem uma palavra, deixou-o de frente para o oceano. Não era a maré che-gando para afogá-lo que o pistoleiro veria, olhando através da porta, por-que a maré estava na vazante e ainda levaria umas seis horas para subir até
aquele ponto. Muito antes disso...
Eddie virou um pouco os olhos e viu o sol estendendo uma compri-
da esteira dourada através do mar. Que horas seriam? Quatro? Mais ou
menos isso. O pôr do sol ocorreria por volta das sete.
Anoiteceria bem antes de ele ter de se preocupar com a maré.
E quando a escuridão chegasse, as lagostrosidades rolariam para fora
das ondas. Rastejariam praia acima fazendo suas indagações. Chegariam até onde ele estava amarrado, completamente indefeso, e o fariam em
pedaços.
O tempo estendeu-se interminavelmente para Eddie Dean. A própria idéia
de tempo tornou-se uma piada. Mesmo o terror do que aconteceria ao escurecer esmoreceu quando suas pernas começaram a latejar. O descon-forto foi abrindo caminho pela escala de sensações até a dor e, finalmente,
até uma estridente agonia. Ele tentou relaxar a musculatura, o que acabou apertando todos os nós. Quando estava à beira do estrangulamento, con-seguiu levantar de novo os tornozelos, diminuindo a pressão, permitindo o
retorno de alguma respiração. Não tinha mais certeza se iria agüentar até o anoitecer. Talvez chegasse a um ponto onde ficaria simplesmente incapaz de manter as pernas erguidas.