A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Eddie, que não sabia se tinha alguma…
Eddie, que não sabia se tinha alguma intenção de falar — ou se
tinha alguma coisa para dizer —, acabou se ouvindo fazer um pergunta:
— Você é um fantasma?
— Ainda não — resmungou o homem com os revólveres. — A erva-
do-diabo. A cocaína. Chame como quiser. Tire a camisa.
— Seus braços... — Eddie os vira. Os braços do homem, que
lembrava o tipo extravagante de pistoleiro que a pessoa veria num
faroeste italiano, brilhavam com marcas de um vermelho vivo, maléfico. Eddie sabia muito bem o que marcas daquele tipo significavam. Significavam sangue envenenado. Significavam que o
demônio estava fazendo mais do que bafejando no seu cangote; já estava subindo pelos esgotos que levavam às suas bombas de sangue.
— Esqueça a porra dos meus braços! — disse a pálida aparição.
Ouvia as ondas; ouvia o silvo solitário de um vento que não conhecia obstrução; via aquele moribundo maluco e nada mais que desolação; atrás dele, no entanto, ouvia as vozes murmurantes dos passageiros
desembarcando e um martelar contínuo, abafado.
— Sr. Dean! — Essa voz, pensou, está em outro mundo. Não estava
realmente duvidando disso; só tentava fazer a idéia entrar na sua cabeça como faria passar um prego por uma grossa peça de mogno. — O senhor realmente vai ter...
— Deixe isto aqui, pegue mais tarde — disse o pistoleiro num tom
áspero. — Pelos deuses, você não entende que estou tendo que falar? Falar dói! E não há tempo, seu idiota!
Eddie teria matado alguns por usarem aquela expressão... mas
teve a impressão de que daria alguma dor de cabeça matar aquele sujeito, mesmo que, a julgar por sua aparência, morrer pudesse até
lhe fazer bem.
Mas ele sentiu verdade naqueles olhos azuis; todas as questões foram
apagadas por seu brilho enlouquecido. Eddie começou a desabotoar a camisa. Seu primeiro impulso foi simplesmente rasga-la como fazia Clark Kent quando Lois Lane estava amarrada num trilho de tremou algo
assim, mas aquilo não funcionava na vida real: mais cedo ou mais tarde você teria de explicar os botões perdidos. Então Eddie os fez deslizar pelas casas enquanto as batidas continuavam atrás dele.
Tirou a camisa de dentro da calça e deixou-a cair, revelando a fita
adesiva que atravessava o peito. Parecia alguém nos últimos estágios da recuperação de uma delicada fratura das costelas.
Atirou um olhar para trás e viu uma porta aberta... a beirada da porta
havia desenhado um leque ao se arrastar na areia cinza da praia quando alguém — presumivelmente o moribundo — a abrira. Viu pela abertura o toalete da primeira classe, a privada, o espelho... e nele seu próprio rosto
desesperado, o cabelo preto caindo na testa e nos olhos castanhos. Ao fundo via o pistoleiro, a praia e aves marinhas voando alto, gritando e brigando sobre só Deus sabe o quê.
Começou a mexer na fita, perguntando-se por onde começar, como
descobrir uma ponta solta e uma espécie de desespero desceu sobre ele. Era assim que um cervo ou um coelho deviam se sentir quando, na meta-
de da travessia de uma estrada rural, viravam a cabeça e viam o clarão de
faróis vindo em sentido contrário.
William Wilson, o homem cujo nome Poe tornou famoso, levara
vinte minutos para amarrá-lo. A porta do banheiro da primeira classe seria
aberta em cinco, sete minutos no máximo.
— Não consigo tirar esta merda — disse ele ao homem que oscilava
na sua frente. — Não sei quem você é nem onde estou, mas garanto que
há fita demais e tempo de menos.
14
Deere, o co-piloto, sugeriu que o comandante McDonald parasse de bater
na porta, como continuava fazendo em sua frustração pela falta de respos-
ta do homem da 3A.
— Para onde ele pode ir? — perguntou Deere. — O que ele pode
fazer? Dar a descarga em si mesmo na privada? Ele é grande demais.
— Mas se estiver carregando... — começou McDonald. — Se estiver, está carregando muito — disse Deere, que também já
usara cocaína em diversas ocasiões. — Não vai conseguir se livrar dela.
— Desligue a água — ordenou McDonald bruscamente.