A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 46 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Eddie, que não sabia se tinha alguma…

Eddie, que não sabia se tinha alguma intenção de falar — ou se

tinha alguma coisa para dizer —, acabou se ouvindo fazer um pergunta:

— Você é um fantasma?

— Ainda não — resmungou o homem com os revólveres. — A erva-

do-diabo. A cocaína. Chame como quiser. Tire a camisa.

— Seus braços... — Eddie os vira. Os braços do homem, que

lembrava o tipo extravagante de pistoleiro que a pessoa veria num

faroeste italiano, brilhavam com marcas de um vermelho vivo, maléfico. Eddie sabia muito bem o que marcas daquele tipo significavam. Significavam sangue envenenado. Significavam que o

demônio estava fazendo mais do que bafejando no seu cangote; já estava subindo pelos esgotos que levavam às suas bombas de sangue.

— Esqueça a porra dos meus braços! — disse a pálida aparição.

Ouvia as ondas; ouvia o silvo solitário de um vento que não conhecia obstrução; via aquele moribundo maluco e nada mais que desolação; atrás dele, no entanto, ouvia as vozes murmurantes dos passageiros

desembarcando e um martelar contínuo, abafado.

— Sr. Dean! — Essa voz, pensou, está em outro mundo. Não estava

realmente duvidando disso; só tentava fazer a idéia entrar na sua cabeça como faria passar um prego por uma grossa peça de mogno. — O senhor realmente vai ter...

— Deixe isto aqui, pegue mais tarde — disse o pistoleiro num tom

áspero. — Pelos deuses, você não entende que estou tendo que falar? Falar dói! E não há tempo, seu idiota!

Eddie teria matado alguns por usarem aquela expressão... mas

teve a impressão de que daria alguma dor de cabeça matar aquele sujeito, mesmo que, a julgar por sua aparência, morrer pudesse até

lhe fazer bem.

Mas ele sentiu verdade naqueles olhos azuis; todas as questões foram

apagadas por seu brilho enlouquecido. Eddie começou a desabotoar a camisa. Seu primeiro impulso foi simplesmente rasga-la como fazia Clark Kent quando Lois Lane estava amarrada num trilho de tremou algo

assim, mas aquilo não funcionava na vida real: mais cedo ou mais tarde você teria de explicar os botões perdidos. Então Eddie os fez deslizar pelas casas enquanto as batidas continuavam atrás dele.

 

Tirou a camisa de dentro da calça e deixou-a cair, revelando a fita

adesiva que atravessava o peito. Parecia alguém nos últimos estágios da recuperação de uma delicada fratura das costelas.

Atirou um olhar para trás e viu uma porta aberta... a beirada da porta

havia desenhado um leque ao se arrastar na areia cinza da praia quando alguém — presumivelmente o moribundo — a abrira. Viu pela abertura o toalete da primeira classe, a privada, o espelho... e nele seu próprio rosto

desesperado, o cabelo preto caindo na testa e nos olhos castanhos. Ao fundo via o pistoleiro, a praia e aves marinhas voando alto, gritando e brigando sobre só Deus sabe o quê.

Começou a mexer na fita, perguntando-se por onde começar, como

descobrir uma ponta solta e uma espécie de desespero desceu sobre ele. Era assim que um cervo ou um coelho deviam se sentir quando, na meta-

de da travessia de uma estrada rural, viravam a cabeça e viam o clarão de

faróis vindo em sentido contrário.

William Wilson, o homem cujo nome Poe tornou famoso, levara

vinte minutos para amarrá-lo. A porta do banheiro da primeira classe seria

aberta em cinco, sete minutos no máximo.

— Não consigo tirar esta merda — disse ele ao homem que oscilava

na sua frente. — Não sei quem você é nem onde estou, mas garanto que

há fita demais e tempo de menos.

 

14

 

Deere, o co-piloto, sugeriu que o comandante McDonald parasse de bater

na porta, como continuava fazendo em sua frustração pela falta de respos-

ta do homem da 3A.

— Para onde ele pode ir? — perguntou Deere. — O que ele pode

fazer? Dar a descarga em si mesmo na privada? Ele é grande demais.

— Mas se estiver carregando... — começou McDonald. — Se estiver, está carregando muito — disse Deere, que também já

usara cocaína em diversas ocasiões. — Não vai conseguir se livrar dela.

— Desligue a água — ordenou McDonald bruscamente.