A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Passageiros da companhia aérea muitas vezes tinham medo de voar.
Num mundo onde seqüestros e tráfico de drogas haviam se transfor-
mado em fatos banais, o pessoal da companhia aérea muitas vezes tinha
medo dos passageiros.
A voz que introduzira esses pensamentos em sua mente fora a
de uma instrutora da escola de vôo, uma veterana durona que
parecia ter voado nos primeiros teco-tecos. Ela dizia: Não ignorem
suas suspeitas. Mesmo se esquecerem tudo que aprenderam sobre
como lidar com terroristas reais ou potenciais, lembrem-se disto: não
ignorem suas suspeitas. Em certos casos, vocês farão parte de uma
tripulação que, durante o inquérito, dirá que não fazia a menor idéia
do que iria acontecer até o sujeito puxar uma granada e dizer vire à
esquerda para Cuba ou todo mundo nesta aeronave vai voar pelos
ares. Na maioria das vezes, porém, encontramos duas ou três pessoas
— principalmente comissárias de bordo, as comissárias que vocês,
mulheres, serão em menos de um mês — que dizem que perceberam
alguma coisa. Uma cosquinha. Uma sensação de que havia alguma
coisa errada com o cara da 91C ou a moça da 5A. Sentiram alguma
coisa, mas não fizeram nada. Será que elas deveriam ser despedidas
por isso? Meu Deus, não! Você não pode amarrar um sujeito na cadeira
porque não gostou do modo como ele coçava as espinhas. O verdadeiro
problema é que elas sentiram alguma coisa... e depois esqueceram.
A velha matrona tinha erguido um dedo rude. Jane Dorning,
juntamente com as colegas de turma, ouvira embevecida ela dizer:
Se você sentir essa cosquinha, não faça nada... mas também não
esqueça. Porque existe sempre aquela pequena chance de você
conseguir impedir alguma coisa antes que ela aconteça... alguma
coisa como uma escala não programada de 12 dias no pátio do
aeroporto de algum convulsionado país árabe.
Só lentes coloridas, mas...
Obrigado, sai.
Ele tinha falado dormindo? Ou isso havia sido um lapso
confuso que revelava algum outro idioma?
Jane decidiu que ficaria de olho.
E não esqueceria.