A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Ouviu a sirene e viu o carro…
Ouviu a sirene e viu o carro roncando rua abaixo. Eles, pensou. Co-
meçou a erguer o revólver e então se lembrou: eram pistoleiros. Pistoleiros
cumprindo seu dever. Virou-se e voltou para a loja do alquimista.
— Experimente isto, filho-da-puta! — gritou Delevan. Os olhos de
Roland voaram para o espelho convexo a tempo de ver um dos pistoleiros
(aquele cuja orelha havia sangrado) se debruçando na janela com um rifle de
cano curto. Quando seu parceiro parou a carruagem com um guincho
de freios que fez as rodas de borracha soltarem fumaça na calçada, ele
enfiou uma bala no tambor.
Roland se jogou no chão.
Katz não precisou de nenhum espelho para ver o que iria acontecer. Pri-
meiro o cara maluco, agora os polícias malucos. Ai, que dia.
— Abaixem-se!— gritou para seu balconista e para Ralph, o segurança,
e caiu de joelhos atrás do balcão sem esperar para ver se eles iriam fazer o
mesmo ou não.
Então, uma fração de segundo antes de Delevan engatilhar a espin-
garda, o balconista caiu em cima dele como um ávido centro-avante dri-
blando o zagueiro na grande área, impelindo a cabeça de Katz contra o chão
e quebrando seu queixo em dois lugares.
Por entre a dor que irrompeu subitamente, Katz ouviu o estampido
da espingarda, ouviu o vidro que sobrava na vitrine se estilhaçar — junta-
mente com frascos de loção de barba, água-de-colônia, perfume, solução
bucal, xarope contra tosse, Deus sabe o que mais. Mil odores conflitantes
brotaram, criando um fedor infernal. Antes que ele se dissipasse, Katz
pediu novamente que Deus fizesse seu pai apodrecer como castigo por ter
acorrentado aquela maldita drogaria ao tornozelo do próprio filho.
Roland viu frascos e caixas voarem no furacão provocado
pelo tiro. Uma caixa de vidro contendo cronômetros se desintegrou. A maior parte dos cronômetros também. Os pedaços voaram para cima numa nuvem faiscante.
Eles não podem saber se ainda há gente inocente aqui ou não,
pensou ele. Não podem saber e mesmo assim usam um rifle com carga de fragmentação!
Era imperdoável. Sentiu raiva e suprimiu-a. Eles eram pistoleiros.
Melhor acreditar que seus cérebros estavam sofrendo as seqüelas das pan-cadas na cabeça que tinham levado. Melhor isso do que achar que estavam fazendo uma coisa daquelas conscientemente, sem o menor cuidado com
quem poderiam ferir ou matar.
Provavelmente estavam esperando que ele corresse ou atirasse. Em vez disso, Roland rastejava para a frente, mantendo o corpo bai-
xo. Cortava as mãos e os joelhos em cacos de vidro e a dor trouxe Jack Mort de volta à consciência. Achava ótimo Mort estar de volta. Iria preci-
sar dele. Quanto às mãos e joelhos de Mort, isso não importava. Ele podia suportar facilmente a dor e os ferimentos estavam sendo infligidos ao cor-
po de um monstro que merecia.
Atingiu a área que ficava abaixo do que restava da vitrine de vidro.
Estava à direita da porta. Ficou ali ajoelhado, o corpo encolhido. Pôs no
coldre o revólver que trazia na mão direita.
Não precisaria dele.
— O que você está fazendo, Carl? — gritou O'Mearah. Em sua cabeça
despontou uma manchete do Daily News: POLICIAIS MATAM 4 NUMA BADERNA EM DROGARIA DO WEST SIDE.
Delevan ignorou-o e enfiou outra bala na espingarda.
— Vamos levar esta merda até o fim.
7
Aconteceu exatamente como o pistoleiro achou que iria acontecer.
Furioso por ter sido facilmente enganado e desarmado por um
homem que talvez não fosse mais perigoso do que qualquer outro
freqüentador das ruas daquela cidade que não parecia ter limites, ainda grogue devido à pancada na cabeça, O'Mearah acabou acompanhando o idiota que atirara primeiro com o rifle. Os dois correram ligeiramente
curvados, como soldados atacando uma posição inimiga, mas essa foi a única concessão que fizeram à idéia de que o adversário ainda poderia estar lá dentro. Em suas mentes, ele já tinha saído pelos fundos
e estaria agora fugindo por algum beco.
Atravessaram a calçada cheia de estilhaços de vidro e, quando o poli-
cial Carl Delevan abriu a porta, agora sem vidraça, e começou a avançar
loja adentro com o rifle com carga de fragmentação, o pistoleiro se levan-tou com as mãos unidas num único punho e deu um golpe em sua nuca.
Ao testemunhar diante do comitê de investigação, Delevan alegaria
não se lembrar de absolutamente nada após se ajoelhar no Clements e ver a carteira do elemento embaixo do balcão. Os membros do comitê, na-quelas circunstâncias, acharam tal amnésia tremendamente conveniente,
e Delevan teve sorte de só sair de lá com sessenta dias de suspensão não-remunerada. Roland, contudo, teria acreditado em parte da história e, sob outras circunstâncias (se, por exemplo, o maluco não tivesse descarregado
um rifle de fragmentação numa loja que poderia estar cheia de gente ino-cente), teria até tido empatia pelo menos com uma idéia de confusão
mental. Quando você tem o crânio golpeado duas vezes em meia hora, uma certa desordem cerebral é normal.
Quando Delevan caiu, parecendo, de uma hora para outra, tão sem
ossos quanto um saco de aveia, Roland tirou o rifle de suas mãos, agora frouxas.
— Pare!—gritou O'Mearah. Na voz, uma mistura de raiva e depres-
são. Estava começando a levantar o Magnum de Johnny Gordo, mas foi como Roland suspeitara: os pistoleiros daquele mundo eram lastimavel-
mente vagarosos. Ele poderia ter acertado três vezes em 0'Mearah, mas não houve necessidade. Limitou-se a sacudir a espingarda num arco vigo-
roso e ascendente. Houve um baque seco quando a coronha se conectou com o lado esquerdo do rosto de O'Mearah, como o som de um bastão de beisebol chocando-se contra toda a energia de um lançador. De imediato,
o rosto inteiro de O'Mearah, da bochecha para baixo, deslocou-se cinco centímetros para a direita. Seriam necessárias três cirurgias e quatro próteses
de aço para consertá-la. Ele ficou um instante parado, sem acreditar na