A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 121 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

dos dois. Depois de Eddie ter começado…

dos dois. Depois de Eddie ter começado (num tom hesitante e com aquela

espécie de raiva e ressentimento que têm origem na dor profunda), o

pistoleiro poderia tê-lo feito parar, poderia ter dito a ele: Não precisa con-

tinuar, Eddie. Já entendi tudo.

Só que isso não ia ajudar Eddie. Eddie não estava falando para ajudar

Henry porque Henry já estava morto. Estava falando para enterrar Henry

de vez. E para se lembrar que, embora Henry estivesse morto, ele, Eddie,

não estava.

Por isso o pistoleiro ouviu e não disse nada.

O enredo era simples: Eddie acreditava que tinha roubado a vida do

irmão. Henry também acreditara nisso. Henry poderia ter se convencido

disso por sua própria conta ou poderia ter sido convencido pela mãe que,

com tanta freqüência, advertia Eddie sobre como os dois, ela e Henry,

estavam se sacrificando por ele, para que Eddie pudesse ter o máximo de

segurança possível naquela selva de cidade, para que pudesse ser feliz, isto é,

ter o máximo de felicidade possível naquela selva de cidade, para que não

acabasse como a pobre irmãzinha de que quase já nem se lembrava, mas

que tinha sido tão bonita. Deus a amava. Ela estava com os anjos, o que era

sem dúvida um excelente lugar para se estar, mas a mãe não queria que

Eddie fosse cedo demais para junto dos anjos, atropelado na estrada por

algum maluco embriagado como aconteceu com a irmã, largado na calça-

da com as tripas espalhadas depois de esfaqueado por um viciado em dro-

gas por causa dos 25 cents que trazia no bolso. Como a mãe não achava

que Eddie quisesse ir para perto dos anjos tão cedo, era melhor que ele

ouvisse o que seu irmão mais velho dizia e fizesse o que seu irmão mais

velho mandasse, nunca esquecendo que Henry estava se sacrificando por

amor.

Eddie disse ao pistoleiro que duvidava que sua mãe soubesse de algu-

mas coisas que eles já tinham feito: surrupiar livros de histórias em qua-

drinhos do quiosque de doces na Rincon Avenue ou fumar atrás da fábrica

na rua Cohoes.

Certa vez viram um Chevrolet com a chave na ignição e embora Henry

mal soubesse dirigir - ele estava com 16 anos e Eddie com oito -, empurrou o

irmão mais novo para o carro e disse que iam para o centro de Nova York.

Eddie estava assustado, chorando, Henry além de assustado estava furioso

com Eddie, mandava que calasse a boca, mandava que parasse de ser uma

porra de um bebê. Ele tinha dez dólares e Eddie três ou quatro; poderiam

passar o dia inteiro num cinema, depois pegar um trem e estar de volta antes

que a mãe tivesse tempo de pôr o jantar na mesa e ficar preocupada por

estarem demorando. Mas Eddie continuava chorando e perto da

Queensboro Bridge eles viram um carro de polícia numa rua lateral. Embora

Eddie tivesse certeza que o tira lá dentro nem estava olhando para o lado

deles, respondeu que sim quando Henry perguntou num tom rouco, tremido,

se Eddie achava que o policial os vira. Henry ficou branco e deu tamanha

arrancada que quase amputou um hidrante de incêndio. Desceu a quadra

correndo enquanto Eddie, agora em pânico, ainda lutava com a complicada

maçaneta da porta. Henry parou, virou para o lado e mandou Eddie saltar do

carro. Ele também saltou e esbofeteou duas vezes o irmão. Então andaram -

bem, na realidade se esgueiraram - todo o caminho de volta para o Brooklyn.

Isso lhes tomou quase todo o resto do dia e, quando a mãe perguntou por que estavam tão quentes, suados e exaustos, Henry disse que tinha

passado quase todo o dia ensinando Eddie a rebater na quadra de basquete

do outro lado do quarteirão. Então uns maus elementos chegaram e eles

tiveram de correr. A mãe deu um beijo em Henry e sorriu para Eddie.

Perguntou a Eddie se ele não tinha o melhor irmão mais velho do mundo.

Eddie concordou. E foi uma afirmação sincera. Achava que tinha.

— Ele ficou assustado como eu naquele dia — disse Eddie a

Roland,

os dois sentados a ver o resto do dia minguar sobre o mar, onde logo a

única luz seria o brilho refletido das estrelas. — Para falar a verdade, ficou

até mais assustado, porque achou que o policial tinha nos visto e eu sabia

que não tinha. Foi por isso que Henry começou a correr. Mas ele desistiu.

Essa foi a parte importante. Ele desistiu.

Roland não disse nada.

— Você entende isso, não é? — Eddie olhava para Roland com olhos

duros, indagadores.

— Entendo.

— Ele ficava sempre assustado, acabava sempre desistindo. Roland achou que teria sido melhor para Eddie e, quem sabe, a longo

prazo melhor para os dois, se Henry tivesse continuado a fugir naquele

dia... ou num outro dia qualquer. Mas gente como Henry nunca faria isso. Gente como Henry sempre desiste, porque gente como Henry sabe usar

a confiança dos outros. Era a única coisa que gente como Henry realmente sabia usar. Primeiro transformavam a confiança dos outros em

carência, depois transformavam a carência numa droga e, uma vez feito

isso, eles - qual era mesmo a palavra que Eddie tinha? - empurravam. Sim. Eles empurravam.

— Acho que vou dormir — disse o pistoleiro.

No dia seguinte, Eddie continuou, mas Roland já sabia tudo. Henry não praticara esportes no colégio porque não podia participar dos treinos.

Henry tinha de tomar conta de Eddie. O fato de Henry ser muito

magro, ter pouca coordenação e sequer ser muito ligado em esportes nada tinha a ver com isso, é claro; Henry teria dado um incrível lançador

no beisebol ou um daqueles grandes saltadores do basquete, assegurava a

mãe de vez em quando. As notas de Henry eram ruins e ele teve de repetir um certo número de matérias — mas não porque Henry fosse

estúpido; tanto Eddie quanto a Sra. Dean sabiam que Henry era inteli-

gente como ninguém da área. Mas Henry tinha de passar o tempo que devia dedicar ao estudo ou aos deveres de casa tomando conta de Eddie

(o fato de a tomada de conta geralmente ocorrer na sala da Sra. Dean, com os dois garotos esparramados no sofá vendo televisão ou lutando

no chão parecia não ter importância). Como resultado das notas ruins,

Henry só foi aceito pela Universidade de Nova York e não pôde se dar ao luxo de freqüentá-la porque as notas ruins excluíram qualquer possi-

bilidade de conseguir uma bolsa de estudos. Então Henry ficou à deriva

e acabou no Vietnã. Lá perdeu a maior parte do joelho e, para ajudá-lo a suportar a dor, que foi muito forte, lhe deram uma droga com uma forte

base de morfina. Quando ele ficou melhor, o afastaram da droga, só que

não fizeram um trabalho muito bom, pois ao voltar a Nova York Henry

ainda carregava um vício nas costas, um vício faminto esperando para ser

alimentado. E um mês ou dois depois ele foi se encontrar com um

homem, e assim, cerca de quatro meses mais tarde, menos de um

mês depois da morte da mãe, Eddie viu pela primeira vez o irmão

cheirando um pozinho branco em cima de um espelho. Eddie

presumiu que fosse coca. Na realidade era heroína. E se você

examinasse bem as coisas, de quem era a culpa?

Roland não disse nada, mas ouviu a voz de Cort em sua mente: a

culpa está sempre no mesmo lugar, minhas lindas crianças: com quem

é fraco o bastante para suportar a censura.

Quando descobriu a verdade, Eddie ficou primeiro chocado, depois

furioso. Henry não reagira prometendo deixar de cheirar, mas pedindo

que Eddie não o censurasse por agir tão mal; o Vietnã o transformara num

inútil saco de bosta, ele era fraco, ia embora, era o melhor a fazer, Eddie

tinha razão, a última coisa de que ele precisava era um viciado de um

irmão fedorento andando por perto, enxovalhando o lugar. Só esperava

que Eddie não o julgasse com demasiada severidade. Tinha se tornado um

fraco, admitia; alguma coisa no Vietnã o transformara num fraco, o fizera

apodrecer do mesmo modo como a umidade fazia apodrecer os cordões

dos tênis e o elástico das cuecas. Havia também alguma coisa no Vietnã

que fazia apodrecer o próprio coração, Henry disse a ele banhado em lá-

grimas. Só esperava que Eddie se lembrasse de todos os anos em que tinha

tentado ser forte.

Por Eddie.

Pela mamãe.

Então Henry tentou ir embora. E Eddie, é claro, não deixou que isso

acontecesse. Eddie estava consumido de culpa. Eddie vira o horror da

cicatriz onde antigamente havia uma perna sem qualquer marca, vira um

joelho que era agora mais Teflon que osso. Tiveram uma terrível discus-

são no corredor, Henry parado com uma velha calça cáqui e a mochila

pronta numa das mãos e olheiras roxas sob os olhos, Eddie usando apenas

um short de malha amarela, Henry dizendo você não precisa de mim ron-

dando por aqui, Eddie, sou um veneno para você e sei disso, e Eddie

gritando volte, você não vai a parte alguma, ponha de novo essa bunda

para dentro, e foi como aconteceu até a Sra. McGursky sair do apartamento

dela e gritar: Vá ou fique, isso não é da minha conta, mas é melhor resolver

bem rápido o que vai fazer ou vou chamar a polícia. A Sra. McGursky pare-

cia pronta a insistir nas advertências, mas nesse momento reparou que

Eddie só estava usando um calção. E você está indecente, Eddie Dean!, co-

mentou antes de sumir bruscamente atrás da porta. Foi como ver um