A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Uma o quê?— O'Mearah perguntou.
Dessa vez houve uma longa pausa. A testa do homem se enrugou.
— Não sei exatamente como se diz... uma coisa onde ele guarda o
revólver. Para abrir é preciso apertar...
— Um gancho de mola! — disse Delevan. — Grande merda! —
Outra troca de olhares entre os parceiros. Nenhum dos dois queria ser o
primeiro a dizer àquele sujeito que Johnny Gordo provavelmente já
colhera a grana de sua carteira, fizera passar o traseiro pela porta dos
fundos e atirara o couro vazio pelo muro do beco atrás do prédio... mas
uma arma num gancho... isso era diferente. Furto era apenas uma
possibilidade, mas sem a menor dúvida a acusação por ocultação de arma
parecia certa. Talvez não fosse tão boa quanto furto, mas era um pé na
porta.
— E aí? — perguntou O'Mearah.
— Aí ele me disse que eu não tinha carteira nenhuma. Disse... —
pausa — que eu devia ter caído na rua, quero dizer, que a carteira devia ter
caído na rua e que era melhor eu me lembrar logo disso se quisesse ficar
com a cara no lugar. Então lembrei de ter visto o carro de vocês estaciona
do na quadra e achei que talvez ainda estivessem por aqui. Então vim.
— Tudo bem — disse Delevan. — Vou entrar na frente com meu
parceiro, e já. Pode nos dar um minuto — um minuto completo —, por
que pode surgir algum problema. Depois entre, mas fique junto da porta.
Está entendendo?
— Estou.
— Tudo bem. Vamos pegar este filho-da-puta.
Os dois tiras entraram. Roland esperou trinta segundos e foi atrás.
"Johnny Gordo" Holden estava fazendo mais do que protestar. Estava
berrando.
— O cara é maluco! O cara entrou aqui, não tinha a menor idéia do que queria, então viu as balas na Bíblia do Atirador, mas nem sabia quantas vinham numa caixa, quanto custava e o que ele contou sobre eu pedir
para ver mais de perto o porte de arma é a mentira mais escrota que eu já ouvi, porque ele não tem porte de arma... — Johnny Gordo se interrompeu. — Ali está ele! Ali está o nojento! Venha cá! Estou
fotografando você, parceiro! Estou guardando a sua cara! Da próxima vez que você vir a minha vai lamentar pra cacete! Tenha certeza disso! A mais puta certeza...
— Não está com a carteira deste homem? — perguntou O'Mearah. — Você sabe que não estou com a carteira dele! — Se importa se eu der uma olhada atrás desse balcão? — insistiu
Delevan. — Só pra ter certeza!
— Porra-de-merda-de-um-cacete! O balcão é de vidro! Está vendo
alguma carteira em algum lugar?
— Não, não em algum lugar... Estou querendo dizer aqui — disse
Delevan, movendo-se para a caixa registradora. Sua voz foi um ronronar
de gato. Perto da caixa, um faixa reforçada de aço cromado com meio metro de largura corria pela borda do balcão. Delevan se virou para trás,
para o homem no terno azul, que assentiu.
— Quero vocês fora daqui agora! — falou Johnny Gordo. Tinha
perdido um pouco de sua cor. — Voltem com um mandado, aí sim. Mas
por ora, quero vocês dois fora daqui! Ainda estou na porra de um país livre, vocês sab... ei! Ei! Ei, PARE COM ISSO!
O'Mearah espiava por cima do balcão.
— Isso é ilegal! — gritava Johnny Gordo. — É ilegal pra cacete, a
Constituição... a porra do meu advogado... dê meia-volta neste minuto ou...
— Só quis olhar mais de perto a mercadoria — disse O'Mearah num
tom suave —, porque o vidro do balcão está imundo. Foi por isso que eu
quis olhar mais de perto. Não é, Carl?
— Pura verdade, parceiro — disse Delevan solenemente. — E olhe o que eu achei.
Roland ouviu um clique na caixa registradora e de repente a mão do
pistoleiro de uniforme azul estava segurando um revólver realmente grande.
Percebendo, enfim, que era a única pessoa naquele lugar capaz de
contar uma história diferente do conto de fadas inventado pelo policial
que pegara sua Magnum, Johnny Gordo ganhou um ar sombrio.
— Tenho uma licença para isso — disse ele.
— Para portar uma arma? — perguntou Delevan.
— É.