A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— É realmente difícil descrever, cara. Eu estava observando
aquela porta. Foi o que me assustou. Quando você vê alguém se
movendo naquela porta, é como se estivesse se movimentando com a pessoa. Você sabe do que estou falando.
Roland assentiu.
— Bem, eu observei a coisa como se fosse um filme... não
importa, isto não vem ao caso... até o letreiro de fim. Então você a virou para este lado da porta e pela primeira vez eu estava olhando para mim mesmo. Era como... — Tentou, mas não encontrou as
palavras. — Não sei. Acho que era como se eu estivesse olhando num espelho, mas não estava, porque... porque era também como olhar para outra pessoa. Era como estar sendo
virado pelo avesso. Como estar em dois lugares ao mesmo tempo. Merda, não sei.
Mas o pistoleiro estava muito assustado. Fora isso que sentira
quando eles atravessaram; era isso que tinha acontecido a ela, não, não apenas a ela, às duas: por um momento Detta e Odetta tinham olhado uma para a outra, não do modo como duas
pessoas contemplariam seus reflexos num espelho, mas como duas pessoas distintas; o espelho se tornava uma vidraça de janela e, por um momento, Odetta tinha visto Detta e Detta tinha visto Odetta
e ambas tinham ficado horrorizadas.
Elas se conheceram, o pistoleiro pensou sombriamente. Talvez
não tivessem se conhecido antes, mas agora se conhecem. Podem tentar esconder isso de si mesmas, mas por um momento elas viram, souberam,
e esse conhecimento tem de continuar com elas.
— Roland?
— O quê?
— Só queria ter certeza que não tinha dormido de olhos
abertos. Porque por um minuto você pareceu estar, sabe como
é, muito tempo atrás e muito longe daqui.
— Se foi isso mesmo, agora estou de volta — disse o
pistoleiro. — Vou dormir. Lembre-se do que eu disse, Eddie: fique
de guarda.
— Vou ficar — disse Eddie, mas Roland sabia que, doente ou
não, a vigília daquela noite caberia a ele.
Tudo mais tinha se seguido disso.