A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Ele gesticulou, mas não apontou. Não conseguia apontar. Eddie
percebeu por que o homem tinha uma tira de camisa suja enrolada na
mão direita: alguns de seus dedos haviam sido arrancados.
— Pegue — disse o pistoleiro. — Corte a fita. Tente não se cortar.
E fácil. Vai ter de tomar cuidado, mas também vai ter de agir depressa.
Não há tempo a perder.
— Eu sei — disse Eddie se ajoelhando na areia. Nada daquilo
era real. Simplesmente era assim, era essa a resposta. Como teria dito Henry Dean, o grande sábio e eminente viciado: Um, dois, três, quatro, vamos ficar muito doidos, de fato, a vida é uma farsa, o mundo um
esculacho, então ponha um Creedence e chape.
Nada daquilo era real, não passava de um delírio
extraordinariamente nítido, portanto o melhor a fazer era ir devagar e
seguir o fluxo.
Certamente era um delírio nítido. Ele estava estendendo a mão
para o zíper — ou talvez fosse um cordão de puxar — na "bolsa" do
homem quando viu que ela havia sido costurada num padrão axadrezado de tiras de couro cru, algumas das quais tinham se rompido e sido cuidadosamente unidas — um conserto suficientemente
cuidadoso para que elas continuassem deslizando pelos precários ilhoses.
Eddie puxou a alça, abriu bem a bolsa e encontrou a faca debaixo
de uma trouxa ligeiramente úmida, o pedaço de camisa amarrado em volta das balas. Só o cabo já bastou para deixá-lo sem fôlego... era a verdadeira e suave mistura do cinza-branco da prata pura, gravada com
um complexo emaranhado de desenhos que atraíam o olhar, levavam a
...
A dor explodiu em sua orelha, ressoou na cabeça e
momentaneamente tampou sua visão com uma nuvem vermelha. Sem
equilíbrio, ele caiu sobre a bolsa aberta, bateu na areia e ergueu os olhos para o homem pálido com botas cortadas. Não era um blefe. Os olhos azuis cintilando na cara do moribundo eram os olhos da mais pura
verdade.
— Admire mais tarde, prisioneiro — disse o pistoleiro. — Por
ora trate apenas de usar.
Eddie sentiu a orelha latejando, inchando.
— Por que você fica me chamando assim?
Corte a fita — disse o pistoleiro severamente. — Se arrombarem aquele
longínquo banheiro enquanto você ainda estiver com a coisa, tenho a impressão de que vai ter de ficar aqui por um tempo muito longo. E, mais rápido do que você imagina, na companhia de um cadáver.
Eddie tirou a faca da bainha. Não era velha; era mais do que velha,
mais do que antiga. A lâmina, amolada quase ao ponto da invisibilidade, parecia ter captado no metal toda a força da idade.
— É, parece afiada — disse, e sua voz não estava firme.
16
Os últimos passageiros iam se enfileirando na passarela. Um deles, uma
senhora de uns setenta anos com aquele apurado ar de confusão que só
passageiros de primeiro vôo com muitos anos de vida, ou muito pouco
inglês, parecem capazes de exibir, parou para mostrar sua passagem para
Jane Dorning.
— Como vou conseguir achar meu vôo para Montreal? — perguntou
ela. — E minha bagagem? Vou passar pela alfândega aqui ou lá?
— Há um agente de desembarque no final da passarela que vai lhe
dar todas as informações de que a senhora precisa — disse Jane.
— Bem, eu não entendo por que você não pode me dar todas as
informações de que eu preciso — disse a velha. — Aquela passarela
continua cheia de gente.
— Siga a fila, por favor, senhora — disse o comandante McDonald.
— Temos um problema.
— Bem, perdão por incomodar — disse a mulher, ofendida. — Devo
ser velha demais para me ouvirem!
E avançou com passos largos, o nariz empinado como focinho de
cachorro sentindo cheiro de fogo mais adiante, a bolsa agarrada numa das
mãos, o envelope com as passagens na outra (dava para ver tantos talões de
embarque que a pessoa ficava tentada a acreditar que aquela senhora esta-
va concluindo a volta ao mundo com troca de aviões em cada escala ao
longo do trajeto).
— Conheço uma senhora que talvez nunca mais queira voar nos
grandes jatos da Delta — murmurou Susy.
— Quero que ela se foda e voe socada na cueca do Superman —
disse McDonald. — Foi a última?