A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Capítulo 24
Ele vai estar abaixado, pensou o pistoleiro, sabendo que precisaria de sorte
para acertar aquele alvo com um brinquedinho indigno de confiança, mesmo se sua avaliação estivesse certa.
Quando percebeu que a provocação do soldado de Balazar ia tirar
Eddie do sério, Roland ficou de joelhos e firmou a mão esquerda no pu-
nho direito, ignorando austeramente o grito de dor que escapara quando
ele fez isto. Só teria uma chance. A dor não importava.
Então o homem de cabelo vermelho pisou no umbral da porta, sor-
rindo e, como sempre, o cérebro de Roland não precisou interferir. O
olho viu, a mão atirou e de repente a cabeça ruiva estava caída contra a parede do corredor com os olhos abertos e com um pequeno buraco azul
na testa. Eddie estava parado na frente do homem, soluçando e gritando,
apertando inutilmente o gatilho do grande revólver com cabo de madeira de sândalo, apertando uma vez atrás da outra, como se fosse preciso con-
tinuar matando o homem de cabelo ruivo.
O pistoleiro esperou por algum fogo cruzado que cortaria Eddie ao
meio e, quando isso não ocorreu, soube que a coisa de fato havia acabado.
Se havia outros soldados, eles já tinham fugido.
Conseguiu ficar com dificuldade em pé, cambaleante, e avançou de-
vagar para onde estava Eddie Dean.
— Pare — disse.
Eddie o ignorou e continuou clicando o gatilho do grande revólver
de Roland apontado para o homem morto.
— Pare com isso, Eddie, ele já morreu. Já morreram todos. Está
saindo sangue dos seus pés.
Eddie o ignorou e continuou puxando o gatilho do revólver. O
burburinho nervoso de vozes lá fora estava perto. As sirenes também.
O pistoleiro estendeu a mão para o revólver e tentou puxá-lo. Eddie
resistiu e, antes que Roland pudesse realmente entender o que estava
acontecendo, Eddie usou o revólver para acertá-lo do lado da cabeça. Roland sentiu uma golfada quente de sangue e bateu com força na
parede. Lutou para continuar de pé - tinham de sair rapidamente de lá.
Pôde, no entanto, apesar de toda a sua força de vontade, sentir que começava a escorregar pela parede e então o mundo sumiu por alguns
momentos num redemoinho cinza.
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Apagou no máximo por uns dois minutos. Depois conseguiu fazer com que as coisas voltassem a entrar em foco e se levantou. Eddie não estava mais no corredor. Seu revólver estava caído no peito do morto de cabelo
ruivo. O pistoleiro se abaixou lutando contra uma onda de tontura, pegou o revólver e deixou-o cair no coldre com um movimento canhestro, enviesado.
Quero meus malditos dedos de volta, pensou fatigado, e suspirou. Tentou recuar para as ruínas da sala, mas o melhor que conseguiu
fazer foi dar um passo trôpego. Parou, tornou a se abaixar e pegou o pu-nhado de roupas de Eddie que conseguiu segurar no gancho do braço
esquerdo. As pessoas que faziam alarde estavam quase lá. Roland achava que os homens que os lideravam eram provavelmente de alguma força policial, milicianos de algum chefe ou coisa parecida... mas havia sempre
a possibilidade de serem novos soldados de Balazar.
— Eddie — grasnou ele. Sua garganta voltara a latejar e doía, mais
até que o ponto inchado ao lado da cabeça, onde Eddie o acertara com o revólver.
Eddie não se virou. Eddie estava sentado no chão com a cabeça
do irmão aninhada na barriga. Tremia de cima a baixo e chorava. 0 pistoleiro procurou sua porta, não achou e sentiu um desagradável
aperto na barriga que era quase terror. Então se lembrou. Com os dois daquele lado, o único meio de criar a porta era fazer contato físico com Eddie.
Estendeu a mão, mas Eddie se encolheu, ainda chorando. — Não encoste em mim — disse.
— Eddie, acabou. Todos morreram e seu irmão também está morto. — Deixe meu irmão fora disto!— gritou Eddie como criança, sendo
dominado por outro acesso de tremores. Agarrava a cabeça cortada de encontro ao peito e a embalava. De repente ergueu os olhos, onde as lágrimas corriam, para o pistoleiro.