A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 182 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

— Quis tirá a prova pra vê…

— Quis tirá a prova pra vê se cês ia acordar — disse ela. — Pode te

lobo por aqui. Parece um terreno muito bom pra eles. Quis ter certeza

que, se vir um lobo subindo por cima de mim, posso conseguir acordar

ocês a tempo. — Mas não havia medo nos olhos dela; eles brilhavam com

maligna satisfação.

— Meu Deus — disse Eddie meio grogue. A lua aparecera, mas

ainda bem próxima do horizonte; tinham dormido menos de duas horas.

O pistoleiro pôs o revólver no coldre.

— Não faça isso de novo — disse ele à Dama na cadeira de rodas.

— O que você vai fazer se eu fizer? Me estuprar? — Se tivéssemos tido vontade de estuprá-la, você já seria agora uma

mulher muito bem comida — disse o pistoleiro num tom tranqüilo. —

Não faça de novo.

Ele tornou a se deitar, puxando o cobertor.

Deus, meu Deus, pensou Eddie, que caos ela criou, que porra.... e foi o

ponto máximo que o pensamento atingiu antes de tornar a desaparecer

num sono exausto. Logo, no entanto, ela estava estilhaçando o ar com

novos gritos, como se um meteoro estivesse caindo em sua cabeça. Em

dois tempos Eddie estava de novo de pé, o corpo inflamado de adrenalina,

as mãos apertadas — e de repente ela estava rindo, uma risada rouca,

áspera.

Eddie ergueu os olhos e viu que a lua tinha avançado menos de dez

graus desde que Detta os acordara pela primeira vez.

Detta pretende continuar fazendo isto, pensou fatigado. Pretende ficar

acordada nos observando e, quando tiver certeza de que estamos entrando em sono profundo, chegando àquele lugar onde você recarrega as energias, vai

abrir a boca e começar novamente a berrar. Vai fazer isso de novo, de novo e de novo até não lhe restar mais nenhuma voz para gritar.

O riso dela parou de repente. Roland avançava em sua direção, som-

bra escura sob o luar.

— Tu fica longe de mim, puto — disse Detta, mas havia um

tremular nervoso em sua voz. — Num vai fazê nada comigo.

— Roland parou na frente dela. Por um momento, Eddie teve

certeza, certeza absoluta, de que a paciência do pistoleiro chegara ao

fim e ele iria muito simplesmente abatê-la como uma mosca. Em vez

disso, espantosamente, Roland pôs um joelho no chão na frente dela,

como um pretendente querendo propor casamento.

— Escute — disse ele, e Eddie mal pôde acreditar que a voz de Roland

pudesse ter aquele tom sedoso. Viu que havia o mesmo espanto profundo

no rosto de Detta, só que ali havia também medo. — Escute o que vou

dizer, Odetta.

— Por que está me chamando de O-Detta? Meu nome não é esse. — Cale a boca, puta — disse o pistoleiro num rosnado, e então,

voltando àquela mesma voz sedosa: — Se estiver me ouvindo e se puder

exercer algum controle sobre ela...

— Por que está me falando assim? Por que está falando como se

estivesse falando com outra pessoa? Pare com essa enrolação de branco!

Está me ouvindo, cara, pare agora com isso!

— ... mantenha a boca dela fechada. Posso amordaçá-la, mas não que-

ro fazer isso. Uma mordaça apertada é coisa perigosa. As pessoas sufocam.

— ESQUEÇA ISSO SEU VUDU PORCO DE BRANCO PUTO! — Odetta. — A voz dele era um sussurro, como o início de chuva.

Ela ficou silenciosa, encarando-o com olhos enormes. Eddie nunca

vira em sua vida tamanha raiva e medo combinados em olhos humanos.

— Não acho que esta puta se importaria se realmente morresse por

causa de uma mordaça apertada. Ela quer morrer, mas talvez ainda pior,

quer que você morra. Mas você não morreu, não até agora e não acho

que Detta seja artigo recente em sua vida. Ela se sente demasiado em casa,

por isso talvez você possa ouvir o que estou dizendo e talvez possa exercer

algum controle sobre ela, mesmo que ainda não possa tomar a frente.

— Não deixe que ela nos acorde pela terceira vez, Odetta.

"Não quero amordaçá-la.

"Mas se for preciso, vou fazer isso."

Ele se levantou, se afastou sem olhar para trás, tornou a se enrolar no

cobertor e logo caiu no sono.

Ela continuou a encará-lo, olhos arregalados, narinas muito abertas.

— Vudu porco de branco — murmurou.

Eddie se deitou, mas desta vez, e apesar do profundo cansaço, o sono

demorou bastante a pegá-lo de novo. Ele quase adormecia, esperava ouvir

os gritos dela e acordava de novo.